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O Preço de uma Decisão

Posted in 14 - O Preço de uma Decisão, Andreas with tags , , , , on September 3, 2008 by braverick

Não posso negar que quem pagou minha viagem toda para a Inglaterra foi o papai. Agradeço muito a ele por isso. Eu tinha uma boa reserva, além do meu salário, mas ele pagou todo o pacote que a escola me ofereceu. Minha grana evaporou no mês que eu fiquei lá. Comprei muito, gastei tudo e me diverti demais. Além disso viajei para vários lugares. No final do meu curso eu tava totalmente liso. Mas adorei tudo. Conheci gente nova, gente bonita e gostosa. Gente interessante também, como o Andreas e Mrs.Ball. Eu não me conformava com a idéia de sair de Londres. Apesar de muita gente reclamar daquela cidade, e apesar do trauma que eu tive em Sampa, Londres para mim era a cidade ideal para se viver. Eu caminhava por ela durante todo o dia quando tinha uma folga. Andava muito e não me cansava. Adorava ficar de tarde na Trafalgar Square, uma praça enorme no coração de Londres. Principalmente quando fazia sol e em feriados, sentava lá, tentava um bronze britânico e sempre fazia contatos com pessoas que estavam por lá também, fazendo nada. Em Sampa, ninguém pára numa praça pra fazer nada. De onde eu vim do Brasil as praças são pequenas e as cidades também. É bom, mas todo mundo conhece todo mundo e aí acontece fofoca e etc. Em Londres não. Dava para sentar nas praças, nos parques, tirar a camiseta, botar um óculos escuro e curtir a vida. Lembro numa dessas vezes que fui com o Andreas. Apareceu uma garota muito linda e me disse algo que eu não entendi. Eu gostei dela, queria conhecer ela melhor, apesar de não sacar nada do que ela dizia. O Andreas me disse que ela era “prostitute”. Eu pensei, “nããão”! Aquela garota não. Aí eu disse um “no, thank you”, reforçando o não com a cabeça. Ela simplesmente saiu. Fiquei assustado porque eu nunca iria dizer que ela era uma mulher que vendia o corpo. Depois dessa, várias outras apareceram, inclusive homens. Eu sempre disse não. Mas a aparência dessas pessoas eram excelentes. No Brasil passariam por riquinhos que estudam em colégio pago e só compram roupa de griffe. Mas aqui as aparências realmente enganam. Conforme o tempo foi passando eu conheci melhor os tipos e, para dizer a verdade, hoje morro de pena deles.

Enfim, decidi ficar em Londres. Não tenho problemas com visto por causa da minha cidadania alemã e, com a Comunidade Européia, eu e meus irmãos temos livre trânsito por qualquer país da Europa e o direito de participar de qualquer benefício no país que moramos. Acabou meu estágio e eu tinha que sair da casa da Mrs.Ball. Já tinha definido dividir um flat com uma galerinha da escola que ainda ficaria por mais tempo. Um pequeno apartamento na parte noroeste de Londres, na Euston Road. Como era eu e mais quatro meninos, dava para pagar 200.00 libras por mês. Caro para brasileiros, porque na época dava quase mil Reais. Além disso tinha que pagar por minha comida e condução. Estava dispostasso a arrumar um traba, mas tava sussegado porque o papai tava mantendo a base. Tava mesmo?

Liguei para casa no Brasil para dizer que ia ficar um pouco mais. Expliquei e convenci o velho inclusive a me dar uma grana extra. Ele acreditou que eu ficaria no máximo mais umas duas semanas. Quando ele descobriu que eu não tinha data para voltar, ele simplesmente disse que não mandaria mais um centavo. Disse para eu me virar ou voltar para o Brasil. Decidi então me virar. A partir daí, minha comunicação com o papai parou. Eu dou razão pra ele porque de uma certa forma eu era a pessoa de confiança dele na empresa, apesar de ainda não ter experiência nem formação. Um ano e pouco depois ele colocou o Felipe no meu lugar.

Bom, parti para batalhar um emprego. Conheci um monte de brasileiro que estava ilegal em Londres e trabalhavam muito e ganhavam muito bem. Eu que sou cidadão vou conseguir facilmente. Mas o meu obstáculo é a língua. Isso foi o grande impecílho para eu ganhar dinheiro nesse começo em Londres. Um mês morando fora não é suficiente para aprender Inglês. É gastar muito dinheiro para um retorno quase zero. Só depois de um ano na Inglaterra foi que eu comecei a entender um pouco melhor e me comunicar.

Eu não conseguia trabalho. Posso ter tomado a melhor decisão, mas ela tem um preço, como todas as atitudes que assumimos tem. O aluguel do mês de setembro já estava garantido e estávamos no final de agosto. Ano de 2002. Finalmente no meio de setembro, eu já estava super pressionado, resovi aceitar um trabalho de cleaner no Walkabout, um pub cujo dono é australiano e muito conhecido. Fica na Shaftesbury Avenue, em Londres. Consegui o trabalho graças a um garçon brasileiro amigo meu que soube da vaga e logo me indicou. Walkabout é um lugar tri bacaninha, muito legal que eu ia, quando ainda estudava. Antes eu ia para zuar como um estrangeiro riquinho, agora vou para fazer limpeza, inclusive de banheiro. Com direito a macacão azul e carrinho de limpeza. Meu horário de trabalho era o que ninguém queria: começava às 6:30 da manhã e ia até as 10. Tinha que limpar o lugar todo da noite anterior e ajudar a preparar para abrir. Abria todo dia ao meio dia, só de sábado que abria às 10 da manhã. Em geral ia até às 3 da manhã. Eu folgava às segundas-feiras. Salário era uma merda, dava para pagar o aluguel e comer. Eu sou grande, como demais e por isso a grana tava bem curta. Não tinha nem como me divertir.

E assim foi meu começo de vida em Londres. Começando agora a depender de mim mesmo e, como sempre, sozinho.

Continuo depois.

 

London London

Posted in 13 - London London, Andreas with tags , , , on August 30, 2008 by braverick

Julho de 2002, estava em Londres. Estava ficando velho, dali a 6 meses completaria 20 anos de vida. Arrumei um grande amigo, Andreas, mas entendo pouco ele. O inglês dele parecia ser muito bom, o problema era o meu inglês quase nulo. Mesmo assim a gente vivia junto. Mesmo depois de ter a minha galerinha, nossa amizade foi ficando um pouco de lado, mas durante o dia andávamos juntos pelas ruas de Londres e quando nosso horário de aula coincidia, íamos juntos. Ele era um tiozão. Explicava como funcionava o time table dos trens e ônibus, o horário que eles passavam nos pontos e estações. No primeiro dia houve uma palestra na escola para todos que iam começar. Depois houve uma avaliação para saber que estágio pegaríamos. Andreas pegou o avançado e eu, tadinho de mim, fiquei lá no basicão. Por isso nossos horarios ficaram diferentes. Naquele primeiro dia saímos da escola e ele me perguntou se eu tinha trazido um guarda-chuva. Disse que não. Então fomos comprar. Realmente, viver em Londres sem guarda-chuva é a mesma coisa que sair de cueca na rua.

Pegamos o metrô e descemos na Oxford Circus. Uma das estações do metrô. Se eu tinha agonia do metrô de Sampa, em Londres pior ainda! Os vagões são pequenos, parecem de brinquedo. E tudo apertadinho, não é à toa que chama Tubo. E era assim, Andreas foi um grande companheiro. Muitas vezes ele me esperava para jantar, outras vezes ele me esperava de madrugada na sala porque eu saía de noite e chegava de madrugada. Interessante essa vida, uma pessoa estranha, estrangeira, não tem nada a ver comigo, usa calça encima do umbigo (isso quando ela não escorrega e fica embaixo do barrigão), mostrando ser um amigo verdadeiro, parceirão mesmo. Enquanto que nem em casa, que existia uma mesma língua, não havia nada disso

Numa dessas madrugadas que ele me esperou e conversamos até de manhã. Interessante, até hoje não sei exatamente tudo o que ele disse, mas quando eu falava ele entendia quase tudo. E com isso fui também aprendendo um pouco do Inglês, com pouco de sotaque alemão por causa do Andreas.

A galerinha que eu conheci aqui. Gente de todo canto. México, Itália, Suíça e muita gente da China e do Japão. A média de idade era de 18 a 27 anos, mais ou menos. Tinha alguns brasileiros também. Gente de Sampa, Rio e Minas. Essa vida é engraçada! Eu sempre fui meio de ninguém. Sempre tive liberdade. Não tive pais pra controlar meu horário, os lugares onde eu ia e minhas amizades. Fazia o que eu queria. Muitas vezes lá no Brasil eu ficava sozinho porque chegava uma hora que cada um ia pra sua casa com sua família e eu tinha gaz e liberdade pra continuar na rua. Muitas vezes amanheci nas ruas, sozinho, as vezes dormindo na praça. Isso tudo lá no Brasil. A galerinha que eu conheci em Londres em 2002, todos riquinhos também, estavam fora de casa, longe dos pais e de qualquer compromisso. Daí eles ficam livres, fazem o que querem. Ou seja, viviam numa verdadeira zueira. Muita bebida, muito sexo rolando, drogas, bacanal, gente caindo bebado e acabando no hospital porque no seu país nunca tinham bebido tanto. Praticamente crianças fazendo todo tipo de orgia e fantasia sexual possível e além disso as drogas. Sabe, a hipocrisia nesse mundo começa aí. Eles aprendem que no meio deles eles tem que dar uma de certinhos, mas quando estão sozinhos viram verdadeiros monstrinhos. Os italianos eram os mais alegres e os mais zuados também. Gente muito bonita. O mexicano era o mais alegre e o centro das atenções da galerada. A escola tinha flats (pequenos apartamentos) que teoricamente era para ser divididos entre masculinos e femininos, porém, acabava sendo tudo misto. E eu pensava que iria ficar um mês de jejum, quase me acabei. A escola sabia disso, mas fazia de conta que não sabia. Sabia o que rolava lá dentro. Além disso, as aulas eram muito gostosas e não tinha provas, avaliações ou testes. Segundo eles, o professor avaliava o aluno durante as aulas, nas suas participações e no final do curso a escola expedia um boletim que normalmente agradava todo mundo. Realmente o dinheiro manda nesse mundo.

Bons mesmo eram os fins de semana. No primeiro fui com a escola conhecer a Escócia. Apesar do frio, até hoje não me lembro de ter conhecido um lugar mais bonito. Brasileiro gosta de dizer que o seu país é o mais bonito. Sim, acho que nosso Brasilzão é lindo, mas achar que é o mais, não é possível. No segundo fim de semana voei com Andreas para a casa dele na Suiça. Ficamos sábado e domingo lá em Zurich. Ele tem uma linda família, esposa e dois filhos quase adolescentes. E eu que pensava que só brasileiro era atencioso e amoroso com os outros e achava que europeu era tudo igual o papai. Engano meu. Vi uma família que se ama e são cúmplices uns dos outros. Apesar de tudo, Andreas era um pai e marido atencioso e carinhoso. Minha vontade era viver naquela família. Minha vontade era continuar com o Andreas.

No terceiro e último fim de semana fomos eu e mais dois italianos para Paris e fomos de trem. Outra viagem muito linda. Muita emoção quando o trem passa debaixo do mar, saindo do Reino Unido e alcançando a França. Descobri que no geral os franceses são mal educados. Odeiam ingleses e não falam inglês de jeito nenhum. Conhecemos a torre Eiffell, a catedral de Notre Dame, o rio Senna, o Arco do Triunfo e o Musel de Louvre. A noite em Paris é linda. As mulheres, mais ainda.

Chegou a hora de ir embora. Acabou meu tempo. Eu não queria ir. Andreas foi primeiro, no sábado de manhã ele pegaria o vôo para Zurich e eu de noite para o Brasil. Outros dois alunos iam chegar na casa da Mrs.Ball. Eu tinha que sair. Eu não queria. No dia anterior, eu e Andreas fomos jantar num restaurante mexicano que fica em Elephant & Castle. No sábado de manhã nos despedimos. Foi muito triste para mim perdê-lo. Nunca mais vi o Andreas. Nunca mais respondeu um e-mail. Eu mal entendia aquele cara, mas o amava!

Parte da galerinha ficaria mais tempo em Londres. Justamente os mais chegados. Recebi naquela semana meu certificado do curso. Tinha subido do Basic para o pre-intermediate. Realmente alguma coisa já era familiar no idioma, mas eu tava muito no osso ainda. Eu queria ficar… e fiquei.

Depois nos falamos.