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Caindo feio na real

Posted in 1 - Caindo feio na real with tags , on August 13, 2008 by braverick

Praticamente três meses já passaram. Realmente para mim a “viagem” da mamãe é demorada mesmo. Sinto uma falta enorme dela. Pelo menos eu posso olhar para aquela estrela de vez em quando e saber que ela está lá; é o meu consolo. Pelo menos, é janeiro, mês do meu aniversário. Quem sabe dessa vez eu ganho aquela bike que, por motivos óbvios, mas nem tanto, passou em branco no dia 12 de outubro, dia da criança.

Os últimos três meses foram bastante movimentados e diferentes, apesar da falta que eu sentia da mamãe. O papai parece que tem que viajar mais, a boelita vem mais vezes para ficar com a gente por causa disso e a Le tenta assumir uma posição de comando na casa, mas a minha irmã tá bem longe de ser parecida com a mamãe, ainda mais com 16 anos, ela só dá bola fora. Outra coisa que aconteceu foi a contratação de pessoas para trabalhar em casa, fazendo serviços gerais como limpeza, enfim, uma série de passos foram dados em função do espaço enorme que a mamãe deixou na casa. Muitas pessoas vêm trabalhar em casa, mas nunca dá certo. As vezes a pessoa não faz o serviço direito, as vezes a Le não vai com a cara dela, e assim tem sido. A pessoa que está no momento parece que veio para ficar. A Eva começou a trabalhar no mês de Dezembro. Uma mulata linda que veio do norte do Brasil não faz muito tempo. Ela deve ter uns 19 ou 20 anos. Me chama atenção, nos dias de calor, que ela usa umas camisetas regatas e shorts. Acho linda a cor dela e adoro ver coxas, pernas e peitos que parecem que querem rasgar a camiseta e saltar pra fora! Fico doido quando consego ver o umbigo dela, quando a camiseta sobe. Doido assim, 11 anos ainda, mas já me diverto vendo ela e ela percebia! Bem, vale dizer que Eva era uma grande pessoa. Lembro de algumas tardes ela passando roupa e eu sentado e conversando um tempão com ela. As vezes sobra um tempo e ela vai no quintal jogar bola comigo. Eva… depois não tive mais contato com ela. Eu e Adão temos pelo menos uma coisa em comum: Eva foi nossa primeira mulher. Mas isso é papo pra mais tarde. Por enquanto, somente uma admiração do corpo e da amizade dela.

Outra coisa que eu era muito ligado é no Superman e filme de lutas do tipo Chuck Norris, Bruce Lee, Rock, etc. Queria ser um cara musculoso igual o Superman. Eu curto fazer minhas sessões de luta com a Le. Apesar dela odiar isso, até há algum tempo ela conseguia me segurar, mas de um ano prá cá eu consigo derrubar ela no chão, para o ódio dela. Na rua eu brinco de lutar com meus amigos, e se não entra um cara mais velho, eu ganho de todos eles. Eu me acho muito forte e acho que sou mesmo. Tanto que eu cheguei a pensar que tinha alguma coisa de Superman em mim. Até o dia que eu conclui que não, justamente porque não sei voar. Subi no muro e de lá de cima pulei. Caí na real, não tenho os mesmo poderes de Superman nem do Chapolin Colorado, apesar de ser fortinho. E ainda ganhei um galo, docemente cuidado por Eva.

Passou o natal e hoje imagino o esforço que fizeram para que o meu natal fosse feliz. E foi mesmo, apesar da pessoa mais importante da minha vida estar ausente. Ganhei um relógio muito legal, além de outras coisas. Estava de férias da escola e, tranquilo, havia passado de ano. chegou janeiro e fomos eu e Le para casa da Boelita na capital. Lá passamos meu aniversário, e a boelita preparou uma festinha legal, foram os primos, tios e tias e alguns meninos da vizinhança que eu fiz amizade. O papai não foi, mas ligou. Está com muito trabalho. As pessoas pensam que criança sente essas coisas. Na verdade eu não senti a ausência do papai no dia do meu níver, eu estava mais focado na minha festa e nos presentes. A bike não apareceu de novo, mas eu tava certo que quando eu chegasse em casa ela estaria lá me esperando. O problema é quando a gente cresce e lembra dessas coisas e aí sim, fico chateado. Não na época. Hoje entendo algumas atitudes do papai e justamente pelo fato de entender é que fico mal com ele. Antes eu era inocente demais.

Chegamos eu, Le e boelita em casa. Finalmente em casa. Já estava com saudade dos peitões da Eva; e também da amizade e dos carinhos dela. Mas existe uma movimentação diferente na casa. Temos visita, mas eu não conheço essas pessoas. Na sala dois meninos mais novos do que eu e uma mulher, que parece ser mãe deles. Eles estão brincando com meus brinquedos, tudo bem, sem problemas. Resolvo correr pro meu quarto com a esperança de ver a tão esperada bicicleta, mas, que nada. Eva parece muito séria, não faz tanta festa como costuma quando me vê. Meu quarto está uma zona, tudo espalhado e a minha cama desarrumada. Alguém dormiu lá. Mil interrogações. Enfim, é mês de férias e a vida continua. Chegou de noite, hora de dormir, mandam eu dormir no colchão, porque a cama do meu quarto é para o Felipe, o menino mais velho. Ele fala muito, fala o tempo todo. Acaba sendo a atenção de todos. Com poucas horas eu concluí que ele nunca seria amigo meu, não só por ser mais novo, mas pela esquisitisse toda dele.

Acordo no outro dia e vi Le chorar e logo entendo que havia tido uma briga com o papai. E foi isso mesmo. No fim da tarde, Le vem falar comigo e dizer que está voltando para a casa da boelita naquele dia mesmo. “Tá bom”, eu disse, mas sem entender o porquê. Ela não agüentava ficar mais lá e agora quer voltar? Depois do jantar, estavam todos na sala, Le e boelita já tinham saído e o papai começa a falar comigo na frente dos dois meninos e da mãe deles. Ele disse que nossa família ficou maior e que aqueles meninos daqui para frente seriam meus irmãos e amigos e que a Ana, mãe deles, vai ser minha mãe também. Porra, levei um susto. Não estou acreditando nessa história. Pergunto pra ele da Le e ele disse que ela prefere dar um tempo com a boelita, mas eu não tenho essa opção. Saio correndo de lá e vou sentar na calçada, tentar assimilar tudo isso. Me sinto sozinho. Procuro a estrela e não acho. Eva foi pra casa dela, Le e boelita estão longe. E agora? De repente, estou sem todos e de filho mais novo e uma vida tranquila, agora viro o mais velho. Como entender isso? Não faz quatro meses que a mamãe morreu. E a pergunta apareceu de novo: e agora, como vai ser? Nos falamos depois.