O outro teste não tinha nada de bom. Alguma coisa me dizia que eles não queriam um modelo para desfilar ou tirar fotos legais. Sharon fazia (e ainda faz) parte de um grande esquema de prostituição. O que ela faz nada mais é do que aliciar jovens que são usados para satisfazer seus clientes de alto nível. Ela é somente a ponta do iceberg desse esquemão. Na verdade a coisa é muito maior, mas eu não vou entrar em detalhes aqui. Quando falei com ela dizendo que eu pensava que tava entrando numa coisa, no fim essa coisa era outra, a resposta dela foi mais ou menos assim, “é pegar ou largar”! Resolvi pegar e isso é uma das coisas que eu mais me arrependo em toda minha vida. Zuei muito até aqui; sério, fiz quase tudo nessa vida, mas acho que apesar de tanta coisa tive uma vida normal até o momento que aceitei esse “trabalho”. Financeiramente, tudo mudou mesmo. As sofridas libras que eu recebia num mês lavando banheiro e sendo garçon, eu recebia em duas horas nesse novo “emprego”.
Passei a ser um objeto, um código no menu de um super hotel em Londres. Somente os clientes dessa enorme cadeia de prostituição que abrangia toda a Europa sabiam desse código e quando eles pediam por ele, recebiam no quarto um segundo menu, impresso ou eletrônico. Eram clientes ligados a grandes empresas, gente da corte, políticos, nobreza, enfim, pelegos e burgueses. Gente muito rica, homens e mulheres, mas apesar de poder e grana, viviam numa puta solidão e carência. Nem sempre a coisa era só prostituição; eles queriam simplesmente ter alguém para sair ou para conversar. As pessoas com as quais me relacionei estavam totalmente presas às suas máscaras e comigo elas mostravam quem realmente eram. Sabe de uma coisa? Tudo isso me deixou decepcionado com a vida, com o ser humano. O mundo que eu via, que passava diante dos meus olhos, que acontecia na TV, nos jornais, etc, era uma mentira, a realidade era podre. Aquela gente dizia ser um bem para a sociedade, mas diziam que precisavam sair da realidade as vezes porque viver só na real, para eles, era quase impossível. Por isso eles compravam, pagavam e presenteavam garotas e garotos como eu que precisavam sobreviver e não tinham amor próprio. Cara, isso é cruel! Eu perdi o gosto pelas coisas; comecei a comprar roupas bacanas, perfumes caros, comecei a ir na academia todo dia, mas sexo para mim era trabalho, perdeu o tesão. Fiquei um ano nessa vida, me relacionando com mulheres com idade para serem minha mãe, com homens que tinham vida dupla, respeitados na sociedade, mas sem coragem para mostrarem quem realmente eram. Nessa fase comecei a usar drogas. Mas depois desse um ano me libertei, graças a uma pessoa, um anjo, que me encontrou caído no chão numa rave em Brighton, eu estava lá no fundo do poço e com amor e paciência ela me fez libertar dessas drogas e da prostituição.
Lá no Brasil somente meu irmão Felipe ficou sabendo da minha vida de puto e nunca concordou, claro. E ele estava certo. No meio disso tudo o que eu mais queria era a minha família; mesmo sendo a segunda família, a do papai, com todas as dificuldades; somente agora eu vi o que é mesmo dificuldade. No meio disso tudo me senti sujo e comecei a pensar no papai, que com tudo, era um homem honesto, lutou e venceu na vida, sem perder a dignidade. Por que eu não saí dessa vida? Porque dessa vida não se sai, se foge dela. E foi isso que eu fiz. Levou um ano pra eu fazer isso porque foi o momento e a oportunidade que apareceram. Eu fugi, mas infelizmente as marcas continuam, estão presentes e a única coisa que eu quero hoje é continuar vivendo…