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Rosângela, Rodrigo e Ricardo

Posted in 7 - Rosângela ..., Rodrigo, Rodrigo e Ricardo with tags , , , , , on August 20, 2008 by braverick

Já passa de uma da tarde. Fazia um calor muito forte e o ar sujo. Tudo isso me deixava cansado e estressado. Além disso nem comi. Me sentia fraco depois de mais de 20 horas de viagem, trocando de ônibus, esperando ônibus. E onde tá a Rosângela? A turma da manhã já saiu e eu não vi ela. Saí do campus da Universidade e fui procurar um lugar pra comer. Achei um barzinho numa rua do lado da universidade e tava cheio de estudante lá. Pedi dois lanches, afinal tava com fome e sou grandão, precisava me manter de pé. Pedi também batatas fritas e chopp. Acabei conhecendo 3 meninas, alunas do Mack. Tinha tanta gente no barzinho que elas nao tinham onde sentar e chamei elas para sentarem na minha mesinha. Eram alunas da facul de publicidade; garotas bem vestidas, lindas e muito animadas, animadinhas até demais. Quando eu contei o que tava fazendo naquela cidade louca, elas me chamaram de “ai que fofo!”

No fim da tarde achei um hotelzinho lá perto. Um lugar tri estranho numa rua chamada General Jardim. Quando eu cheguei nesse hotel não sabia se o gerente era homem ou mulher. Depois eu entendi o que ele era… Subi para o quarto. Um lugar apertado com uma cama grande cheia de buracos e um banheiro que eu mal cabia nele. Tudo muito velho, estranho e sujo. Barulho de carros, buzina, escapamento, cirenes, um inferno. Queria minha casa, minha cama. Como eu tava quase morto de cansado, tomei um banho – o chuveiro era enorme, parecia uma panela de pressão, cheio de parafusos e fios. Quando abri, além de meio frio, caia pouca água, parecia um conta gotas – depois fui deitar e tentar dormir. Dormi só 2 horas e resolvi levantar e sair pra tentar mandar um e-mail pra Ro e comer alguma coisa. Eram 7 horas da noite. Primeiro fui comer, mas não achei nenhum lugar que tivesse comida de verdade. Churrascaria é coisa pra magnata lá, eu não tinha tanta grana assim. Acabei caindo no lanche de novo, e depois um café com leite, que em Sampa eles chamam de pingado. Achei um cyber pra ver meus e-mails (parecia mais uma boite) e não tinha nenhum e-mail da Ro. Resolvi escrever pra ela, nem que fosse a última vez. A minha esperança tava no fim, apesar de sobrar amor. Mas se não desse certo, volto pra casa – perdas e danos, já me acostumei com isso. Escrevi um e-mail melado pra Rosângela, disse que estava em Sampa somente para ver ela. Disse que tinha passado a manhã toda procurando ela e que queria muito encontrá-la no dia seguinte. Pedi que por favor ela entrasse em contato comigo, nem que fosse pra falar um oi e conversarmos um pouquinho. Eu tinha total confiança no meu papo. Se ela me desse abertura, eu ia conquistar o coraçãozinho dela. Pra minha surpresa, depois de 10 minutos que enviei o e-mail,só estava esperando o meu tempo terminar, recebi a resposta dela. Em rápidas palavras, mas mostrando um enorme carinho. Perguntou se eu estava bem, se eu estava me alimentando e mandando eu tomar cuidado. Ela disse que queria me ver no outro dia e marcou em frente a biblioteca central do campus do Mack, do lado da faculdade de Direito. Eu sabia exatamente onde era. Nossa, fiquei muito feliz. Fui embora pro hotel e parece que comecei a achar São Paulo parecido com o paraíso.

Cheguei na porta do hotel percebi um movimento na esquina, umas três ou quatro mulheres vestidas que pareciam que iam pra uma festa de gala, falando alto. Quando olhei direito eram homens vestidos de mulher; isso mesmo, travestis. Nunca tinha visto isso antes. E como eu sou do interior, do mato e dos pampas, fiquei com toda inocência olhando pra elas como se estivesse assistindo um show. De repente escuto assim, “ae grandão”. Uma voz de homem, um cara atrás de mim, moreno, aparentava uns 40 anos. Eu virei pra ele com sorriso e disse, “e aí, beleza?” Na minha cidade a gente cumprimenta todo mundo e fala com todo mundo, mesmo que não conheça. E ele perguntou, “qual a sua idade, grande?” Eu disse que tinha 20. Pelo menos aí fui esperto. Nem pensar em dizer que tinha 17. Mas fiquei preocupado, principalmente porque ele perguntou em seguida, “tá querendo se divertir?” Eu disse que não, que eu tava bem e já tinha me divertido hoje. Eu acho que ele percebeu que eu tava totalmente de fora e disse, “então vai pra casa, tá olhando o que aí?” Eu respondi, “eu to aqui nesse hotel”. Como diz o Felipe, só os músculos se desenvolveram em mim, meu cérebro atrofiou. Daí o cara ficou interessado e quis saber tudo; me encheu de perguntas. Eu quis me livrar, mas tava complicado. Passou um cara do nosso lado e disse pra mim, “querido, vamos la que ta na hora”, e me pegou pelo braço tentando me puxar e eu fui, nao entendi nada. Ele me levou até a outra esquina, viramos a rua e ele me disse que o gerente do hotel que eu tava (ou a gerente, não sei) mandou ele me afastar daquele cara. “Ele é barra pesada”, disse. Eu fiquei com medo, não sabia se agradecia ou se saía correndo. Enfim, ele foi pra outro lado e eu resolvi andar por lá.

Caminhando por aquela parte de Sampa, vi coisas inacreditáveis. Um carro estacionou do meu lado, com vidros pretos e abriu a porta do passageiro. Olhei e só estava o motorista, olhando para mim. Um cara mais velho. Continuei andando. O cara fechou a porta e saiu acelerando forte. Passei embaixo de um grande viaduto e vi lá muitas pessoas de várias idades. Moravam na rua com móveis, guarda-roupas, cama, sofás. Eram casas sem parede e o teto era o próprio viaduto. Fiquei olhando muito tempo. Vi um cara que parecia ser morador de rua, e ele me parecia bem. Resolvi atravessar a rua e fui falar com ele. Pensei que ele poderia me atacar, fugir de mim ou conversar. Apostei na última possibilidade e acertei. Me apresentei, disse meu nome e disse que era estudante e queria saber se ele morava lá. Ele disse que sim, morava com uma família. Ele falava bem e era super gente; chamava Rodrigo. Ele me disse que veio de Natal, no Rio Grande do Norte, tentar a vida em Sampa. Passou fome; chegou a roubar, apanhou várias vezes e agora trabalha catando papelão na rua. Ele queria conseguir um carrinho para poder catar mais papelão e ganhar mais. Aquelas pessoas eram a família dele em Sampa. Conversamos muito e apesar de todo sofrimento que passou eu vi no Rodrigo uma pessoa que ama a vida. Ele conhecia quase todos os moradores de rua. Eram famílias inteiras. Pessoas de aparência assustadora, roupas muito muito velhas e rasgadas. Mas eram pessoas que se amavam e cuidavam uns dos outros. Pensei muito na minha vida. Não sofri tanto assim e admirei o senso de grupo deles e como se sentiam pertencentes uns dos outros. Depois andamos pelas ruas e já era mais de 11 da noite. A cidade não pára. Movimento dia e noite igual. Andamos no meio das prostitutas, travestis e garotos. Depois fui para o hotel. Assustado e admirado ao mesmo tempo. Rodrigo disse pra eu ir pro hotel e me fechar lá, mas como ele conhecia as pessoas, enquanto eu tivesse com ele ninguém zuaria comigo. Ele foi comigo até a porta do hotel, já era madrugada.

Fui pra cama mas não dormia. Muito barulho, cama horrível; o barulho de gente transando nos quartos do lado me encomodava. Fiquei pensando na história do Rodrigo e na minha. Ao mesmo tempo ansioso de rever a Ro no dia seguinte.

Amanhã conto mais…