Marcaram o dia pra eu tirar as fotos para 2 semanas depois. Porra, que saco, que povo enrolado, podia resolver tudo num dia só! Enfim, resolvi aproveitar o tempo e comecei a exercitar o corpo e ficar bem legal no dia das fotos. Mas eu precisava comer também. Resolvi andar mais a pé, mesmo de madrugada quando eu costumava pegar o último ônibus para casa, passava um frio desgraçado. O inverno não tinha acabado totalmente. Comia chocolate e bebia chá com bastante açúcar porque isso me ajudava a ter energia. A tia do Walkabout gostava muito de mim e me dava toda manhã um embrulhinho de bacon roll, que é um tipo de pão de hamburger grande, com manteiga e tiras de bacon e comprava pra mim uma garrafinha de suco de laranja. Respirei fundo agora e tomei coragem pra dizer que no pub que eu trabalhava como garçon sempre sobrava algum chips (batata frita) ou alguma outra coisa e eu aproveitava… (reticências no meu bloguinho significa um momento de pausa – as vezes dói lembrar, é por pena de mim, eu sei, mas dói). Tudo na vida passa. Toda fase ruim passa… Além desse esqueminha, eu fazia sessões de abdominais e flexão. As vezes pedia pra levantar um amigo ou amiga pra fazer um pouco de musculação.
Chegou o dia do teste de foto e eu fui com a melhor roupa que eu tinha, ainda roupa do Brasil. Passei o frio dos infernos, mas era a melhor roupa que eu tinha. Cheguei no escritório, esperei umas 2 horas, quase dormi lá, até que me chamaram. Entrei na sala e estava lá de novo a Sharon e dessa vez um cara que era o fotógrafo e mais uma mulher magrinha. Eles falaram para eu ficar relaxado e tranquilo. Sentei numa cadeira e a Sharon com aquela simpatia e sorriso começou a perguntar coisas. Como eu entendia metade do que ela falava e pra responder era um sufoco, a gente acabava rindo muito. Era uma técnica dela pra me deixar bem tranquilo mesmo. Durante essa conversa o fotógrafo tirava fotos de mim o tempo todo. Sharon disse pra eu nem dar atenção pra ele. Mas ele deve ter tirado umas 800 fotos. Mandaram eu ficar de pé e tirando fotos; mandaram eu tirar a camisa e sempre o barulhinho da máquina. Depois mandaram tirar a calça. Olhei pra Sharon e ela deu a entender que era pra eu relaxar; ok. Tirei a calça e fiquei só de under. Tiraram fotos de tras e da frente. Eu sentado, eu deitado e me deram um roupão de banho lilás pra eu vestir. Passaram um pó na minha cara, deram uma molhada no meu cabelo e passaram gel. Depois passaram uma base no meu rosto. Eu olhei no espelho e me vi lá, parecendo um viado, mais moreno. Até que da cor eu gostei. Queriam que eu ficasse excitado. Eu disse, “no way”, de jeito nenhum! Na verdade eu já tava de saco cheio! Quando eu disse não eles pararam e ficaram olhando pra mim. Pensei: perdi o emprego que nem comecei. Eu já tava pensando antes, quando tava indo pras fotos, se eu não conseguir esse trabalho eu volto pro Brasil. Não aguento mais. Prefiro passar fome lá, e eu sei que jamais passaria, do que continuar vivendo nesse inferno. De repente me imaginei chegando no Brasil. Sabe, eu acho que nosso maior inimigo é a gente mesmo. E o orgulho é uma das armas que nem sempre deixa a gente feliz. Por mais contraditório que seja, por causa do orgulho e do medo de ser visto como derrotado pelas pessoas na minha cidade, principalmente pelo papai, resolvi me humilhar naquela sessão de fotos.
Sentei na cadeira e comecei a pensar na Rosângela… dali pra frente tudo mudou na minha vida, mas o preço pago foi alto, até hoje. Será que valeu à pena? Não, não valeu.
Sharon chegou pra mim e me parecia muito contente. Ela me disse um monte de coisa que eu não entendi nada. Tava puto da vida, com raiva de mim. Pedi pra ela escrever tudo o que ela tava falando. Ela disse que eu não dei muito sorriso nas fotos, mas foi bom, ela disse, eu fiz um estilo com isso. Realmente eu não tinha motivos pra sorrir; aliás, nunca tive muito. Ela falou quanto eu iria ganhar com o trabalho e eu fiquei assustado, pensei que era mentira dela. Ela me mostrou as vantagens de trabalhar com eles e perguntou se eu topava. Eu disse que sim. Depois disso eu teria que voltar no dia seguinte para assinar o contrato. Tudo bem, e foi o que eu fiz, no dia seguinte estava lá.
Depois eu continuo.