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Vale a pena viver

Posted in 6 - Vale a pena viver, Felipe with tags on August 18, 2008 by braverick

Os melhores anos desde a morte da mamãe foram 1999 e 2000. Pela primeira vez eu sentia alegria e vontade de ficar mais dentro de casa. Segundo o papai, a oportunidade de negócio que apareceu para ele no interior de São Paulo foi a virada de vida dele e valia qualquer sacrifício. E foi verdade, a partir de 2001 quando ele voltou, os negócios prosperaram muito por causa da representação comercial que ele conseguiu lá nesses dois anos. Hoje ele é um cara rico mesmo, mas tão rico quanto materialista e egoísta.

Mas o que vale contar aqui hoje é que ele foi embora por dois anos, levou a sofrida Ana, sua esposa com ele e a miniatura dele, o Gustavo. Ficamos eu e o Felipe. O Fe tinha 14 pra 15 anos quando eles saíram e, pelo menos na minha opinião, nada vale a pena quando o sacrifício é separar a família. Fiquei com pena do Fe. Mas como eu penso que existe um plano pré agendado na vida, morar só eu e o Felipe nesses dois anos foi uma coisa muito boa. Nos entrosamos perfeitamente. Nossa responsa era cuidar e manter a casa. Eu tinha que trabalhar na empresa do papai junto com o sócio dele, o que na verdade eu fazia era ser as vezes office boy e faz tudo, até limpeza. O Felipe não era pra trabalhar naquele momento, mas recebia a mesada do papai, que chegava perto do meu salário – eu nunca tive mesada, nem bicicleta. No primeiro ano que eles estavam fora eu terminei o ensino médio e no ano seguinte comecei na faculdade.

Procuramos ser o mais eficientes possível nesse período porque para mim e para o Fe era muito interessante que nada acontecesse de errado. O papai mandava uma grana todo mês para nos manter, pagar a moça que trabalhava em casa e todas as despesas. O Fe é um cara super inteligente. Hoje ele diz que eu era o Pink e ele o Cérebro nessa fase. Formávamos a dupla perfeita. Primeira decisão que nós tomamos foi guardar dinheiro. Tanto meu salário como a mesada dele foram guardados e não usamos nem um centavo. Enxugamos ao máximo o orçamento da casa e usávamos o dinheiro do papai para nós também. Todo sábado a gente fazia uma festinha em casa. Algumas eram do tipo open bar, convidávamos toda a galera. Bebida não era o problema. Mulher também não, então tínhamos tudo, muito ânimo e tesão. Mas a maioria das festas eram mais restritas. Dois, três ou quatro casais, ou simplesmente três pessoas. Foi uma escola pro Felipe que até aquela época não sabia nem como descer o zíper da calça, ou soltar um sutian! Virgenzinho de tudo, nas primeiras vezes elas diziam que ele cheirava leitinho!!! A empregada que trabalhava em casa não aguentou tanta zona (nos dois sentidos) e pediu as contas. Tudo bem, disse o Felipe, a gente dá um “cala boca” pra ela por fora e as questões trabalhistas pede ajuda para o sócio do papai, para aquelas coisas, tipo dar baixa em carteira, etc. Bajulamos muito ela, dizendo que ela era muito importante para nós, mas que se aquela foi uma decisão dela, por nós tudo bem. Pagamos tudo o que era devido e demos o mesmo valor pra ela não zuar a gente pro nosso pai. Ela aceitou a grana e disse que ia começar um trabalho que ia ganhar muito bem, “bom pra ti”, disse o Felipe – todas elas dizem isso. Quando ela saiu abrimos e secamos uma garrafa de vinho pra comemorar. Afinal, era mais economia pra gente e combinamos de todo sábado fazermos a limpeza total na casa. Além disso, pelo menos uma vez por mês a Le, o namo dela e a boelita vinham passar o fim de semana com a gente. Só que quando eles vinham não tinha festa, é claro. E quando eles vinham a gente voltava a comer comida de verdade e davam aquele acabamento legal na casa. Por duas ou três vezes nesses dois anos a boelita passava uma semana inteira em casa – ba, como lembrava a mamãe!!!

Como eu disse, foi uma época muito boa mesmo e a gente tinha uma boa grana juntada. Comprávamos roupa e eu, plea primeira vez na vida comecei a freqüentar uma academia. Foi muito legal porque consegui fazer um upgrade no meu corpo. Fiz duas tatoos, furamos a orelha e o Fe furou a língua. As vezes a gente ia na praia ou subia pra Floripa. Quando tinha uma coisa especial assim pra fazer, tipo trilha, montanha, etc, o Fe ligava pro papai e pedia uma grana a mais porque as coisas aumentavam muito de preço e aquela grana fixa que ele mandava não tava mais dando conta.

Num certo dia o Fe amanheceu mal. Só vomitava, deu febre e passou muito mal. Não fosse uma das meninas que ficavam com a gente as vezes, que disse que ele precisava ir para o hospital, nem sei o que teria acontecido. Deu infecção e um pouco de anemia. Teve que entrar no anti-biótico e nessa hora não falta gente com receita para fortalecer. Nossa vida encheu de tia que levava pratos e até panelas com comida para nós dois. A mãe do Fe acabou sabendo e veio para ficar um mês com o filhinho dela. Não teve festa nesse um mês, mas foi muito bom conviver com a Ana e ver como ela realmente é longe do papai. Ela deu a maior força para o nosso esquema de grana dos dois anos. Foi tão bom ela estar lá que quando tinha que ir embora chegamos a pedir para ela ficar.

Foram esses os dois anos de paz alegria e diversão na minha vida. Conseguimos crescer como pessoa, amadurecer e ter uma visão legal do mundo. Percebi como uma pessoa pode trazer infelicidade pra tanta gente! Mas percebi também como vale a pena lutar, ser ousado e nunca deixar a vida me levar. Tem gente que se entrega e fica fraco por causa de problemas, derrotas e perdas. Eu sempre tive tesão pela vida, sempre quis viver e nunca perdi a ternura.

Nos falamos depois…