Archive for the Felipe Category

Brave Heart

Posted in 11 - Brave Heart, Felipe, Michelle with tags , , , , , , on August 26, 2008 by braverick

Acordei naquela sexta de manhã com muito frio e chuva lá fora. Era um daqueles dias que a gente tem vontade de ficar debaixo das cobertas o dia inteiro. Passava frio e a Michelle estava com todos os cobertores, roubou de mim e eu só de cueca. Tudo bem, aquela noite tinha sido a noite da despedida e foi uma das melhores. No dia anterior eu peguei ela em casa e fomos para o sítio do papai, a pouco mais de meia hora da cidade, para comemorarmos naquela última noite juntos. Aliás, aquele sítio era o lugar que nos encontrávamos com toda liberdade e intimidade. Não era muito confortável, mas eu e Michelle passávamos bons momentos lá. Tempos atrás eu e Felipe costumávamos ir lá pra zuar, não com as meninas, mas com os bichos mesmo.

          Levantei naquela manhã fui preparar um café para nós e depois um banho naquele chuveiro horroroso! Naquele dia eu estava indo para a capital porque no dia seguinte, sábado, iria embarcar para Sampa e de lá para Londres. Saímos do sítio e fomos para a minha casa pegar minha mala. Cheguei em casa e Ana estava na sala com uma aparência de quem não tinha dormido direito. De fato, o Felipe teve febre a noite toda e febre alta. Fiquei até a hora do almoço com ele. Já estava melhor. Chegou a hora de ir embora, fui pegar minhas coisas e o Felipe sumiu. Fui atrás dele e ele estava no quarto. Ele veio na minha direção, me abraçou e começou a chorar. Sem palavras, mas não precisava, ele chorava de soluçar como se fosse a última vez que iria me ver. É verdade, só fui rever o Felipe pessoalmente em Julho de 2008.

          Depois que nos aproximamos mais, Felipe e eu fomos mais que amigos. Formamos uma verdadeira parceria. Antes não conseguíamos nos relacionar. O temperamento dele era e ainda é explosivo. Era superativo e ninguém podia com ele. O papai chegava a oferecer dinheiro para ele para ele ficar 5 minutos quieto. É um cara que enfrenta qualquer situação tranquilamente, sem colocar limites nas palavras. Se ele encontra uma pessoa importante ele a trata como se ela fosse um amigo dele; não existe diferença de idade, posição ou patente para ele. Por isso, depois dos 13 anos ele passou a ser alvo da violência do papai. Muitas vezes eu chegava em casa e encontrava o Fe chorando na cama e com as costas todas marcadas com vergões de cinta do papai. Essa situação foi longe demais até que o Felipe enfrentou o velho ameaçando de ir para a delegacia prestar queixa. O Fe tinha quase 20 anos quando isso aconteceu. Depois disso, ele nunca mais bateu no Felipe.

          Foi muito difícil deixar o Felipe. Um grande parceiro e meu verdadeiro irmão. Em dezembro daquele ano ele começou a namorar a Carolina. Esse namoro já dura 5 anos e meio.

          Embarquei para a capital. Dormi de sexta para sábado na casa da Boelita e da Le. Minha irmã já estava formada. Era uma mulher linda. Estava para ficar noiva. Ela conseguiu vencer as dificuldade de um lar desmanchado, acho que melhor do que eu. Mas sempre com muita luta e coragem. Ela disse para mim, “tu vais para a terra do Ricardo Coração de Leão. E é isso que tu és, o coração valente, Brave Heart!” Hoje eu penso que tanto a Le como o Fe de alguma forma pressentiam que eu não voltaria dali a um mês conforme o esquema de curso que fui fazer. Se pressentiam ou não, o fato é que eu não voltei mesmo conforme programado.

          Naquele sábado de manhã elas me levaram ao aeroporto e ainda de manhã embarquei para Londres com conexão em Sampa, num vôo que vinha de Buenos Aires. Quando o avião levantou vôo fiquei observando aquela terra se distanciando de mim. Estava deixando o meu chão, minha terra, meu país, minha família meus amigos, meu irmão Felipe, minha irmã Le e a boelita. Lá no alto, acima das nuvens eu pensei: até agora perdi muita gente na vida, mas agora, muita gente me perdeu. Não é estranha essa vida? A hora de partir é a hora de partir. Mesmo que você tenha que deixar a razão da sua vida. Mamãe partiu, ela tinha que ir, mas isso não significava que ela me amava menos. Nem tudo acontece como a gente quer; tem momentos que a gente tem que parar, pensar e aceitar, porque nem tudo o que a gente quer é bom pra gente. As vezes as coisas acontecem não da forma que queremos e ainda bem, porque lá no fim do túnel sempre tem uma saída e depois dizemos, “foi bom”. Continuo pensando que nada acontece por acaso. Existe uma harmonia em tudo de forma que a vida leva a gente e admito que nós, por nossa conta, não chegaríamos a lugar nenhum.

Bom, vai dormir com um trem desse. Vê se relaxa, Brave Heart!

Até depois.

Vale a pena viver

Posted in 6 - Vale a pena viver, Felipe with tags on August 18, 2008 by braverick

Os melhores anos desde a morte da mamãe foram 1999 e 2000. Pela primeira vez eu sentia alegria e vontade de ficar mais dentro de casa. Segundo o papai, a oportunidade de negócio que apareceu para ele no interior de São Paulo foi a virada de vida dele e valia qualquer sacrifício. E foi verdade, a partir de 2001 quando ele voltou, os negócios prosperaram muito por causa da representação comercial que ele conseguiu lá nesses dois anos. Hoje ele é um cara rico mesmo, mas tão rico quanto materialista e egoísta.

Mas o que vale contar aqui hoje é que ele foi embora por dois anos, levou a sofrida Ana, sua esposa com ele e a miniatura dele, o Gustavo. Ficamos eu e o Felipe. O Fe tinha 14 pra 15 anos quando eles saíram e, pelo menos na minha opinião, nada vale a pena quando o sacrifício é separar a família. Fiquei com pena do Fe. Mas como eu penso que existe um plano pré agendado na vida, morar só eu e o Felipe nesses dois anos foi uma coisa muito boa. Nos entrosamos perfeitamente. Nossa responsa era cuidar e manter a casa. Eu tinha que trabalhar na empresa do papai junto com o sócio dele, o que na verdade eu fazia era ser as vezes office boy e faz tudo, até limpeza. O Felipe não era pra trabalhar naquele momento, mas recebia a mesada do papai, que chegava perto do meu salário – eu nunca tive mesada, nem bicicleta. No primeiro ano que eles estavam fora eu terminei o ensino médio e no ano seguinte comecei na faculdade.

Procuramos ser o mais eficientes possível nesse período porque para mim e para o Fe era muito interessante que nada acontecesse de errado. O papai mandava uma grana todo mês para nos manter, pagar a moça que trabalhava em casa e todas as despesas. O Fe é um cara super inteligente. Hoje ele diz que eu era o Pink e ele o Cérebro nessa fase. Formávamos a dupla perfeita. Primeira decisão que nós tomamos foi guardar dinheiro. Tanto meu salário como a mesada dele foram guardados e não usamos nem um centavo. Enxugamos ao máximo o orçamento da casa e usávamos o dinheiro do papai para nós também. Todo sábado a gente fazia uma festinha em casa. Algumas eram do tipo open bar, convidávamos toda a galera. Bebida não era o problema. Mulher também não, então tínhamos tudo, muito ânimo e tesão. Mas a maioria das festas eram mais restritas. Dois, três ou quatro casais, ou simplesmente três pessoas. Foi uma escola pro Felipe que até aquela época não sabia nem como descer o zíper da calça, ou soltar um sutian! Virgenzinho de tudo, nas primeiras vezes elas diziam que ele cheirava leitinho!!! A empregada que trabalhava em casa não aguentou tanta zona (nos dois sentidos) e pediu as contas. Tudo bem, disse o Felipe, a gente dá um “cala boca” pra ela por fora e as questões trabalhistas pede ajuda para o sócio do papai, para aquelas coisas, tipo dar baixa em carteira, etc. Bajulamos muito ela, dizendo que ela era muito importante para nós, mas que se aquela foi uma decisão dela, por nós tudo bem. Pagamos tudo o que era devido e demos o mesmo valor pra ela não zuar a gente pro nosso pai. Ela aceitou a grana e disse que ia começar um trabalho que ia ganhar muito bem, “bom pra ti”, disse o Felipe – todas elas dizem isso. Quando ela saiu abrimos e secamos uma garrafa de vinho pra comemorar. Afinal, era mais economia pra gente e combinamos de todo sábado fazermos a limpeza total na casa. Além disso, pelo menos uma vez por mês a Le, o namo dela e a boelita vinham passar o fim de semana com a gente. Só que quando eles vinham não tinha festa, é claro. E quando eles vinham a gente voltava a comer comida de verdade e davam aquele acabamento legal na casa. Por duas ou três vezes nesses dois anos a boelita passava uma semana inteira em casa – ba, como lembrava a mamãe!!!

Como eu disse, foi uma época muito boa mesmo e a gente tinha uma boa grana juntada. Comprávamos roupa e eu, plea primeira vez na vida comecei a freqüentar uma academia. Foi muito legal porque consegui fazer um upgrade no meu corpo. Fiz duas tatoos, furamos a orelha e o Fe furou a língua. As vezes a gente ia na praia ou subia pra Floripa. Quando tinha uma coisa especial assim pra fazer, tipo trilha, montanha, etc, o Fe ligava pro papai e pedia uma grana a mais porque as coisas aumentavam muito de preço e aquela grana fixa que ele mandava não tava mais dando conta.

Num certo dia o Fe amanheceu mal. Só vomitava, deu febre e passou muito mal. Não fosse uma das meninas que ficavam com a gente as vezes, que disse que ele precisava ir para o hospital, nem sei o que teria acontecido. Deu infecção e um pouco de anemia. Teve que entrar no anti-biótico e nessa hora não falta gente com receita para fortalecer. Nossa vida encheu de tia que levava pratos e até panelas com comida para nós dois. A mãe do Fe acabou sabendo e veio para ficar um mês com o filhinho dela. Não teve festa nesse um mês, mas foi muito bom conviver com a Ana e ver como ela realmente é longe do papai. Ela deu a maior força para o nosso esquema de grana dos dois anos. Foi tão bom ela estar lá que quando tinha que ir embora chegamos a pedir para ela ficar.

Foram esses os dois anos de paz alegria e diversão na minha vida. Conseguimos crescer como pessoa, amadurecer e ter uma visão legal do mundo. Percebi como uma pessoa pode trazer infelicidade pra tanta gente! Mas percebi também como vale a pena lutar, ser ousado e nunca deixar a vida me levar. Tem gente que se entrega e fica fraco por causa de problemas, derrotas e perdas. Eu sempre tive tesão pela vida, sempre quis viver e nunca perdi a ternura.

Nos falamos depois…

Irmão inteiro

Posted in 5 - Irmão Inteiro, Felipe with tags , on August 17, 2008 by braverick

Se eu fosse colocar um tema na minha vida ou escrever um livro, o título seria: Perdas e Danos. A primeira e principal perda foi a mamãe. Depois meu quarto, meu espaço na casa; perdi o papai, depois Le e boelita se afastaram e finalmente Eva, a primeira. Não falo isso por pena de mim mesmo ou por me colocar como vitima de uma situação. Simplesmente que essa é a história da minha vida. Uma vida que no começo foi marcada por perdas e danos. Eu aprendi que nada acontece por acaso. Existe um esquema, um plano previamente traçado e mesmo nossas tragédias e fantasmas são ferramentas ou guias usados para nos levar a um fim. Tudo tem um propósito, pelo menos é assim que eu acredito e é isso que hoje a minha vida mostra. Uma amiga muito sábia me disse que com essa história eu era para ser hoje, adulto, uma pessoa deprimida, depressiva, egoísta e violenta. Mas eu respondi de uma forma diferente a todos esses problemas. Acredito que o grande lance da vida é esse: nunca responder às coisas que acontecem com a mesma violência com que elas acontecem. Tipo, não é porque eu fui tratado de lado, sem muita atenção de quem deveria me dar atenção numa fase crucial da vida, que vou tratar a vida e as outras pessoas com violência e maldade. É aquela coisa, não desejar aos outros aquilo que não queram que façam pra mim. Acho que não importa o que aconteceu ou esteja acontecendo na sua vida, como dizia meu herói Che, não perca nunca a ternura!

Claro que nem tudo foi perda na minha vida. De repente ganhei alguém! Alguém que eu não esperava. E ganhei por inteiro. Alguém que entrou na minha vida pela janela, de madrugada, na calada da noite. Roubou meu quarto, meu espaço e minha família. Um “inimigo” que foi se tornando “irmão”, meio irmão, e do dia para noite passa a ser um irmão inteiro, o meu melhor amigo até hoje. Eu gostava de maltratar o Felipe. Ele era meu saco de pancadas favorito. O Gustavo era muito pequeno, e muito protegido. O Felipe era audacioso, falava demais, era zuado com as coisas e me provocava demais. Ele era a pessoa que eu podia colocar toda minha raiva e revolta pra fora e cada vez que eu pegava ele eu me sentia muito bem, me sentia vingado. Mas essa situação mudou de uma hora para outra.

Era o começo de 1999, já tinha completado meus 16 anos - desisti da bike; Felipe e Gustavo tiveram as deles e muito mais… Eu era um adolescente grande, forte e bem desenvolvido. Não tinha problema em conquistar as meninas – para mim era muito fácil – ficava sempre com as mais lindas e gostosas da escola, menos com quem eu mais queria, Rosângela. Naquele ano, minha paixão pela Ro aumentou muito e virou amor e um amor que me fez sofrer. Muitos que não me conheciam achavam que eu era maior de idade. Viajava para a capital na maior tranquilidade. Nunca mais havia visto a Eva, mas depois dela apareceram outras. Eu já não estava mais indo na igreja. No ano passado parei de ir… Agora eu já estava para entrar no terceiro ano do ensino médio. Eu estava adiantado na escola, não porque eu fosse um gênio super dotado, mas foi uma forçada na escola quando eu entrei aos 6 anos. Uma confusão de idade, só porque eu faço aniversário em janeiro. Me preparava para a faculdade em 2000 e já havia sido determinado pelo papai que eu faria Administração de Empresas para ajudá-lo no trabalho. Pelo menos emprego estava garantido para mim.

O Felipe não era visado somente por mim. Por causa do jeito dele de enfrentar as pessoas  deixar muito claro o que ele pensa e fala o que pensa, desde os 11 anos ele e o papai começaram a entrar em atrito. O papai não perdoava nada! Um menino de 11 anos tirava ele do sério. E para o papai não havia negociação. Ou você concorda com ele, ou, caso contrário, é destruído por ele. Era isto que acontecia com o Fe. Vivia apanhando do papai. O Gustavo, dois anos mais novo, sempre o agradou.

Um dia o Felipe aprontou uma feia; nem tanto quanto as minhas, mas o suficiente para receber fivelada de cinta. De repente os carros dos vizinhos ficaram quase todos sem a plaquinha do nome. Aquela plaquinha que normalmente fica na trazeira do carro, por exemplo: Corsa, Fiesta, Renault, etc. E justo as dos carros do papai não eram retiradas. Os vizinhos reclamaram e o papai desconfiado veio perguntar para nós três. Todos negamos, inclusive o Fe. Um belo dia, o papai acha na gaveta do quarto do Fe as famosas plaquinhas e eu presenciei o momento de raiva do papai. Ele ficou parecendo um cachorro louco, um lobo faminto sedento camicaze. Foi voando atrás do Felipe e perguntando dele. Nisso a cinta já estava na mão. Naquela hora, pela primeira vez na minha vida me deu dó do Fe. Quando o papai viu ele, sentou-lhe a mãozona da orelha que ele ficou tontinho. O lado do rosto dele na hora ficou vermelho. Dei um pulo pra frente e peguei o papai por trás e imobilizei ele totalmente. Deixei ele totalmente inerte e gritava que parecia um maníaco. Ao mesmo tempo que eu segurava o velho eu gritava pro Fe, “corre Felipe, corre!” O Felipe parecia gato que vai ser atropelado. Ficou parado olhando. Ele não devia estar acreditando nos olhos dele! Mas aí ele correu pra fora de casa. Segurei o papai daquele jeito até deixar o Felipe pegar a distância necessária. Quando eu soltei o pai pensei que ele ia ter um ataque. Mas eu cheguei na cara dele e falei que ele não ia me bater e que nunca mais ia encostar um dedo no Felipe. Nisso entra Ana com uma caneca de alguma coisa, parecia chá. Isso tudo desarmou o velho.

A partir desse dia, ganhei o Felipe. Até a Ana, a mãe dele, começou a olhar para mim com outros olhos. Eu tinha certeza que ela sofria na mão do papai, mas jamais se atreveu ir contra ele. Fico imaginando, até a mamãe…

O Fe passou a ser meu amigo. Andávamos juntos, saíamos e passávamos muito tempo conversando. Descobri o lado palhaço dele. Ele me fazia rir de rolar no chão com tanta merda que falava.

Minha amizade com o Felipe se estreitou mais ainda, quando no meio do ano o papai avisa que ele, Ana e Gustavo passariam um ano fora a trabalho. Eles iriam morar no interior de São Paulo por causa de um grande empreendimento que apareceu. Ficaríamos em casa eu e Felipe, sem pai nem mãe, sozinhos, um cuidando do outro e eu deveria começar trabalhar na empresa do papai, ajudando o socio dele. Aquele foi o melhor período da minha vida. O Fe e eu éramos amigos inseparáveis; depois que eles foram, Le e boelita apareciam direto em casa. Pudemos nos fortalecer juntos e aquele foi o momento que eu voltei a sentir que eu pertencia a uma família.

Finalmente acabo esse capítulo com ganho e não com perda. Mas depois eu conto tudo.