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Alguma coisa aconteceu no meu coraçao

Posted in 9 - Alguma coisa aconteceu no meu coração with tags , , , , , on August 22, 2008 by braverick

Rosângela não apareceu nem pelo menos para dizer tchau. É tanta gente naquela universidade que ela consegue sumir, quando ela quer. Por que ela fez isso comigo? Por que as pessoas entram na nossa vida, invade nosso coração, pensamentos e sentimentos e depois saem? De repente, parece que desaparecem. Será que as pessoas não entendem que eu tenho sentimento? Aquela hora, dentro da Universidade, baixou uma das maiores deprês da minha vida. Tive pena de mim? Sim, tive, assumo. Me achei o pior dos seres humanos. Até moradores de rua eram mais felizes que eu. Não via mais graça em nada, sem motivação até para viver. Eu pensei: ou eu me mato agora, ou vou viver uma vida derrotada, andar pra trás e me conformar com isso. Eu tava sentado debaixo de uma árvore no Campus, perto do portão de saída da Rua Itambé. Chorei igual um piá que se perdeu da mãe no meio da multidão. De repente uma sombra, dois homens uniformizados, um branco e um negro. O negro disse pra mim, “você é aluno aqui?” Eu disse que não. Daí ele aumentou o tom da voz e pergntou, “o que tá fazendo aqui?” Eu disse que nada, só tava dando um tempo. Daí ele foi bem duro, “pode sair”, e o branco pegou o radinho na mão como quem fosse chamar reforço. Minha aparência devia estar horrível. Eu já estava barbado e provavelmente descabelado. Além disso, chorando, a minha cara devia estar toda avermelhada. Levantei e fui, onvindo a ladainha do guarda dizendo que o campus da Universidade não é um lugar público e que eu só deveria entrar lá acompanhado por um estudante ou funcionário ou se fosse trabalhar ou estudar lá. Eu disse, “tá bom” e fui embora.

Resolvi cuidar da minha vida, ir embora. Me informei onde ficava a Avenida Paulista e lá fui. Fui a pé mesmo; subi a Avenida Consolação e lá em cima entrei à esquerda na Paulista. Fiquei fascinado com o que vi. Prédios muito altos, alguns de formato diferente. A avenida movimentada, com carros e ônibus passando, gente andando pra lá e pra cá, nem olham pra sua cara. Parei no Masp, não entrei porque eu pensava que só gente bacana que entrava nesses lugares e eu tinha medo de pedirem meus documentos e descobrirem que eu era menor de idade. Fui até a outra ponta da avenida, depois voltei. Parei no MacDonalds pra comer. Depois continuei minha caminhada, agora no sentido da Consolação. Vi indicação para um parque chamado Trianon. Fui lá ver esse parque. Andei lá dentro muito legal até que dois garotos vieram me assaltar.

Eu disse pra eles, “não, eu não acredito que vocês querem me assaltar assim!” Cada um segurava uma faquinha, um canivete. Mas eles gritavam e falavam rápido, tentando me pôr medo e tentando serem rápidos: “vai cara, passa a carteira logo, passa, passa”. Eu disse, “claro que eu não vou passar, che!”… Interessante, eles é que pareciam estar com medo de mim e eu não deles. Eles vieram com a ponta da faca na minha direção, eu peguei no braço de cada um, fiz com que eles dessem uma volta, de forma que cada um ficou debaixo de cada braço meu. Apertei a mão deles até soltarem os conivetes. Saíram correndo os dois e eu aproveitei pra sair rapidinho, antes que apareça um mais esperto com revolver, aí não tem jeito.

Fui até o hotel e de lá para a rodoviária. Tentei achar o Rodrigo, não achei e ninguém sabia dele. Já era no fim da tarde e peguei o metrô até o terminal Tietê. Quando cheguei lá, por não ter comprado passagem de volta, informaram que ônibus para o sul somente na sexta de manhã. Que fazer? Eu não queria voltar para o hotel, pra aquela cidade. Resolvi sentar e passar a noite. Ainda bem que eu não era o único.

Eu tava deprimido. Perto de mim, uma família: marido, mulher e duas crianças, dois meninos, um tinha 6 o outro 4. Comecei a conversar com o marido. Nome dele era Pedro e o dela Cristina. Eles vieram do nordeste do Brasil fazia um ano. Ele estava a mais tempo. Conseguiu emprego na construção civil, mas assim que a família chegou passou uns três meses ficou desempregado. Durante todo aquele tempo ele passou procurando emprego. Arrumava uns bicos, mas logo saía. Moravam numa favela, não lembro o nome, em alguma parte de São Paulo. A situação foi piorando para eles, até que foram expulsos da casa, um barraco de um cômodo só e banheiro do lado de fora. O dono era um nordestino também, mas os expulsou de lá por causa do aluguel atrasado. Agora eles conseguiram dinheiro para 4 passagens e estão voltando. Que merda, que miséria de mundo. Passamos a noite conversando. Fui na padaria com o Pedro, fora do terminal. Comprei 15 pães, duas caixas de leite, quase um quilo de mortadela, salgadinho e muito chocolate para a gurizada – pausa para emoção – aquela gente tava a muito tempo sem comer. Eu nunca vou esquecer na minha vida do momento que eles viram aqueles pães e começaram a comer. Era um momento de alegria para eles, mas para mim era revoltante haver gente nessa situação. Um senhor, devia ter uns 60 anos, estava assentado mais à frente, estava olhando. Eu preparei um pão e um copo plástico de leite pra ele. Apareceu um casal e quis falar comigo. Eles eram diferentes, estavam bem vestidos. O nome dele era Lauro e diziam que estavam distribuindo sopa lá fora, se eu não queria trazer para a família. Eu disse, “claro que sim”. Era um grupo que trabalhava nas quintas e sextas de madrugada, servindo sopa para moradores de rua. Eles me viram atravessar a avenida com o Pedro carregando as coisas e perceberam o que eu estava fazendo. Ficaram me observando na rodoviária e vieram falar comigo. Pensei, “caralho, que legal!” trouxemos algumas garrafas de pets cheias de sopa e bem quentinha. Foi lindo ver que, depois da sopa, as duas crianças dormiram.

Contei para o Lauro e esposa o que eu estava fazendo lá. A esposa dele, que eu não consigo lembrar o nome, depois me abraçou e disse, “filho, você está certo voltando para sua casa. Você tem um coração maravilhoso e merece muito ser feliz.”

Amanheceu em Sampa! Tava na hora de despedir do Pedro e da Cristina. Abraçando a Cristina ela disse, “sua vida tem muita luz, não desiste, você ainda vai ser um grande homem. A sua vida vai brilhar como esses seus olhos”.

Subi no ônibus e fiz um balanço de tudo. Concluí que Deus sempre esteve comigo. Ele sempre falou comigo. Ouvindo pessoas como Rodrigo, Pedro, Cristina, Lauro e a esposa dele, e até o (a) gerente do hotel; que bom foi conhecer pessoas como eles… se eles fossem mais ouvidos e valorizados, quem sabe o mundo seria um pouco melhor.

Agora uma viagem longa pela frente, mas vou dormir. Depois nos falamos.