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Tudo passa nessa vida

Posted in 14 - O Preço de uma Decisão, 15 - Não Desespera Ricardo, 16 - Tudo passa nessa vida, 7 - Rosângela ... with tags , , , , , on September 10, 2008 by braverick

        Marcaram o dia pra eu tirar as fotos para 2 semanas depois. Porra, que saco, que povo enrolado, podia resolver tudo num dia só! Enfim, resolvi aproveitar o tempo e comecei a exercitar o corpo e ficar bem legal no dia das fotos. Mas eu precisava comer também. Resolvi andar mais a pé, mesmo de madrugada quando eu costumava pegar o último ônibus para casa, passava um frio desgraçado. O inverno não tinha acabado totalmente. Comia chocolate e bebia chá com bastante açúcar porque isso me ajudava a ter energia. A tia do Walkabout gostava muito de mim e me dava toda manhã um embrulhinho de bacon roll, que é um tipo de pão de hamburger grande, com manteiga e tiras de bacon e comprava pra mim uma garrafinha de suco de laranja. Respirei fundo agora e tomei coragem pra dizer que no pub que eu trabalhava como garçon sempre sobrava algum chips (batata frita) ou alguma outra coisa e eu aproveitava… (reticências no meu bloguinho significa um momento de pausa – as vezes dói lembrar, é por pena de mim, eu sei, mas dói). Tudo na vida passa. Toda fase ruim passa… Além desse esqueminha, eu fazia sessões de abdominais e flexão. As vezes pedia pra levantar um amigo ou amiga pra fazer um pouco de musculação.

        Chegou o dia do teste de foto e eu fui com a melhor roupa que eu tinha, ainda roupa do Brasil. Passei o frio dos infernos, mas era a melhor roupa que eu tinha. Cheguei no escritório, esperei umas 2 horas, quase dormi lá, até que me chamaram. Entrei na sala e estava lá de novo a Sharon e dessa vez um cara que era o fotógrafo e mais uma mulher magrinha. Eles falaram para eu ficar relaxado e tranquilo. Sentei numa cadeira e a Sharon com aquela simpatia e sorriso começou a perguntar coisas. Como eu entendia metade do que ela falava e pra responder era um sufoco, a gente acabava rindo muito. Era uma técnica dela pra me deixar bem tranquilo mesmo. Durante essa conversa o fotógrafo tirava fotos de mim o tempo todo. Sharon disse pra eu nem dar atenção pra ele. Mas ele deve ter tirado umas 800 fotos. Mandaram eu ficar de pé e tirando fotos; mandaram eu tirar a camisa e sempre o barulhinho da máquina. Depois mandaram tirar a calça. Olhei pra Sharon e ela deu a entender que era pra eu relaxar; ok. Tirei a calça e fiquei só de under. Tiraram fotos de tras e da frente. Eu sentado, eu deitado e me deram um roupão de banho lilás pra eu vestir. Passaram um pó na minha cara, deram uma molhada no meu cabelo e passaram gel. Depois passaram uma base no meu rosto. Eu olhei no espelho e me vi lá, parecendo um viado, mais moreno. Até que da cor eu gostei. Queriam que eu ficasse excitado. Eu disse, “no way”, de jeito nenhum! Na verdade eu já tava de saco cheio! Quando eu disse não eles pararam e ficaram olhando pra mim. Pensei: perdi o emprego que nem comecei. Eu já tava pensando antes, quando tava indo pras fotos, se eu não conseguir esse trabalho eu volto pro Brasil. Não aguento mais. Prefiro passar fome lá, e eu sei que jamais passaria, do que continuar vivendo nesse inferno. De repente me imaginei chegando no Brasil. Sabe, eu acho que nosso maior inimigo é a gente mesmo. E o orgulho é uma das armas que nem sempre deixa a gente feliz. Por mais contraditório que seja, por causa do orgulho e do medo de ser visto como derrotado pelas pessoas na minha cidade, principalmente pelo papai, resolvi me humilhar naquela sessão de fotos.

        Sentei na cadeira e comecei a pensar na Rosângela… dali pra frente tudo mudou na minha vida, mas o preço pago foi alto, até hoje. Será que valeu à pena? Não, não valeu.

        Sharon chegou pra mim e me parecia muito contente. Ela me disse um monte de coisa que eu não entendi nada. Tava puto da vida, com raiva de mim. Pedi pra ela escrever tudo o que ela tava falando. Ela disse que eu não dei muito sorriso nas fotos, mas foi bom, ela disse, eu fiz um estilo com isso. Realmente eu não tinha motivos pra sorrir; aliás, nunca tive muito. Ela falou quanto eu iria ganhar com o trabalho e eu fiquei assustado, pensei que era mentira dela. Ela me mostrou as vantagens de trabalhar com eles e perguntou se eu topava. Eu disse que sim. Depois disso eu teria que voltar no dia seguinte para assinar o contrato. Tudo bem, e foi o que eu fiz, no dia seguinte estava lá.

Depois eu continuo.

Rosângela, Rodrigo e Ricardo

Posted in 7 - Rosângela ..., Rodrigo, Rodrigo e Ricardo with tags , , , , , on August 20, 2008 by braverick

Já passa de uma da tarde. Fazia um calor muito forte e o ar sujo. Tudo isso me deixava cansado e estressado. Além disso nem comi. Me sentia fraco depois de mais de 20 horas de viagem, trocando de ônibus, esperando ônibus. E onde tá a Rosângela? A turma da manhã já saiu e eu não vi ela. Saí do campus da Universidade e fui procurar um lugar pra comer. Achei um barzinho numa rua do lado da universidade e tava cheio de estudante lá. Pedi dois lanches, afinal tava com fome e sou grandão, precisava me manter de pé. Pedi também batatas fritas e chopp. Acabei conhecendo 3 meninas, alunas do Mack. Tinha tanta gente no barzinho que elas nao tinham onde sentar e chamei elas para sentarem na minha mesinha. Eram alunas da facul de publicidade; garotas bem vestidas, lindas e muito animadas, animadinhas até demais. Quando eu contei o que tava fazendo naquela cidade louca, elas me chamaram de “ai que fofo!”

No fim da tarde achei um hotelzinho lá perto. Um lugar tri estranho numa rua chamada General Jardim. Quando eu cheguei nesse hotel não sabia se o gerente era homem ou mulher. Depois eu entendi o que ele era… Subi para o quarto. Um lugar apertado com uma cama grande cheia de buracos e um banheiro que eu mal cabia nele. Tudo muito velho, estranho e sujo. Barulho de carros, buzina, escapamento, cirenes, um inferno. Queria minha casa, minha cama. Como eu tava quase morto de cansado, tomei um banho – o chuveiro era enorme, parecia uma panela de pressão, cheio de parafusos e fios. Quando abri, além de meio frio, caia pouca água, parecia um conta gotas – depois fui deitar e tentar dormir. Dormi só 2 horas e resolvi levantar e sair pra tentar mandar um e-mail pra Ro e comer alguma coisa. Eram 7 horas da noite. Primeiro fui comer, mas não achei nenhum lugar que tivesse comida de verdade. Churrascaria é coisa pra magnata lá, eu não tinha tanta grana assim. Acabei caindo no lanche de novo, e depois um café com leite, que em Sampa eles chamam de pingado. Achei um cyber pra ver meus e-mails (parecia mais uma boite) e não tinha nenhum e-mail da Ro. Resolvi escrever pra ela, nem que fosse a última vez. A minha esperança tava no fim, apesar de sobrar amor. Mas se não desse certo, volto pra casa – perdas e danos, já me acostumei com isso. Escrevi um e-mail melado pra Rosângela, disse que estava em Sampa somente para ver ela. Disse que tinha passado a manhã toda procurando ela e que queria muito encontrá-la no dia seguinte. Pedi que por favor ela entrasse em contato comigo, nem que fosse pra falar um oi e conversarmos um pouquinho. Eu tinha total confiança no meu papo. Se ela me desse abertura, eu ia conquistar o coraçãozinho dela. Pra minha surpresa, depois de 10 minutos que enviei o e-mail,só estava esperando o meu tempo terminar, recebi a resposta dela. Em rápidas palavras, mas mostrando um enorme carinho. Perguntou se eu estava bem, se eu estava me alimentando e mandando eu tomar cuidado. Ela disse que queria me ver no outro dia e marcou em frente a biblioteca central do campus do Mack, do lado da faculdade de Direito. Eu sabia exatamente onde era. Nossa, fiquei muito feliz. Fui embora pro hotel e parece que comecei a achar São Paulo parecido com o paraíso.

Cheguei na porta do hotel percebi um movimento na esquina, umas três ou quatro mulheres vestidas que pareciam que iam pra uma festa de gala, falando alto. Quando olhei direito eram homens vestidos de mulher; isso mesmo, travestis. Nunca tinha visto isso antes. E como eu sou do interior, do mato e dos pampas, fiquei com toda inocência olhando pra elas como se estivesse assistindo um show. De repente escuto assim, “ae grandão”. Uma voz de homem, um cara atrás de mim, moreno, aparentava uns 40 anos. Eu virei pra ele com sorriso e disse, “e aí, beleza?” Na minha cidade a gente cumprimenta todo mundo e fala com todo mundo, mesmo que não conheça. E ele perguntou, “qual a sua idade, grande?” Eu disse que tinha 20. Pelo menos aí fui esperto. Nem pensar em dizer que tinha 17. Mas fiquei preocupado, principalmente porque ele perguntou em seguida, “tá querendo se divertir?” Eu disse que não, que eu tava bem e já tinha me divertido hoje. Eu acho que ele percebeu que eu tava totalmente de fora e disse, “então vai pra casa, tá olhando o que aí?” Eu respondi, “eu to aqui nesse hotel”. Como diz o Felipe, só os músculos se desenvolveram em mim, meu cérebro atrofiou. Daí o cara ficou interessado e quis saber tudo; me encheu de perguntas. Eu quis me livrar, mas tava complicado. Passou um cara do nosso lado e disse pra mim, “querido, vamos la que ta na hora”, e me pegou pelo braço tentando me puxar e eu fui, nao entendi nada. Ele me levou até a outra esquina, viramos a rua e ele me disse que o gerente do hotel que eu tava (ou a gerente, não sei) mandou ele me afastar daquele cara. “Ele é barra pesada”, disse. Eu fiquei com medo, não sabia se agradecia ou se saía correndo. Enfim, ele foi pra outro lado e eu resolvi andar por lá.

Caminhando por aquela parte de Sampa, vi coisas inacreditáveis. Um carro estacionou do meu lado, com vidros pretos e abriu a porta do passageiro. Olhei e só estava o motorista, olhando para mim. Um cara mais velho. Continuei andando. O cara fechou a porta e saiu acelerando forte. Passei embaixo de um grande viaduto e vi lá muitas pessoas de várias idades. Moravam na rua com móveis, guarda-roupas, cama, sofás. Eram casas sem parede e o teto era o próprio viaduto. Fiquei olhando muito tempo. Vi um cara que parecia ser morador de rua, e ele me parecia bem. Resolvi atravessar a rua e fui falar com ele. Pensei que ele poderia me atacar, fugir de mim ou conversar. Apostei na última possibilidade e acertei. Me apresentei, disse meu nome e disse que era estudante e queria saber se ele morava lá. Ele disse que sim, morava com uma família. Ele falava bem e era super gente; chamava Rodrigo. Ele me disse que veio de Natal, no Rio Grande do Norte, tentar a vida em Sampa. Passou fome; chegou a roubar, apanhou várias vezes e agora trabalha catando papelão na rua. Ele queria conseguir um carrinho para poder catar mais papelão e ganhar mais. Aquelas pessoas eram a família dele em Sampa. Conversamos muito e apesar de todo sofrimento que passou eu vi no Rodrigo uma pessoa que ama a vida. Ele conhecia quase todos os moradores de rua. Eram famílias inteiras. Pessoas de aparência assustadora, roupas muito muito velhas e rasgadas. Mas eram pessoas que se amavam e cuidavam uns dos outros. Pensei muito na minha vida. Não sofri tanto assim e admirei o senso de grupo deles e como se sentiam pertencentes uns dos outros. Depois andamos pelas ruas e já era mais de 11 da noite. A cidade não pára. Movimento dia e noite igual. Andamos no meio das prostitutas, travestis e garotos. Depois fui para o hotel. Assustado e admirado ao mesmo tempo. Rodrigo disse pra eu ir pro hotel e me fechar lá, mas como ele conhecia as pessoas, enquanto eu tivesse com ele ninguém zuaria comigo. Ele foi comigo até a porta do hotel, já era madrugada.

Fui pra cama mas não dormia. Muito barulho, cama horrível; o barulho de gente transando nos quartos do lado me encomodava. Fiquei pensando na história do Rodrigo e na minha. Ao mesmo tempo ansioso de rever a Ro no dia seguinte.

Amanhã conto mais…

Rosângela …

Posted in 7 - Rosângela ... with tags , , , , , , on August 19, 2008 by braverick

Com 17 anos, minha fama na escola e fora dela era de pegador, galinha e ricardão. É que eu não tinha muita dificuldade de acesso tanto com as meninas da minha idade como com as mais velhas e até com as mais velhas ainda. Bom, não posso detalhar muita coisa quanto às mais velhas aqui. Tenho omitido alguns fatos que podem expôr gente de bem, sendo que estou sabendo que muita gente hoje na minha cidade tem acessado meu bloguinho diariamente. Aliás, não tenho publicado muitos comments justamente por causa disso (e tenho recebido muitos e muitos e-mails, ta valendo, galera!).

Na verdade eu acho que eu sempre tive muita energia e adrenalina. Nunca consegui ficar muito parado. Sexo era uma coisa que simplesmente acontecia. Gostava muito de exercitar o corpo, parecia um vício. Sempre que dava eu tava na academia, ou jogando fute, correndo, etc. Mas com tudo isso eu não era um cara safado. Sempre respeitei muito as pessoas especialmente as mulheres. Simplesmente eu deixava a coisas fluírem. Deixava que tudo acontecesse naturalmente. Aliás sempre fui carinhoso e cuidadoso, quem me conhece sabe.

Mas nem tudo dava certo. Rosângela por exemplo. Ro foi o grande amor da minha vida. Muitas vezes ela tirou de mim o sorriso e a alegria de viver. Foi a pessoa que eu mais quis (e eu não to falando só sexualmente), mas nunca tive. Quando lembro da Ro me vem a frase na cabeça: “Too much love will kill you!”.

Eu e Ro crescemos juntos. Ela é quase um ano mais velha que eu. Os pais dela eram amigos da mamãe. Eles moravam do outro lado da rua, quase em frente à nossa casa. Brincávamos juntos, íamos e voltávamos da escola juntos quase todo dia. Depois que a mamãe faleceu e tudo aquilo aconteceu, eles se afastaram da gente, mas nossa amizade foi sempre forte. Éramos confidentes e íntimos.

A fama da Ro na escola era de a mais difícil. Apesar de ser muito legal e amiga de todos, ninguém conseguia se aproximar dela para ficar ou namorar. Ela era a que todos queriam também. Muito linda, loira, olhos azuis e corpo perfeito. Mas não era só isso que me atraía nela, era a meiguice, atenção e carinho com que ela me tratava. Apesar de toda nossa amizade, intimidade e carinho um pelo outro, eu nunca consegui tirar dela um beijo de verdade. Principalmente porque eu nunca fui de forçar as coisas; como eu disse, eu gosto de deixar rolar na boa, naturalmente.

No ano anterior, 1999, toda galera tava focada no vestibular. Dificilmente alguém queria sair do nosso estado. Para nós, o Brasil era um país e o nosso estado outro. Aliás, acho que essa é a mentalidade da maioria da população lá. Mas a Rosângela quis ir para Sampa. Por quê? Ela dizia que era um sonho dela e que tinha família lá também. Só fui acreditar nesse absurdo quando ela veio em casa toda contente dizendo que entrou numa Universidade em Sampa. “Caralho, em Sampa, Ro?” Sim, uma tal de Universidade Mackenzie. Particular ainda por cima. Penso que se fosse uma USP ainda valeria a pena, porra, São Paulo?

Nos últimos três meses antes dela ir, eu resolvi investir mais e ser mais direto. Infelizmente brigamos. Ba, como sou burro! Falei que amava ela, falei que estava disposto a qualquer coisa com ela. Um dia discutimos porque eu proibí que ela fosse embora. Me humilhei e enchi o saco, a ponto do pai dela ter que interferir.

No dia que ela foi, fui até a rodoviária. Ela ficou tão brava comigo que me ignorou. Mas ela fez isso para se preservar, não fez por maldade. No fundo, Ro, tenho certeza que você me amava também, mas entendo seus motivos!! :(

Depois que ela foi, não se comunicava mais comigo. Eu ia para a sala de bate papo na internet, onde eu sabia que eu poderia encontrar ela. Conheci muita gente nesse lugar, mas a Ro, se entrava, eu não reconhecia.

Não agüentei de saudade e disse pro Fe que ia pra Sampa. Ele achou um absurdo; não concordou. Peguei meu dinheiro que tava guardado e fui. Antes, pedi para os pais dela endereços e telefones, contatos dela enfim. Não quiseram me dar. Passei um milhão de e-mails para ela avisando que ia. Até hoje nenhum respondido. Até hoje me pergunto onde eu errei com a Ro. Onde, Ro? Mas eu sabia onde ela estava estudando. Fui mesmo assim, imaginando que São Paulo era um pouquinho maior que Porto Alegre. Fui, faltei uma semana na faculdade… estava no começo mesmo! Mas fui debaixo dos protestos do Felipe.

Peguei o busão até Floripa. De floripa fui para Curitiba e depois de Curitiba outro pra Sampa. Mais cansativo, mas mais barato. Cheguei na Rodoviária de Sampa. Meu nariz entupiu na hora. Fiquei tonto com tanta gente junta e cada figura uma mais esquisita, diferente e feia que a outra. Pensei, caraca, como alguém pode sonhar em vir morar nesse lugar? Era uma terça feira de manhã. Perguntei no balcão de informações onde fica a faculdade Mackenzie. A moça muito simpática disse que eu tinha que pegar o metrô, descer na estação da praça da Sé e depois tomar a outra linha do metrô que vai para a estação República. Próxima pergunta minha, “onde é esse metrô”? Fui seguindo as placas. Odeio metrô. Odiei aquele metrô. Não nasci pra ser tatu. Desci na praça da Sé. Ba, que lindo! Entrei na igreja lá. Fiquei impressionado com aquilo. Saí para a praça de novo e fiquei observando todo aquele movimento. Tava morto de fome. Consegui uma carne num espeto que ficava rodando na vertical. Matou a minha fome, mas quase que me matou também. Na praça tinha de tudo. Pessoas cantando, vendendo chás e ervas, outras com uma Bíblia na mão falando do inferno. Depois de muito ver, perguntei onde fica o metrô que vai para a estação República, perto da faculdade Mackenzie. Descobri que eu nem precisava ter saído da estação que eu estava, era só trocar de trem.

Desci na estação República. Fiquei assustado com o tamanho daquela cidade. Tava começando a entender porque lá era o sonho da Rosângela e era o sonho de muita gente também. Foi nesse momento que pela primeira vez eu percebi como meu mundo era pequeno. Eu passava pelas pessoas em Sampa, olhava para elas e elas nem olhavam pra mim. Nem as meninas respondiam às minhas olhadas! Perguntei onde fica a faculdade Mackenzie para um senhor barrigudo, com um terno marrom e a gravata mais curta que o normal – não sei se a gravata era curta ou se era a barriga dele que encurtava a gravata! Me deu vontade de dar umas aulas de exercício físico para ele. Ele não tinha um tanquinho, ele tinha um trator! Ele nem me respondeu, acredita? Só indicou com a mão como quem diz, “segue em frente”. Depois que perguntei umas 2 vezes cheguei lá. Um calor horrível, seco e sujo. Na entrada da faculdade tinha um prédio enorme. Lá dentro, parecia uma cidade. Vários prédios baixos e casas, tudo muito antigo.

Tive algumas frustrações. Uma delas foi ver que achar a Ro lá seria uma tarefa muito difícil. Milhares de pessoas circulando lá dentro. Outra coisa, quando perguntei para alguém onde fica a secretaria, a resposta foi, “que secretaria?”; “secretaria de que faculdade”? Então eu fui na secretaria da faculdade de direito. Uma mulher mal educada disse pra mim, “querido, quem é você? Não posso dar informações sobre os alunos da faculdade. Aliás, temos mais de mil alunos!”

Que fazer agora?

Continuo no próximo…