Não Desespera, Ricardo!

Fim de Outubro de 2002. Está pra fazer 4 meses que estou em Londres. Tá tudo uma merda, aliás, literalmente. Não aguentava mais limpar banheiro. A limpeza não era pesada. Eles davam produtos e aparelhos que dava pra fazer uma limpeza bem feita e sem grande esforço. O problema era fazer isso quase todo dia, não aguentava mais. A grana não tava mais dando porque um dos garotos do flat tinha ido embora pro país dele, e agora a despesa aumentou pra cada um. Eu perdi uns quilos, comia muito pouco. Acabou minha vida de zueira na noite, não tinha dinheiro nem ânimo pra isso. Quando ia num banheiro ficava reparando na sujeira ou limpeza dele. Além disso, tinha completado 8 anos da morte da mamãe e como isso me sensibilizava! No Brasil estavam todos muito bem. Le estava trabalhando, noiva e muito bem. Papai cada vez mais rico e Felipe trabalhando com ele. E eu aqui nessa merda. Estava a ponto de desanimar mesmo. E eu não conseguia aprender essa maldita língua.

Acho que eu descobri o que é desânimo. Mesmo depois que a mamãe faleceu e com tudo o que aconteceu, eu ficava triste, depre, puto, mas desânimo igual aqui, nunca. O problema é que quando a gente desanima a gente perde a visão das coisas. A gente pensa que o nosso mundo se limita àquela fase e nunca pensamos na possibilidade de que um dia as coisas podem mudar. Hoje eu vejo que muita coisa mudou. Como as coisas e pessoas mudam de posição; é só aprender a esperar e tentar fazer as coisas acontecerem. A banda toca de um lado, mas ela volta e toca do outro. Uma amiga brasileira, mais irmã do que amiga, a Raquel, me dizia sempre, “não desespera, Ricardo, espera! A vida pode reservar grandes coisas pra ti”.

Acabou acontecendo uma coisa legal sim. Consegui um trabalho de garçon no Soho’s, la perto de onde eu trabalhava. Dava pra trabalhar à noite como garçon e de manhã como faxineiro. Realmente as coisas melhoraram, não muito, mas melhoraram. Até que a complicação veio de novo. No flat morávamos em 4 pessoas. Dois eram italianos e um chinês. Acontece que os italianos eram gays e viviam transando. Surgiu um lance de ciúmes entre eles. Um deles, o Antonio, era muito safadinho mesmo. Tava totalmente envolvido no meio gay a ponto de participar de orgulho gay, essas coisas. Teve uma vez que acordei com o Antonio mexendo em mim. Nada contra, mas não gosto de ser usado. Desse dia em diante, me trancava no quarto com o chinês na hora de dormir. Os dois brigaram e sairam do flat, resultado, ficou impossível pagar o aluguel. Mas enquanto não arranjávamos outro, íamos pagando e atrasando o aluguel daquele flat. Meu colega chinês pagava a parte dele direitinho e eu nem sempre conseguia a minha. Ele pagava e eu devia sempre pra ele. Janeiro de 2003 tinha chegado, tava completando 20 anos e muito mal. Por causa da grana, comia mal e acabei ficando doente. Chegou num fim de semana, numa sexta, simplesmente não tinha ânimo pra sair de casa. Não fui trabalhar, não ganhei dinheiro. Se antes eu tava desesperado, agora então!!! As palavras da Kel estavam perdendo o sentido pra mim.

Eu tinha muitos amigos, a maioria brasileiros. Não havia tanto como eles me ajudarem. Mas um dia uma amiga apareceu e disse que viu uma oportunidade pra mim. Queria umas fotos minhas. Eu dei umas que eu tirei naquelas máquinas que ficam no metrô, que tira foto instantânea e a gente saí com cara de bandido. Ela disse que queria uma foto inteira e do corpo todo. No fim ela me explicou que conheceu uma mulher de uma agência de modelos e que ela falou de mim, achando que eu tenho alguma chance. Ah, não tenho menor estilo pra ser modelo, sou grande demais, tipo troglodita, não levo o menor jeito pra desfilar essas coisas. No fim ela tirou as fotos e levou.

Estávamos no mês de março de 2003 e arrumei um quarto no Elephant & Castle, perto da estação Waterloo. Depois de quase 2 meses essa agência me chamou e tive que falar com uma tal de Sharon.

Fui lá, fica num lugar legal, perto da Baker Street. Sentamos, conversamos com dificuldade porque eu não entendia totalmente ela. Ela era uma senhora de uns 40 anos. Muito paciente e simpática. Disse que gostou do meu jeito, dos meus olhos e do meu porte. Mas ela tinha que falar com o sócio dela. Umas 3 semanas passaram e recebo o recado de que era para eu ir lá na agência. Opa, procurei ir arrumadinho, afinal a grana ia ser decisiva. Pensar que eu cheguei a arrumar as malas pra voltar pro Brasil e bem humilhado.

Fui lá, esperei mó tempo até que me chamaram numa sala. Entrei na sala, super envergonhado. Estavam a tal da Sharon e o sócio. Um homem de uns 60 anos, extremamente gordo e brancão, praticamente careca. A cabeça dele parecia um ovo. Fiquei com medo de não entender nada do que ele falava. Fiquei com medo dele não ter paciência comigo; fiquei com medo de perder o emprego que nem tinha conseguido ainda. Mas o cara não falava nada. Eu ia sentar ela mandou eu ficar de pé. Dar uma volta completa e eu entendi que estava sendo analisado para ver se passava. Mandou eu tirar a camisa. Tirei. Mandou eu tirar a calça e ficar de meia e under. Achei estranho, mas fiquei. Dar mais uma volta e andar. Foi o que eu fiz. Depois de tudo isso, as únicas palavras do velho gordo foram: “photo and test drive”. E agora?

Continuo depois.

3 Responses to “Não Desespera, Ricardo!”

  1. grandes dificuldades….kero saber a continuação da história.
    bjossssssss…
    estou c/ muita saudade..

  2. continuaaaaaaa!!
    tava interessante (:
    whehehe..
    Eu sei bem como voce se sente!!
    Morar no exterior, nao conhecer direito o idioma, se sentir um bosta e etc. Mas o mundo da voltas..ôôô como da (:

    Parabéns pelo blog!!
    Adorei ;)
    vo linkar blz?

    beijO.

  3. Tbm quero saber onde termina isso…rsrsrs

    Amigo, aqui não é o lugar próprio pra isso, mas preciso agradecer o presente q é tua amizade.

    Abração grandão do Will

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