Minha vida começou… mas fora de casa. Começaram as aulas e eu já não ia mais arrumadinho como no ano passado, na época da mamãe. Meu cabelo é um problema, ele cresce rápido e enrola, fico parecendo louco – e isso até hoje. Eu chegava da escola e ia para a rua. Na verdade era uma nova vida pra mim. Eva ia sempre me pegar na rua para almoçar e quando eu sentava pra comer, os três, Ana, Felipe e Gustavo já tinham comido, então ficava só eu com a Eva. Por muito tempo as coisas foram assim. Eu sempre me senti um de fora, um anexo, um apêndice na família do meu pai, na minha própria casa.
Eu estava crescendo, notava transformações no meu corpo. Meu interesse pela Eva aumentou. Gostava de ver ela sentar comigo na mesa pra almoçar, normalmente ela estava suada por causa do trabalho pesado. Eu gostava de ver o pescoço e os ombros dela meio molhados de suor. Seus peitões, barbaridade! Depois o formato do corpo e as coxas! Eu acordava pensando nela, instintivamente. Foi aí que fui descobrindo que minha mão direita era útil para mais coisas que eu pensava.
O tempo foi passando e as coisas na escola foram se complicando. Na minha classe havia um grupo de meninos, aqueles mais terríveis e maus. Um dia, na saída da escola eu tava conversando com uma menina da outra sétima série quando três desse grupo passaram, o Mateus, o Cassiano e o Tiago. Chegaram perto da Rosângela e disseram, “ae, gostosa!”. Mais uma vez o sangue romano ferveu, e desde a morte da mamãe o sangue já tinha fervido várias vezes; deixei ela lá e chamei os três e disse, “repete!” O Mateus veio na minha cara e disse, “Rosângela é puta e gostosa sim”. Eu disse pra ele, “vai pedir desculpas agora!” Eles deram muita risada. Dali pra frente eu fiquei cego. Peguei o Mateus pelo pescoço e levei ele até a Rosângela. E disse bem bravo, “pede desculpa agora ou vou descer porrada!” Ele me empurrou e com isso vieram os outros dois pra cima de mim. Rosângela saiu correndo. Os dois tentaram me segurar para o Mateus me bater… tentaram me bater; tentaram me derrubar e tentaram me chutar… só ficou na tentativa. No dia seguinte, me transformei no cara mais pop da sétima série. Rosângela olhava para mim e sorria, seu rosto iluminava, longos cabelos loiros, seios já aparecendo, ela era um doce.
Depois de enfrentar os três bad boys da sétima e colocá-los para correr, outras brigas apareceram. Não que eu fosse briguento, mas eu gostava de lutar. Isso me motivava a querer ser cada vez mais forte e eu gostava de ser temido. Com tudo isso acontecendo, e eu tava muito feliz, o rendimento na escola foi caindo. Me tornei amigo dos bad boys, especialmente do Mateus. Saíamos da aula, íamos pra casa somente para trocar de roupa, almoçar e saíamos para rua. Foi muito legal porque a gente ia para o campo, subíamos em árvores, nadava em rios e sempre aquela sessão de luta. Mexíamos com as pessoas na rua, principalmente com meninos. Chegava de noite em casa. Muitas vezes, do jeito que eu chegava, jantava e ia dormir. Passava longe do chuveiro. Nunca ficava com a galera de casa que assistia TV direto. O papai viajava raríssimas vezes. A Le e a boelita sempre ligavam a noite e sempre tentavam me controlar à distância, mas não adiantava nada. Eu tava totalmente por mim mesmo. Como eu disse, papai viajava pouco agora, mas raramente dava o tempo que ele dava antes para mim, na época da mamãe, quando ele estava em casa. Agora a atenção dele era para a nova família.
Estávamos no meio do ano. Minha situação na escola era péssima. Uma das professoras e a coordenadora me chamaram. Disseram que consaram de chamar a atenção da Ana a meu respeito, sobre meu comportamento na escola, na classe e na situação com as notas. Mas agora elas queriam falar comigo. Disseram que entendem tudo o que eu estou passando, mas que eu não poderia me perder daquele jeito. Sempre fui bom aluno, etc, etc, etc. Eu não disse nada e fui pra casa. Mateus e o bando me chamaram para sair e fui. Fomos no mercadinho. Não sei o que eles queriam fazer lá, mas no fim compraram uma garrafa de coca e salgadinhos. Fomos comer lá no mato, perto da linha do trem. O Cassiano abre a jaqueta dele e coloca na mesa uma porrada de coisa, tipo, bala, doce, chiclet e coisas assim. Ele dava risada e a gente agarrou aqueles doces e dividimos igualmente. Ele havia pego no mercado, ou seja, roubou mesmo. Foi muita risada mas a decisão foi, vamos fazer isso mais vezes!! E foi o que fizemos. Comprávamos uma coisa pequena, mas enchíamos os bolsos. No caixa ninguém percebia e não havia câmeras como é comum hoje. Dias depois, num vacilo do Cassiano, estávamos saindo do mercado e o tio que era dono pegou no braço do Cassiano e disse, “tira sua jaqueta.” Eu, o Mateus e o Tiago disparamos a correr. Eu nunca corri tanto na minha vida. Mas depois fiquei mal de saber que deixamos o Cassiano naquela situ.
Naquele mesmo dia, cheguei em casa, já estava escuro, entrei em casa e para minha surpresa estavam na sala o papai, Ana, o dono do mercadinho e o padre Geraldo. Sim, até padre tinha. Meu pai que é um cara orgulhoso e respeitado na cidade (mesmo com tudo o que fez), tava puto da vida. Depois que eles saíram, ele me chamou no meu quarto e, nem abriu a boca. Tirou a cinta…
Depois de tudo, a única frase dele foi: “a partir de amanhã, você chega da escola, almoça e vai para a igreja. Vai passar a tarde toda ajundando o padre”. Cara, que golpe! Doeu mais que a fivela da cinta. Fiquei com a bunda toda marcada. Vergão da cinta nas pernas, costas e barriga. Meu único consolo era a possibilidade da Eva passar algum remédio.
No dia seguinte a Eva me levou lá na Igreja e voltou pra casa. Eu queria voltar com ela, queria o colo dela. Mas agora era o padre Geraldo. Sentou e conversou comigo. Muito legal, conversou muito bem. Eu ia me preparar para a primeira comunhão, ajudar com as coisas da igreja que estava com uma pequena reforma, e o padre ia me ajudar com as coisas da escola.
Não sabia avaliar aquilo. Minha única sensação, mais uma vez, foi de perda. Agora perdi a rua. E o que eu estou ganhando?
Nos falamos depois…