Não posso negar que quem pagou minha viagem toda para a Inglaterra foi o papai. Agradeço muito a ele por isso. Eu tinha uma boa reserva, além do meu salário, mas ele pagou todo o pacote que a escola me ofereceu. Minha grana evaporou no mês que eu fiquei lá. Comprei muito, gastei tudo e me diverti demais. Além disso viajei para vários lugares. No final do meu curso eu tava totalmente liso. Mas adorei tudo. Conheci gente nova, gente bonita e gostosa. Gente interessante também, como o Andreas e Mrs.Ball. Eu não me conformava com a idéia de sair de Londres. Apesar de muita gente reclamar daquela cidade, e apesar do trauma que eu tive em Sampa, Londres para mim era a cidade ideal para se viver. Eu caminhava por ela durante todo o dia quando tinha uma folga. Andava muito e não me cansava. Adorava ficar de tarde na Trafalgar Square, uma praça enorme no coração de Londres. Principalmente quando fazia sol e em feriados, sentava lá, tentava um bronze britânico e sempre fazia contatos com pessoas que estavam por lá também, fazendo nada. Em Sampa, ninguém pára numa praça pra fazer nada. De onde eu vim do Brasil as praças são pequenas e as cidades também. É bom, mas todo mundo conhece todo mundo e aí acontece fofoca e etc. Em Londres não. Dava para sentar nas praças, nos parques, tirar a camiseta, botar um óculos escuro e curtir a vida. Lembro numa dessas vezes que fui com o Andreas. Apareceu uma garota muito linda e me disse algo que eu não entendi. Eu gostei dela, queria conhecer ela melhor, apesar de não sacar nada do que ela dizia. O Andreas me disse que ela era “prostitute”. Eu pensei, “nããão”! Aquela garota não. Aí eu disse um “no, thank you”, reforçando o não com a cabeça. Ela simplesmente saiu. Fiquei assustado porque eu nunca iria dizer que ela era uma mulher que vendia o corpo. Depois dessa, várias outras apareceram, inclusive homens. Eu sempre disse não. Mas a aparência dessas pessoas eram excelentes. No Brasil passariam por riquinhos que estudam em colégio pago e só compram roupa de griffe. Mas aqui as aparências realmente enganam. Conforme o tempo foi passando eu conheci melhor os tipos e, para dizer a verdade, hoje morro de pena deles.
Enfim, decidi ficar em Londres. Não tenho problemas com visto por causa da minha cidadania alemã e, com a Comunidade Européia, eu e meus irmãos temos livre trânsito por qualquer país da Europa e o direito de participar de qualquer benefício no país que moramos. Acabou meu estágio e eu tinha que sair da casa da Mrs.Ball. Já tinha definido dividir um flat com uma galerinha da escola que ainda ficaria por mais tempo. Um pequeno apartamento na parte noroeste de Londres, na Euston Road. Como era eu e mais quatro meninos, dava para pagar 200.00 libras por mês. Caro para brasileiros, porque na época dava quase mil Reais. Além disso tinha que pagar por minha comida e condução. Estava dispostasso a arrumar um traba, mas tava sussegado porque o papai tava mantendo a base. Tava mesmo?
Liguei para casa no Brasil para dizer que ia ficar um pouco mais. Expliquei e convenci o velho inclusive a me dar uma grana extra. Ele acreditou que eu ficaria no máximo mais umas duas semanas. Quando ele descobriu que eu não tinha data para voltar, ele simplesmente disse que não mandaria mais um centavo. Disse para eu me virar ou voltar para o Brasil. Decidi então me virar. A partir daí, minha comunicação com o papai parou. Eu dou razão pra ele porque de uma certa forma eu era a pessoa de confiança dele na empresa, apesar de ainda não ter experiência nem formação. Um ano e pouco depois ele colocou o Felipe no meu lugar.
Bom, parti para batalhar um emprego. Conheci um monte de brasileiro que estava ilegal em Londres e trabalhavam muito e ganhavam muito bem. Eu que sou cidadão vou conseguir facilmente. Mas o meu obstáculo é a língua. Isso foi o grande impecílho para eu ganhar dinheiro nesse começo em Londres. Um mês morando fora não é suficiente para aprender Inglês. É gastar muito dinheiro para um retorno quase zero. Só depois de um ano na Inglaterra foi que eu comecei a entender um pouco melhor e me comunicar.
Eu não conseguia trabalho. Posso ter tomado a melhor decisão, mas ela tem um preço, como todas as atitudes que assumimos tem. O aluguel do mês de setembro já estava garantido e estávamos no final de agosto. Ano de 2002. Finalmente no meio de setembro, eu já estava super pressionado, resovi aceitar um trabalho de cleaner no Walkabout, um pub cujo dono é australiano e muito conhecido. Fica na Shaftesbury Avenue, em Londres. Consegui o trabalho graças a um garçon brasileiro amigo meu que soube da vaga e logo me indicou. Walkabout é um lugar tri bacaninha, muito legal que eu ia, quando ainda estudava. Antes eu ia para zuar como um estrangeiro riquinho, agora vou para fazer limpeza, inclusive de banheiro. Com direito a macacão azul e carrinho de limpeza. Meu horário de trabalho era o que ninguém queria: começava às 6:30 da manhã e ia até as 10. Tinha que limpar o lugar todo da noite anterior e ajudar a preparar para abrir. Abria todo dia ao meio dia, só de sábado que abria às 10 da manhã. Em geral ia até às 3 da manhã. Eu folgava às segundas-feiras. Salário era uma merda, dava para pagar o aluguel e comer. Eu sou grande, como demais e por isso a grana tava bem curta. Não tinha nem como me divertir.
E assim foi meu começo de vida em Londres. Começando agora a depender de mim mesmo e, como sempre, sozinho.
Continuo depois.