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Chegando Junto na Rainha

Posted in 12 - Chegando Junto na Rainha with tags , , , , on August 28, 2008 by braverick

Cheguei em Sampa só pra fazer a conexão para a Inglaterra. Fiquei só umas duas horas e meia no aeroporto de Guarulhos e não queria ficar mais porque São Paulo para mim trazia uma mistura de alegria e tristeza. Meu objetivo era outro; não queria pensar que estava a poucos quilômetros da Rosângela. Se pensasse muito faria besteira.

Embarquei num avião enorme da British Airways com destino a Londres. Tudo muito chic lá dentro; comissárias, quase todas, muito gostosas! Minha cadeira era lá no fundo, no rabo do avião. Sabe que sou chegado num rabo? Era a penútima cadeira. Mas quando fui sentar percebi que eu ia sofrer um pouquinho na viagem. Primeiro porque o espaço para as minhas pernas era ridículo de pequeno e além disso, eu não podia me espalhar muito por causa da pessoa do lado. Outra coisa, toda vez que eu precisasse ir ao banheiro tinha que acordar a senhora que estava do meu lado ou pular ela, porque o vôo era durante a noite e 12 horas de viagem. Então imagina. Ser grande nessa vida tem suas desvantagens.

O bom é que a senhora do meu lado era muito pequenininha e sobrava espaço pra ela. Conversamos muito. Ela tinha uma filha casada que morava na Holanda e estava indo lá passar uns meses e curtir a filha, genro e netos. Em pleno vôo, depois do jantar, ela pede duas garrafas de vinho, me parecia de 600 ml cada garrafa. Para não deixar ela sozinha nessa, e como bom gaúcho, pedi duas também. Ela ficou muito alegre e eu também. Mas de repente eu tombei, dormi a viagem inteira. Só acordei no meio para mijar e quando acordei eu estava com o meu cabeção totalmente no ombro dela, tadinha. E ela dormindo. Minha dúvida era se ela estava dormindo ou eu tinha matado ela, hahaha.

Cheguei de manhã em Londres. A fila da imigração para cidadãos de países fora da Europa era enorme. Uma das coisas boas que o papai fez para os filhos foi dar a cidadania alemã. Com o passaporte vermelho passei sem muitos problemas e agora estava na terra da Rainha. A orientação era para que no aeroporto eu ligasse para um telefone de um funcionário da escola que eu ia estudar para que ele me buscasse ou mandasse um taxi. Era domingo de manhã. E quem disse que eu sabia inglês? Eu pensava que sabia. Naquele momento que eu peguei o telefone eu me lembrei que eu mal sabia a conjugação do verbo to be. Mas enfim, conseguimos chegar num acordo e ele me mandou um taxi.

Eu não sei se o motorista era um paquistanês, afegão ou iraquiano. Ele disse de onde era mas eu não entendi nada. Entramos no carro e a direção no lado oposto, muito estranho. O motorista foi ouvindo jogo de futebol e essa galera não pode ver brasileiro que acha que a gente tem que entender tudo do esporte. Eu sou colorado não por gosto, mas é porque o papai é gremista roxo e eu só por rebeldia dizia que era Internacional. O motorista do taxi entendia mais de futebol brasileiro do que eu. No jogo que passava no rádio não consegui entender quem estava jogando; sei que quando saímos do aeroporto estava 0×0, e quando cheguamos na casa estava 2×0. Só que eu não ouvi nenhum “goooooool”. Já vi que eu ia sofrer pra caralho.

A casa que eu fiquei se localiza no sul da cidade de Londres, enquanto que o aeroporto Heathrow fica na parte oposta. Atravassamos a cidade e foi maravilhoso passar pelo Big Ben e Casa do Parlamento e tantos outros lugares maravilhosos. Chegamos na casa que ficava na Woolacombe Road.

Toquei a campainha da casa e uma senhora baixinha, gordinha com cabelos brancos atendeu, era a Mrs.Ball, Margareth Ball. Uma cara branquinha, simpática, mas não muito sorridente. Ela morava numa casa, um sobrado de 4 quartos com o filho dela, Matthew que deveria ter uns 35 anos. Ele era divorciado e por problemas de saúde ficou inválido e passou a viver de benefício do governo. Passava o dia inteiro em casa jogando video game. Mrs.Ball trabalhava como auxiliar no banco de sangue de um hospital e alugava dois de seus quartos para estudantes como eu, de outros países. Era um convênio que ela tinha com a escola. Ela tinha um problema de artrose reumática que afetava a bacia, pro isso ela caminhava com muita dificuldade. Ela tinha dois gatos, o Cheap e o Fangs.

Mrs.Ball mostrou meu quarto lá encima. Quarto pequeno, mas bom para mim. Mostrou onde ficava banheiro, sala e cozinha, lugares que eu poderia ter acesso. Ela servia o café da manhã e o jantar. Só nos fins de semana que ela dava o almoço também. O quarto debaixo era para um estudante que também estava para chegar.

Subi, tomei um banho muito da hora e quando estava no quarto Mrs.Ball bateu na porta e quando eu abri ela pegou na minha mão e me levou até a cozinha. Na mesa tinha um almoço que parecia delicioso. Não vi arroz nem feijão, mas consegui engolir tudo.

Chegou o outro aluno e pra minha surpresa era um homem que acho que tinha quase a idade do papai. Mais baixo que eu, barrigudinho, óculos e pouquinho cabelo. O nome dele era Andreas, e veio de Zurich, na Suíça. O idioma nativo dele era alemão, mas precisava aprimorar o Inglês porque a empresa que trabalhava estava se expandindo pela Comunidade Européia e o cargo dele exigia um Inglês mais bombado. Ele sentou comigo na mesa e, apesar da idade, me parecia uma pessoa super acessível e legal. O problema era entender ele, mas beleza, fui levando. Andreas se tornou o meu melhor amigo nessa fase.

Naquele mesmo dia, à tarde, fomos nós dois reconhecer a área e fomos até a estação de trem porque as aulas começavam no dia seguinte e precisávamos saber onde ficava para não atrasar. Tadinho, ele barrigudinho não conseguia me acompanhar, ficava cansado e pedia pra ir mais devagar. Ri muito com ele.

Esse foi meu primeiro dia na terra da Rainha. Gostei dela. Acho que vou ficar.

Depois nos falamos…