Archive for September, 2008

Medo do Meu Escuro

Posted in 18 - Medo do meu escuro with tags , , , on September 30, 2008 by braverick

Vim para o hospital porque a bateria descarregou e eu precisei recarregar. Me deixaram num espaço, num corredor muito comprido, mas com várias divisórias. Dentro de cada divisória tinha uma cama com alguém doente, deitado. Na primeira noite que eu passei lá eu acordei no meio da noite e tava a fim de fazer xixi. Ainda bem, não puseram nenhum caninho em mim e também não consigo fazer na latinha que eles me deram. Levantei e fui com o soro procurar um banheiro. Por um momento pensei que eu tava passando pelo labirinto do fauno. Uma desgraça. Vi os doentes nas camas. Todos velhos, velhinhos… tinham idade para serem meus bisavós! Alguns pareciam estar mortos, outros pareciam que estavam parando de respirar. Outros sentados na cama, pareciam de cera. Estes me acompanhavam com os olhos, pareciam que estavam esperando eu passar.

Veio uma enfermeira atrás de mim e mandou eu voltar. Eu disse que precisava ir no banheiro, e ela disse pra eu fazer na latinha! Eu disse, “eu não quero”! Ela então me levou até o fim do corredor e eu entrei no banheiro. Quando eu saí ela tava lá, me esperando pra garantir que eu ia voltar pra cama e me comportar. Mas do nada eu olho pra minha esquerda e tinha uma janela bem grande. Pedi pra ela deixar eu ver. Ela permitiu e eu fui lá. Do lado de fora tava tudo escuro, a janela não abria por causa do frio. Mas a escuridão da noite era tanta que não dava pra ver absolutamente nada lá fora. A enfermeira disse pra mim que na opinião dela aquela era uma das paisagens mais lindas que ela já viu. Pensei, “como?”; “não vejo nada!”. Mas daí ela me mandou voltar pra cama.

No dia seguinte eu fui entender o que ela disse. Levantei e apesar de estar bem fraco, fui até a janela. Aliás tentei, mas somente me autorizaram ir com a cadeira de rodas – normas de segurança! Me levaram até a janela e era verdade. Era o lado do hospital que dá para o campo, mas era uma cena que mais parecia um quadro. Lindo! Havia um campo enorme, com muitas árvores, um rio passando lá no meio e lá no final uma grande montanha, com um castelo em cima. Lá no fundo era a cidade de Stirling e seu castela no alto da montanha. Isso é a Escócia, beleza por toda parte. Na noite seguinte eu tinha ficado muito mal. A enferemeira da noite passada, a mesma que falou que a vista era linda, apareceu na minha cama e eu contei pra ela que vi a janela durante o dia e que também achei linda. Ela deu um sorriso e disse que as vezes a escuridão que está na nossa frente é só aparência, por traz dela existe uma coisa muito linda que nos surpreende! Aquela mulher conseguiu, com poucas palavras, tirar o medo do meu escuro.

Let Me Live

Posted in Uncategorized with tags , , on September 30, 2008 by braverick

O outro teste não tinha nada de bom. Alguma coisa me dizia que eles não queriam um modelo para desfilar ou tirar fotos legais. Sharon fazia (e ainda faz) parte de um grande esquema de prostituição. O que ela faz nada mais é do que aliciar jovens que são usados para satisfazer seus clientes de alto nível. Ela é somente a ponta do iceberg desse esquemão. Na verdade a coisa é muito maior, mas eu não vou entrar em detalhes aqui. Quando falei com ela dizendo que eu pensava que tava entrando numa coisa, no fim essa coisa era outra, a resposta dela foi mais ou menos assim, “é pegar ou largar”! Resolvi pegar e isso é uma das coisas que eu mais me arrependo em toda minha vida. Zuei muito até aqui; sério, fiz quase tudo nessa vida, mas acho que apesar de tanta coisa tive uma vida normal até o momento que aceitei esse “trabalho”. Financeiramente, tudo mudou mesmo. As sofridas libras que eu recebia num mês lavando banheiro e sendo garçon, eu recebia em duas horas nesse novo “emprego”.

Passei a ser um objeto, um código no menu de um super hotel em Londres. Somente os clientes dessa enorme cadeia de prostituição que abrangia toda a Europa sabiam desse código e quando eles pediam por ele, recebiam no quarto um segundo menu, impresso ou eletrônico. Eram clientes ligados a grandes empresas, gente da corte, políticos, nobreza, enfim, pelegos e burgueses. Gente muito rica, homens e mulheres, mas apesar de poder e grana, viviam numa puta solidão e carência. Nem sempre a coisa era só prostituição; eles queriam simplesmente ter alguém para sair ou para conversar. As pessoas com as quais me relacionei estavam totalmente presas às suas máscaras e comigo elas mostravam quem realmente eram. Sabe de uma coisa? Tudo isso me deixou decepcionado com a vida, com o ser humano. O mundo que eu via, que passava diante dos meus olhos, que acontecia na TV, nos jornais, etc, era uma mentira, a realidade era podre. Aquela gente dizia ser um bem para a sociedade, mas diziam que precisavam sair da realidade as vezes porque viver só na real, para eles, era quase impossível. Por isso eles compravam, pagavam e presenteavam garotas e garotos como eu que precisavam sobreviver e não tinham amor próprio. Cara, isso é cruel! Eu perdi o gosto pelas coisas; comecei a comprar roupas bacanas, perfumes caros, comecei a ir na academia todo dia, mas sexo para mim era trabalho, perdeu o tesão. Fiquei um ano nessa vida, me relacionando com mulheres com idade para serem minha mãe, com homens que tinham vida dupla, respeitados na sociedade, mas sem coragem para mostrarem quem realmente eram. Nessa fase comecei a usar drogas. Mas depois desse um ano me libertei, graças a uma pessoa, um anjo, que me encontrou caído no chão numa rave em Brighton, eu estava lá no fundo do poço e com amor e paciência ela me fez libertar dessas drogas e da prostituição.

Lá no Brasil somente meu irmão Felipe ficou sabendo da minha vida de puto e nunca concordou, claro. E ele estava certo. No meio disso tudo o que eu mais queria era a minha família; mesmo sendo a segunda família, a do papai, com todas as dificuldades; somente agora eu vi o que é mesmo dificuldade. No meio disso tudo me senti sujo e comecei a pensar no papai, que com tudo, era um homem honesto, lutou e venceu na vida, sem perder a dignidade. Por que eu não saí dessa vida? Porque dessa vida não se sai, se foge dela. E foi isso que eu fiz. Levou um ano pra eu fazer isso porque foi o momento e a oportunidade que apareceram. Eu fugi, mas infelizmente as marcas continuam, estão presentes e a única coisa que eu quero hoje é continuar vivendo…

Dando um tempo

Posted in Uncategorized on September 13, 2008 by braverick

Ae galera!!!

Quero agradecer todos os e-mails e comments que vocês mandaram (até aqueles comments que eu não aprovei). Inclusive as críticas e palavras maldosas, agradeço por elas todas. Agradeço aquelas pessoas que leram meus posts com muita paciência.

Estou com alguns problemas de saúde e vou ter que me ausentar por uns 15 dias a partir de segunda dia 15. Depois, bem depois eu volto.

Fiquem na PAZ de Deus…

Tudo passa nessa vida

Posted in 14 - O Preço de uma Decisão, 15 - Não Desespera Ricardo, 16 - Tudo passa nessa vida, 7 - Rosângela ... with tags , , , , , on September 10, 2008 by braverick

        Marcaram o dia pra eu tirar as fotos para 2 semanas depois. Porra, que saco, que povo enrolado, podia resolver tudo num dia só! Enfim, resolvi aproveitar o tempo e comecei a exercitar o corpo e ficar bem legal no dia das fotos. Mas eu precisava comer também. Resolvi andar mais a pé, mesmo de madrugada quando eu costumava pegar o último ônibus para casa, passava um frio desgraçado. O inverno não tinha acabado totalmente. Comia chocolate e bebia chá com bastante açúcar porque isso me ajudava a ter energia. A tia do Walkabout gostava muito de mim e me dava toda manhã um embrulhinho de bacon roll, que é um tipo de pão de hamburger grande, com manteiga e tiras de bacon e comprava pra mim uma garrafinha de suco de laranja. Respirei fundo agora e tomei coragem pra dizer que no pub que eu trabalhava como garçon sempre sobrava algum chips (batata frita) ou alguma outra coisa e eu aproveitava… (reticências no meu bloguinho significa um momento de pausa – as vezes dói lembrar, é por pena de mim, eu sei, mas dói). Tudo na vida passa. Toda fase ruim passa… Além desse esqueminha, eu fazia sessões de abdominais e flexão. As vezes pedia pra levantar um amigo ou amiga pra fazer um pouco de musculação.

        Chegou o dia do teste de foto e eu fui com a melhor roupa que eu tinha, ainda roupa do Brasil. Passei o frio dos infernos, mas era a melhor roupa que eu tinha. Cheguei no escritório, esperei umas 2 horas, quase dormi lá, até que me chamaram. Entrei na sala e estava lá de novo a Sharon e dessa vez um cara que era o fotógrafo e mais uma mulher magrinha. Eles falaram para eu ficar relaxado e tranquilo. Sentei numa cadeira e a Sharon com aquela simpatia e sorriso começou a perguntar coisas. Como eu entendia metade do que ela falava e pra responder era um sufoco, a gente acabava rindo muito. Era uma técnica dela pra me deixar bem tranquilo mesmo. Durante essa conversa o fotógrafo tirava fotos de mim o tempo todo. Sharon disse pra eu nem dar atenção pra ele. Mas ele deve ter tirado umas 800 fotos. Mandaram eu ficar de pé e tirando fotos; mandaram eu tirar a camisa e sempre o barulhinho da máquina. Depois mandaram tirar a calça. Olhei pra Sharon e ela deu a entender que era pra eu relaxar; ok. Tirei a calça e fiquei só de under. Tiraram fotos de tras e da frente. Eu sentado, eu deitado e me deram um roupão de banho lilás pra eu vestir. Passaram um pó na minha cara, deram uma molhada no meu cabelo e passaram gel. Depois passaram uma base no meu rosto. Eu olhei no espelho e me vi lá, parecendo um viado, mais moreno. Até que da cor eu gostei. Queriam que eu ficasse excitado. Eu disse, “no way”, de jeito nenhum! Na verdade eu já tava de saco cheio! Quando eu disse não eles pararam e ficaram olhando pra mim. Pensei: perdi o emprego que nem comecei. Eu já tava pensando antes, quando tava indo pras fotos, se eu não conseguir esse trabalho eu volto pro Brasil. Não aguento mais. Prefiro passar fome lá, e eu sei que jamais passaria, do que continuar vivendo nesse inferno. De repente me imaginei chegando no Brasil. Sabe, eu acho que nosso maior inimigo é a gente mesmo. E o orgulho é uma das armas que nem sempre deixa a gente feliz. Por mais contraditório que seja, por causa do orgulho e do medo de ser visto como derrotado pelas pessoas na minha cidade, principalmente pelo papai, resolvi me humilhar naquela sessão de fotos.

        Sentei na cadeira e comecei a pensar na Rosângela… dali pra frente tudo mudou na minha vida, mas o preço pago foi alto, até hoje. Será que valeu à pena? Não, não valeu.

        Sharon chegou pra mim e me parecia muito contente. Ela me disse um monte de coisa que eu não entendi nada. Tava puto da vida, com raiva de mim. Pedi pra ela escrever tudo o que ela tava falando. Ela disse que eu não dei muito sorriso nas fotos, mas foi bom, ela disse, eu fiz um estilo com isso. Realmente eu não tinha motivos pra sorrir; aliás, nunca tive muito. Ela falou quanto eu iria ganhar com o trabalho e eu fiquei assustado, pensei que era mentira dela. Ela me mostrou as vantagens de trabalhar com eles e perguntou se eu topava. Eu disse que sim. Depois disso eu teria que voltar no dia seguinte para assinar o contrato. Tudo bem, e foi o que eu fiz, no dia seguinte estava lá.

Depois eu continuo.

Não Desespera, Ricardo!

Posted in 15 - Não Desespera Ricardo, 15 - Não desespera, Kel, Raquel, Ricardo with tags , , , , , , on September 8, 2008 by braverick

Fim de Outubro de 2002. Está pra fazer 4 meses que estou em Londres. Tá tudo uma merda, aliás, literalmente. Não aguentava mais limpar banheiro. A limpeza não era pesada. Eles davam produtos e aparelhos que dava pra fazer uma limpeza bem feita e sem grande esforço. O problema era fazer isso quase todo dia, não aguentava mais. A grana não tava mais dando porque um dos garotos do flat tinha ido embora pro país dele, e agora a despesa aumentou pra cada um. Eu perdi uns quilos, comia muito pouco. Acabou minha vida de zueira na noite, não tinha dinheiro nem ânimo pra isso. Quando ia num banheiro ficava reparando na sujeira ou limpeza dele. Além disso, tinha completado 8 anos da morte da mamãe e como isso me sensibilizava! No Brasil estavam todos muito bem. Le estava trabalhando, noiva e muito bem. Papai cada vez mais rico e Felipe trabalhando com ele. E eu aqui nessa merda. Estava a ponto de desanimar mesmo. E eu não conseguia aprender essa maldita língua.

Acho que eu descobri o que é desânimo. Mesmo depois que a mamãe faleceu e com tudo o que aconteceu, eu ficava triste, depre, puto, mas desânimo igual aqui, nunca. O problema é que quando a gente desanima a gente perde a visão das coisas. A gente pensa que o nosso mundo se limita àquela fase e nunca pensamos na possibilidade de que um dia as coisas podem mudar. Hoje eu vejo que muita coisa mudou. Como as coisas e pessoas mudam de posição; é só aprender a esperar e tentar fazer as coisas acontecerem. A banda toca de um lado, mas ela volta e toca do outro. Uma amiga brasileira, mais irmã do que amiga, a Raquel, me dizia sempre, “não desespera, Ricardo, espera! A vida pode reservar grandes coisas pra ti”.

Acabou acontecendo uma coisa legal sim. Consegui um trabalho de garçon no Soho’s, la perto de onde eu trabalhava. Dava pra trabalhar à noite como garçon e de manhã como faxineiro. Realmente as coisas melhoraram, não muito, mas melhoraram. Até que a complicação veio de novo. No flat morávamos em 4 pessoas. Dois eram italianos e um chinês. Acontece que os italianos eram gays e viviam transando. Surgiu um lance de ciúmes entre eles. Um deles, o Antonio, era muito safadinho mesmo. Tava totalmente envolvido no meio gay a ponto de participar de orgulho gay, essas coisas. Teve uma vez que acordei com o Antonio mexendo em mim. Nada contra, mas não gosto de ser usado. Desse dia em diante, me trancava no quarto com o chinês na hora de dormir. Os dois brigaram e sairam do flat, resultado, ficou impossível pagar o aluguel. Mas enquanto não arranjávamos outro, íamos pagando e atrasando o aluguel daquele flat. Meu colega chinês pagava a parte dele direitinho e eu nem sempre conseguia a minha. Ele pagava e eu devia sempre pra ele. Janeiro de 2003 tinha chegado, tava completando 20 anos e muito mal. Por causa da grana, comia mal e acabei ficando doente. Chegou num fim de semana, numa sexta, simplesmente não tinha ânimo pra sair de casa. Não fui trabalhar, não ganhei dinheiro. Se antes eu tava desesperado, agora então!!! As palavras da Kel estavam perdendo o sentido pra mim.

Eu tinha muitos amigos, a maioria brasileiros. Não havia tanto como eles me ajudarem. Mas um dia uma amiga apareceu e disse que viu uma oportunidade pra mim. Queria umas fotos minhas. Eu dei umas que eu tirei naquelas máquinas que ficam no metrô, que tira foto instantânea e a gente saí com cara de bandido. Ela disse que queria uma foto inteira e do corpo todo. No fim ela me explicou que conheceu uma mulher de uma agência de modelos e que ela falou de mim, achando que eu tenho alguma chance. Ah, não tenho menor estilo pra ser modelo, sou grande demais, tipo troglodita, não levo o menor jeito pra desfilar essas coisas. No fim ela tirou as fotos e levou.

Estávamos no mês de março de 2003 e arrumei um quarto no Elephant & Castle, perto da estação Waterloo. Depois de quase 2 meses essa agência me chamou e tive que falar com uma tal de Sharon.

Fui lá, fica num lugar legal, perto da Baker Street. Sentamos, conversamos com dificuldade porque eu não entendia totalmente ela. Ela era uma senhora de uns 40 anos. Muito paciente e simpática. Disse que gostou do meu jeito, dos meus olhos e do meu porte. Mas ela tinha que falar com o sócio dela. Umas 3 semanas passaram e recebo o recado de que era para eu ir lá na agência. Opa, procurei ir arrumadinho, afinal a grana ia ser decisiva. Pensar que eu cheguei a arrumar as malas pra voltar pro Brasil e bem humilhado.

Fui lá, esperei mó tempo até que me chamaram numa sala. Entrei na sala, super envergonhado. Estavam a tal da Sharon e o sócio. Um homem de uns 60 anos, extremamente gordo e brancão, praticamente careca. A cabeça dele parecia um ovo. Fiquei com medo de não entender nada do que ele falava. Fiquei com medo dele não ter paciência comigo; fiquei com medo de perder o emprego que nem tinha conseguido ainda. Mas o cara não falava nada. Eu ia sentar ela mandou eu ficar de pé. Dar uma volta completa e eu entendi que estava sendo analisado para ver se passava. Mandou eu tirar a camisa. Tirei. Mandou eu tirar a calça e ficar de meia e under. Achei estranho, mas fiquei. Dar mais uma volta e andar. Foi o que eu fiz. Depois de tudo isso, as únicas palavras do velho gordo foram: “photo and test drive”. E agora?

Continuo depois.

O Preço de uma Decisão

Posted in 14 - O Preço de uma Decisão, Andreas with tags , , , , on September 3, 2008 by braverick

Não posso negar que quem pagou minha viagem toda para a Inglaterra foi o papai. Agradeço muito a ele por isso. Eu tinha uma boa reserva, além do meu salário, mas ele pagou todo o pacote que a escola me ofereceu. Minha grana evaporou no mês que eu fiquei lá. Comprei muito, gastei tudo e me diverti demais. Além disso viajei para vários lugares. No final do meu curso eu tava totalmente liso. Mas adorei tudo. Conheci gente nova, gente bonita e gostosa. Gente interessante também, como o Andreas e Mrs.Ball. Eu não me conformava com a idéia de sair de Londres. Apesar de muita gente reclamar daquela cidade, e apesar do trauma que eu tive em Sampa, Londres para mim era a cidade ideal para se viver. Eu caminhava por ela durante todo o dia quando tinha uma folga. Andava muito e não me cansava. Adorava ficar de tarde na Trafalgar Square, uma praça enorme no coração de Londres. Principalmente quando fazia sol e em feriados, sentava lá, tentava um bronze britânico e sempre fazia contatos com pessoas que estavam por lá também, fazendo nada. Em Sampa, ninguém pára numa praça pra fazer nada. De onde eu vim do Brasil as praças são pequenas e as cidades também. É bom, mas todo mundo conhece todo mundo e aí acontece fofoca e etc. Em Londres não. Dava para sentar nas praças, nos parques, tirar a camiseta, botar um óculos escuro e curtir a vida. Lembro numa dessas vezes que fui com o Andreas. Apareceu uma garota muito linda e me disse algo que eu não entendi. Eu gostei dela, queria conhecer ela melhor, apesar de não sacar nada do que ela dizia. O Andreas me disse que ela era “prostitute”. Eu pensei, “nããão”! Aquela garota não. Aí eu disse um “no, thank you”, reforçando o não com a cabeça. Ela simplesmente saiu. Fiquei assustado porque eu nunca iria dizer que ela era uma mulher que vendia o corpo. Depois dessa, várias outras apareceram, inclusive homens. Eu sempre disse não. Mas a aparência dessas pessoas eram excelentes. No Brasil passariam por riquinhos que estudam em colégio pago e só compram roupa de griffe. Mas aqui as aparências realmente enganam. Conforme o tempo foi passando eu conheci melhor os tipos e, para dizer a verdade, hoje morro de pena deles.

Enfim, decidi ficar em Londres. Não tenho problemas com visto por causa da minha cidadania alemã e, com a Comunidade Européia, eu e meus irmãos temos livre trânsito por qualquer país da Europa e o direito de participar de qualquer benefício no país que moramos. Acabou meu estágio e eu tinha que sair da casa da Mrs.Ball. Já tinha definido dividir um flat com uma galerinha da escola que ainda ficaria por mais tempo. Um pequeno apartamento na parte noroeste de Londres, na Euston Road. Como era eu e mais quatro meninos, dava para pagar 200.00 libras por mês. Caro para brasileiros, porque na época dava quase mil Reais. Além disso tinha que pagar por minha comida e condução. Estava dispostasso a arrumar um traba, mas tava sussegado porque o papai tava mantendo a base. Tava mesmo?

Liguei para casa no Brasil para dizer que ia ficar um pouco mais. Expliquei e convenci o velho inclusive a me dar uma grana extra. Ele acreditou que eu ficaria no máximo mais umas duas semanas. Quando ele descobriu que eu não tinha data para voltar, ele simplesmente disse que não mandaria mais um centavo. Disse para eu me virar ou voltar para o Brasil. Decidi então me virar. A partir daí, minha comunicação com o papai parou. Eu dou razão pra ele porque de uma certa forma eu era a pessoa de confiança dele na empresa, apesar de ainda não ter experiência nem formação. Um ano e pouco depois ele colocou o Felipe no meu lugar.

Bom, parti para batalhar um emprego. Conheci um monte de brasileiro que estava ilegal em Londres e trabalhavam muito e ganhavam muito bem. Eu que sou cidadão vou conseguir facilmente. Mas o meu obstáculo é a língua. Isso foi o grande impecílho para eu ganhar dinheiro nesse começo em Londres. Um mês morando fora não é suficiente para aprender Inglês. É gastar muito dinheiro para um retorno quase zero. Só depois de um ano na Inglaterra foi que eu comecei a entender um pouco melhor e me comunicar.

Eu não conseguia trabalho. Posso ter tomado a melhor decisão, mas ela tem um preço, como todas as atitudes que assumimos tem. O aluguel do mês de setembro já estava garantido e estávamos no final de agosto. Ano de 2002. Finalmente no meio de setembro, eu já estava super pressionado, resovi aceitar um trabalho de cleaner no Walkabout, um pub cujo dono é australiano e muito conhecido. Fica na Shaftesbury Avenue, em Londres. Consegui o trabalho graças a um garçon brasileiro amigo meu que soube da vaga e logo me indicou. Walkabout é um lugar tri bacaninha, muito legal que eu ia, quando ainda estudava. Antes eu ia para zuar como um estrangeiro riquinho, agora vou para fazer limpeza, inclusive de banheiro. Com direito a macacão azul e carrinho de limpeza. Meu horário de trabalho era o que ninguém queria: começava às 6:30 da manhã e ia até as 10. Tinha que limpar o lugar todo da noite anterior e ajudar a preparar para abrir. Abria todo dia ao meio dia, só de sábado que abria às 10 da manhã. Em geral ia até às 3 da manhã. Eu folgava às segundas-feiras. Salário era uma merda, dava para pagar o aluguel e comer. Eu sou grande, como demais e por isso a grana tava bem curta. Não tinha nem como me divertir.

E assim foi meu começo de vida em Londres. Começando agora a depender de mim mesmo e, como sempre, sozinho.

Continuo depois.