Brave Heart

Acordei naquela sexta de manhã com muito frio e chuva lá fora. Era um daqueles dias que a gente tem vontade de ficar debaixo das cobertas o dia inteiro. Passava frio e a Michelle estava com todos os cobertores, roubou de mim e eu só de cueca. Tudo bem, aquela noite tinha sido a noite da despedida e foi uma das melhores. No dia anterior eu peguei ela em casa e fomos para o sítio do papai, a pouco mais de meia hora da cidade, para comemorarmos naquela última noite juntos. Aliás, aquele sítio era o lugar que nos encontrávamos com toda liberdade e intimidade. Não era muito confortável, mas eu e Michelle passávamos bons momentos lá. Tempos atrás eu e Felipe costumávamos ir lá pra zuar, não com as meninas, mas com os bichos mesmo.

          Levantei naquela manhã fui preparar um café para nós e depois um banho naquele chuveiro horroroso! Naquele dia eu estava indo para a capital porque no dia seguinte, sábado, iria embarcar para Sampa e de lá para Londres. Saímos do sítio e fomos para a minha casa pegar minha mala. Cheguei em casa e Ana estava na sala com uma aparência de quem não tinha dormido direito. De fato, o Felipe teve febre a noite toda e febre alta. Fiquei até a hora do almoço com ele. Já estava melhor. Chegou a hora de ir embora, fui pegar minhas coisas e o Felipe sumiu. Fui atrás dele e ele estava no quarto. Ele veio na minha direção, me abraçou e começou a chorar. Sem palavras, mas não precisava, ele chorava de soluçar como se fosse a última vez que iria me ver. É verdade, só fui rever o Felipe pessoalmente em Julho de 2008.

          Depois que nos aproximamos mais, Felipe e eu fomos mais que amigos. Formamos uma verdadeira parceria. Antes não conseguíamos nos relacionar. O temperamento dele era e ainda é explosivo. Era superativo e ninguém podia com ele. O papai chegava a oferecer dinheiro para ele para ele ficar 5 minutos quieto. É um cara que enfrenta qualquer situação tranquilamente, sem colocar limites nas palavras. Se ele encontra uma pessoa importante ele a trata como se ela fosse um amigo dele; não existe diferença de idade, posição ou patente para ele. Por isso, depois dos 13 anos ele passou a ser alvo da violência do papai. Muitas vezes eu chegava em casa e encontrava o Fe chorando na cama e com as costas todas marcadas com vergões de cinta do papai. Essa situação foi longe demais até que o Felipe enfrentou o velho ameaçando de ir para a delegacia prestar queixa. O Fe tinha quase 20 anos quando isso aconteceu. Depois disso, ele nunca mais bateu no Felipe.

          Foi muito difícil deixar o Felipe. Um grande parceiro e meu verdadeiro irmão. Em dezembro daquele ano ele começou a namorar a Carolina. Esse namoro já dura 5 anos e meio.

          Embarquei para a capital. Dormi de sexta para sábado na casa da Boelita e da Le. Minha irmã já estava formada. Era uma mulher linda. Estava para ficar noiva. Ela conseguiu vencer as dificuldade de um lar desmanchado, acho que melhor do que eu. Mas sempre com muita luta e coragem. Ela disse para mim, “tu vais para a terra do Ricardo Coração de Leão. E é isso que tu és, o coração valente, Brave Heart!” Hoje eu penso que tanto a Le como o Fe de alguma forma pressentiam que eu não voltaria dali a um mês conforme o esquema de curso que fui fazer. Se pressentiam ou não, o fato é que eu não voltei mesmo conforme programado.

          Naquele sábado de manhã elas me levaram ao aeroporto e ainda de manhã embarquei para Londres com conexão em Sampa, num vôo que vinha de Buenos Aires. Quando o avião levantou vôo fiquei observando aquela terra se distanciando de mim. Estava deixando o meu chão, minha terra, meu país, minha família meus amigos, meu irmão Felipe, minha irmã Le e a boelita. Lá no alto, acima das nuvens eu pensei: até agora perdi muita gente na vida, mas agora, muita gente me perdeu. Não é estranha essa vida? A hora de partir é a hora de partir. Mesmo que você tenha que deixar a razão da sua vida. Mamãe partiu, ela tinha que ir, mas isso não significava que ela me amava menos. Nem tudo acontece como a gente quer; tem momentos que a gente tem que parar, pensar e aceitar, porque nem tudo o que a gente quer é bom pra gente. As vezes as coisas acontecem não da forma que queremos e ainda bem, porque lá no fim do túnel sempre tem uma saída e depois dizemos, “foi bom”. Continuo pensando que nada acontece por acaso. Existe uma harmonia em tudo de forma que a vida leva a gente e admito que nós, por nossa conta, não chegaríamos a lugar nenhum.

Bom, vai dormir com um trem desse. Vê se relaxa, Brave Heart!

Até depois.

One Response to “Brave Heart”

  1. que bom que vc ñ parou de escrever, vc tem liberdade pra se expressar e saiba que vc é brave heart c/ certeza a Le tava certissima.
    bjos..

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