Vim para o hospital porque a bateria descarregou e eu precisei recarregar. Me deixaram num espaço, num corredor muito comprido, mas com várias divisórias. Dentro de cada divisória tinha uma cama com alguém doente, deitado. Na primeira noite que eu passei lá eu acordei no meio da noite e tava a fim de fazer xixi. Ainda bem, não puseram nenhum caninho em mim e também não consigo fazer na latinha que eles me deram. Levantei e fui com o soro procurar um banheiro. Por um momento pensei que eu tava passando pelo labirinto do fauno. Uma desgraça. Vi os doentes nas camas. Todos velhos, velhinhos… tinham idade para serem meus bisavós! Alguns pareciam estar mortos, outros pareciam que estavam parando de respirar. Outros sentados na cama, pareciam de cera. Estes me acompanhavam com os olhos, pareciam que estavam esperando eu passar.
Veio uma enfermeira atrás de mim e mandou eu voltar. Eu disse que precisava ir no banheiro, e ela disse pra eu fazer na latinha! Eu disse, “eu não quero”! Ela então me levou até o fim do corredor e eu entrei no banheiro. Quando eu saí ela tava lá, me esperando pra garantir que eu ia voltar pra cama e me comportar. Mas do nada eu olho pra minha esquerda e tinha uma janela bem grande. Pedi pra ela deixar eu ver. Ela permitiu e eu fui lá. Do lado de fora tava tudo escuro, a janela não abria por causa do frio. Mas a escuridão da noite era tanta que não dava pra ver absolutamente nada lá fora. A enfermeira disse pra mim que na opinião dela aquela era uma das paisagens mais lindas que ela já viu. Pensei, “como?”; “não vejo nada!”. Mas daí ela me mandou voltar pra cama.
No dia seguinte eu fui entender o que ela disse. Levantei e apesar de estar bem fraco, fui até a janela. Aliás tentei, mas somente me autorizaram ir com a cadeira de rodas – normas de segurança! Me levaram até a janela e era verdade. Era o lado do hospital que dá para o campo, mas era uma cena que mais parecia um quadro. Lindo! Havia um campo enorme, com muitas árvores, um rio passando lá no meio e lá no final uma grande montanha, com um castelo em cima. Lá no fundo era a cidade de Stirling e seu castela no alto da montanha. Isso é a Escócia, beleza por toda parte. Na noite seguinte eu tinha ficado muito mal. A enferemeira da noite passada, a mesma que falou que a vista era linda, apareceu na minha cama e eu contei pra ela que vi a janela durante o dia e que também achei linda. Ela deu um sorriso e disse que as vezes a escuridão que está na nossa frente é só aparência, por traz dela existe uma coisa muito linda que nos surpreende! Aquela mulher conseguiu, com poucas palavras, tirar o medo do meu escuro.