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Quem é seu pai?

Posted in 2 - Quem é seu pai? with tags , on August 14, 2008 by braverick

Em menos de 5 meses minha vida virou. Hoje, mais velho, fico pensando como eu tinha estrutura para suportar tanta coisa? Perdi a mamãe e agora vejo que estou perdendo mais coisas. Depois de uma semana a situação ficou da seguinte forma: Felipe tomou conta do meu quarto e como Le não estava, eu fui pro quarto dela. Gustavo, o mais novo, ficou no quarto que a boelita dormia quando ia estava em casa. Passei os dias fiscalizando esses dois meninos. Eles não parávam. Meu tempo de conversa e brincadeira com a Eva acabou. Toda vez que eu brincava com eles havia problemas. O Gustavo queria tudo e chorava. O Felipe gostava de mandar em todo mundo. Minha paciência acabava todo dia, eu tava vendo a hora que ia descer porrada naquele muleque. Mas eu percebia que qualquer coisa que acontecia, qualquer grito ou choro, a mãe deles saía e imediatamente olhava pra mim como quem diz, “o que você está fazendo com meus filhos?” Isso é duro, sabe?

Se puder dizer que tem uma coisa boa nisso tudo, foi que depois que a Le foi pra Boelita ela começou a me ligar todos os dias. Ela estava preocupada comigo e queria saber como eu estava nesse novo ambiente. Eu nunca disse pra ela que estava ruim, tinha medo do papai, tinha medo das coisas piorarem para o meu lado. Mas as únicas pessoas que eu tinha para contar e confiar eram agora a Le e a Eva. Claro, a boelita também, por trás da Le.

Algumas semanas passaram e num dia de manhã os dois meninos sumiram no quintal e eu fui ver onde eles estavam. Nos fundos do terreno de casa havia um quartinho de alvenaria. Era o chamado quartinho da bagunça. Lá era onde o papai tinha as coisas dele: ferramentas, pedaço de tudo o que se pode imaginar, de fio até laminas de chapas e muitas garrafas e uma pequena adega, porque o negócio do papai era no ramo de bebida e ainda é hoje. Foram lá e começaram a mexer em coisas que eu sabia que era sagrado pro papai e que eu não podia chegar nem perto. Eles começaram a mexer e eu suspeitava que no fim eu teria culpa de tudo. Pensando nisso eu disse, “pára, saí daí, não mexe em nada!” Foi como se eu dissesse, “divirtam-se”. E mais uma vez eu gritei, “não mexe!” O Felipe disse, “não é seu.” Na hora eu disparei, “mas é do meu pai”. Mas o Felipe, como até hoje, tem respostas bem rápidas e devolveu dizendo, “ele é meu pai também!” Aquilo me deu uma raiva tão grande que faltou muito pouco para eu não estrangular aquele muleque. Acho que foi a primeira vez que eu senti raiva na minha vida e a primeira vez também que o sangue romano da parte da mamãe esquentou! Ele vem, ocupa tudo, minha casa, meu quarto, minha vida e agora assume a pole position em relaçao ao papai? Contei tudo isso pra Le por telefone. E cada vez mais a Le me parecia a mamãe, tentando me acalmar e sempre preocupada em saber primeiro como eu estou e depois o que estava fazendo e como tava me comportando.

Sexta feira, Le chegou em casa. Parece que eu vi um anjo! Nunca abracei minha irmã tão forte na minha vida. Segurei para não chorar. Não é machismo, mas não queria que ela achasse que eu estava infeliz demais. Mas eu estava. Foi também a primeira vez que ela viajou sozinha de ônibus da capital pra S.Cruz. O papai foi pegar ela na rodoviária. Não é tão longe, mas pra ela foi importante. Boelita não apareceu mais lá. Hoje entendo porque, afinal, alguém no lugar da filha dela, naquela situação, trouxe constrangimento para ela.

Naquela mesma sexta, de noite, estávamos comendo pizza e depois assistiríamos um filme no video. À mesa, todos sentados, e Ana, como sempre, sentada no lugar que a mamãe costumava sentar. Le muito corajosa perguntou ao papai quem era o pai daqueles meninos. O alemão ficou vermelho e logo depois branco. E ela falava, “fala pai, fala!” Ana pegou os moleques e sairam da copa e ficamos nós três. Eu queria me transformar numa estátua, ou virar o homem invisível nessa hora. Quase saí junto com os meninos, mas lembrei que eles têm mãe. A Le disse, “pai, eles são a cara do Ricardo! Era por isso que você viajava tanto?” Bem, eu não me achava parecido com eles. Meus olhos são verdes, lindos!!! Mas realmente, depois que eles apareceram, o papai viajava menos, mas eu pensava que era por causa das férias que ele não estava saindo. Mas a Le insistia dizendo, “Pai, você tem essa mulher a pelo menos 10 anos? Por que você fez isso com a gente e com a mamãe?” Sacanagem, eu já tava ficando de pena do papai e ver a cara dele; ele tava vendido, totalmente vulnerável. Le saiu da mesa, com muita raiva e ódio e batendo o pé foi pro quarto dela e bateu a porta tão forte que estremeceu a casa. Eu só lembro de levantar os ombros quando ela bateu a porta. Fiquei com muita dó do papai. Ele tava com duas bolas vermelhas no rosto, parece que tinha levado uma tapa em cada lado. Na verdade levou mesmo, moralmente falando. Com os dois braços sobre a mesa, um em cada lado do prato que ele comia. Ele abaixou lentamente a cabeça. Eu vi um gigante perdendo as forças. Eu não sabia se continuava comendo, se abraçava ele, ou se saía de lá. Não tive coragem de fazer nada, única coragem que me veio foi de perguntar, “você tá bem, pai?” Ele respondeu olhando para mim e com um sorriso bem amarelo, “estou, filho, está tudo bem”. Eu saí e fui sentar na calçada. Fiquei pensando, “o que de tão grave aconteceu?” Qual o problema da pessoa ter outros filhos? Qual o problema se a pessoa quer ter outras mulheres? Na minha ingenuidade de pré-adolescente, eu tinha a noção da traição, mas não estava vendo algo tão grave assim. Pensei na possibilidade de ter dois pais, nenhuma má idéia, mas o que eu não gostaria é de ter duas mães. Minha única dúvida foi, por que ele não trouxe os meninos antes? Olhei para o céu e a estrelinha da mamãe estava lá.

Chegou domingo e Le foi embora. Ela me chamou e disse que estava mudando de vez pra morar com a boelita. Aquilo me causou muita tristeza. O que está acontecendo? Minha vida parece que esta acabando, estou perdendo pessoas, coisas e espaços! A partir daí o melhor lugar que encontrei pra viver não foi mais naquela velha casa, mas foi na rua. Eu não me sentia mais de ninguém. Não encontrei mais ninguém que, mesmo sem palavras me dissesse, “Ricardo, vocë é meu” ou “vem pra casa, você tem casa, você pertence a uma família.” E assim, acredito que foi o começo da minha vida.

Depois nos falamos…