Se eu fosse colocar um tema na minha vida ou escrever um livro, o título seria: Perdas e Danos. A primeira e principal perda foi a mamãe. Depois meu quarto, meu espaço na casa; perdi o papai, depois Le e boelita se afastaram e finalmente Eva, a primeira. Não falo isso por pena de mim mesmo ou por me colocar como vitima de uma situação. Simplesmente que essa é a história da minha vida. Uma vida que no começo foi marcada por perdas e danos. Eu aprendi que nada acontece por acaso. Existe um esquema, um plano previamente traçado e mesmo nossas tragédias e fantasmas são ferramentas ou guias usados para nos levar a um fim. Tudo tem um propósito, pelo menos é assim que eu acredito e é isso que hoje a minha vida mostra. Uma amiga muito sábia me disse que com essa história eu era para ser hoje, adulto, uma pessoa deprimida, depressiva, egoísta e violenta. Mas eu respondi de uma forma diferente a todos esses problemas. Acredito que o grande lance da vida é esse: nunca responder às coisas que acontecem com a mesma violência com que elas acontecem. Tipo, não é porque eu fui tratado de lado, sem muita atenção de quem deveria me dar atenção numa fase crucial da vida, que vou tratar a vida e as outras pessoas com violência e maldade. É aquela coisa, não desejar aos outros aquilo que não queram que façam pra mim. Acho que não importa o que aconteceu ou esteja acontecendo na sua vida, como dizia meu herói Che, não perca nunca a ternura!
Claro que nem tudo foi perda na minha vida. De repente ganhei alguém! Alguém que eu não esperava. E ganhei por inteiro. Alguém que entrou na minha vida pela janela, de madrugada, na calada da noite. Roubou meu quarto, meu espaço e minha família. Um “inimigo” que foi se tornando “irmão”, meio irmão, e do dia para noite passa a ser um irmão inteiro, o meu melhor amigo até hoje. Eu gostava de maltratar o Felipe. Ele era meu saco de pancadas favorito. O Gustavo era muito pequeno, e muito protegido. O Felipe era audacioso, falava demais, era zuado com as coisas e me provocava demais. Ele era a pessoa que eu podia colocar toda minha raiva e revolta pra fora e cada vez que eu pegava ele eu me sentia muito bem, me sentia vingado. Mas essa situação mudou de uma hora para outra.
Era o começo de 1999, já tinha completado meus 16 anos - desisti da bike; Felipe e Gustavo tiveram as deles e muito mais… Eu era um adolescente grande, forte e bem desenvolvido. Não tinha problema em conquistar as meninas – para mim era muito fácil – ficava sempre com as mais lindas e gostosas da escola, menos com quem eu mais queria, Rosângela. Naquele ano, minha paixão pela Ro aumentou muito e virou amor e um amor que me fez sofrer. Muitos que não me conheciam achavam que eu era maior de idade. Viajava para a capital na maior tranquilidade. Nunca mais havia visto a Eva, mas depois dela apareceram outras. Eu já não estava mais indo na igreja. No ano passado parei de ir… Agora eu já estava para entrar no terceiro ano do ensino médio. Eu estava adiantado na escola, não porque eu fosse um gênio super dotado, mas foi uma forçada na escola quando eu entrei aos 6 anos. Uma confusão de idade, só porque eu faço aniversário em janeiro. Me preparava para a faculdade em 2000 e já havia sido determinado pelo papai que eu faria Administração de Empresas para ajudá-lo no trabalho. Pelo menos emprego estava garantido para mim.
O Felipe não era visado somente por mim. Por causa do jeito dele de enfrentar as pessoas deixar muito claro o que ele pensa e fala o que pensa, desde os 11 anos ele e o papai começaram a entrar em atrito. O papai não perdoava nada! Um menino de 11 anos tirava ele do sério. E para o papai não havia negociação. Ou você concorda com ele, ou, caso contrário, é destruído por ele. Era isto que acontecia com o Fe. Vivia apanhando do papai. O Gustavo, dois anos mais novo, sempre o agradou.
Um dia o Felipe aprontou uma feia; nem tanto quanto as minhas, mas o suficiente para receber fivelada de cinta. De repente os carros dos vizinhos ficaram quase todos sem a plaquinha do nome. Aquela plaquinha que normalmente fica na trazeira do carro, por exemplo: Corsa, Fiesta, Renault, etc. E justo as dos carros do papai não eram retiradas. Os vizinhos reclamaram e o papai desconfiado veio perguntar para nós três. Todos negamos, inclusive o Fe. Um belo dia, o papai acha na gaveta do quarto do Fe as famosas plaquinhas e eu presenciei o momento de raiva do papai. Ele ficou parecendo um cachorro louco, um lobo faminto sedento camicaze. Foi voando atrás do Felipe e perguntando dele. Nisso a cinta já estava na mão. Naquela hora, pela primeira vez na minha vida me deu dó do Fe. Quando o papai viu ele, sentou-lhe a mãozona da orelha que ele ficou tontinho. O lado do rosto dele na hora ficou vermelho. Dei um pulo pra frente e peguei o papai por trás e imobilizei ele totalmente. Deixei ele totalmente inerte e gritava que parecia um maníaco. Ao mesmo tempo que eu segurava o velho eu gritava pro Fe, “corre Felipe, corre!” O Felipe parecia gato que vai ser atropelado. Ficou parado olhando. Ele não devia estar acreditando nos olhos dele! Mas aí ele correu pra fora de casa. Segurei o papai daquele jeito até deixar o Felipe pegar a distância necessária. Quando eu soltei o pai pensei que ele ia ter um ataque. Mas eu cheguei na cara dele e falei que ele não ia me bater e que nunca mais ia encostar um dedo no Felipe. Nisso entra Ana com uma caneca de alguma coisa, parecia chá. Isso tudo desarmou o velho.
A partir desse dia, ganhei o Felipe. Até a Ana, a mãe dele, começou a olhar para mim com outros olhos. Eu tinha certeza que ela sofria na mão do papai, mas jamais se atreveu ir contra ele. Fico imaginando, até a mamãe…
O Fe passou a ser meu amigo. Andávamos juntos, saíamos e passávamos muito tempo conversando. Descobri o lado palhaço dele. Ele me fazia rir de rolar no chão com tanta merda que falava.
Minha amizade com o Felipe se estreitou mais ainda, quando no meio do ano o papai avisa que ele, Ana e Gustavo passariam um ano fora a trabalho. Eles iriam morar no interior de São Paulo por causa de um grande empreendimento que apareceu. Ficaríamos em casa eu e Felipe, sem pai nem mãe, sozinhos, um cuidando do outro e eu deveria começar trabalhar na empresa do papai, ajudando o socio dele. Aquele foi o melhor período da minha vida. O Fe e eu éramos amigos inseparáveis; depois que eles foram, Le e boelita apareciam direto em casa. Pudemos nos fortalecer juntos e aquele foi o momento que eu voltei a sentir que eu pertencia a uma família.
Finalmente acabo esse capítulo com ganho e não com perda. Mas depois eu conto tudo.