Morando na Estrela

Oi, meu nome é Ricardo.

Acordei de noite com um frio na barriga. Levantei da cama, saí do meu quarto e fui de meia até o quarto dos meus pais para ver as horas, como eu sempre fazia. Entrei e era 10:15 da noite. Papai parece estar dormindo, talvez esteja apenas deitado porque nem ronca! Mas ele está sozinho! Mamãe não está com ele; mas ela que passou os últimos meses naquela cama, não está lá agora. Foram muito raras as vezes que eu vi o papai deitado na cama, sozinho e naquela hora da noite. Vou para o quarto da Le, minha irmã. Ela também está na cama! Deitada. Vou até a cozinha e achei um bilhete, acho que da mamãe. Uma letra tremida, dando instruções sobre o que tinha na cozinha para fazer e comer e assina não a mamãe, mas a boelita – minha avó materna. Volto para o quarto, meio silencioso dentro de casa, boa parte da casa escura e lembro com tristeza o que acaba de acontecer.

Eu e Le crescemos numa família normal e típica do interior do sul do Brasil. A cidade é Santa Cruz com uma pequena população repartida entre descendentes de imigrantes alemães e italianos. Papai nasceu na Alemanha, mas veio ainda bebê para o Brasil antes da década de 60. Quando ele era garotão, devia ser lindo, brancão, olhos verdes e corpão. Conheceu a mamãe, filha de italianos. Linda, pele clara, cabelos castanhos. Sempre me contaram a história do namoro deles, as dificuldades e a resistência dos seus pais em permitir o namoro e casamento. Enfim casaram. Papai sempre metido em negócios e sempre viajando. Mamãe professora meio período pela prefeitura e, nas demais horas, dedicada à casa. O que mais me marcou na mamãe foi o carinho e amor com que ela tratava a todos, marido, filhos e amigos. Nunca a vi brava, gritando ou depressiva. Sempre sorrindo e sempre dedicando sua atenção a qualquer pessoa. Em 1978 nasceu a Le e seis anos depois eu. Éramos felizes. Nossa casa é grande, espaçosa. O quintal é enorme e é um lugar onde passei momentos importantes da minha vida.

Agora me lembro daquele dia 11 de outubro de 1995, 10:15 da noite, deitado na cama, lembro do dia em que a mamãe me chamou no quarto dela, não fazia muito tempo. Ela deitada na cama, disse que queria conversar comigo. Eu estava em contagem regressiva para o dia da criança, porque eu sabia que eu ia ganhar a bicicleta tão pedida. Mas ela veio com uns papos estranhos. Disse que ia viajar. Ia fazer uma longa viagem e ia ficar muito tempo fora, mas eu tinha que me comportar e ficar sempre junto do papai e da Le. Eles cuidariam de mim e a boelita, apesar de morar longe, na capital, viria mais vezes para dar uma força. Claro que eu perguntei para onde ela ia. A resposta demorou para sair de dentro dela. Mas ela disse, “quando você olhar para a lua vai ver sempre uma estrela pertinho dela. É lá que eu vou estar.” Enquanto ela se esforçava em disfarçar a difícil realidade à frente, eu fui simples e direto e disse, “você vai morrer, mãe?” Hoje eu imagino como ela deve ter ficado desconcertada com a minha conclusão tão pé no chão. Apesar de aparentemente considerar normal tudo o que ela falou para mim naquele dia, a coisa ficou na minha cabeça. Até que poucos dias antes daquele 11 de outubro, ela foi levada para o hospital e de lá não voltou mais. Faleceu, foi morar na estrela dela, dia 10 de outubro tarde da noite.

Agora que caio na real, entendo que o cansaço e a tristeza fizeram com que papai, Le e eu estivéssemos na cama cedo. E então eu penso, “e agora?” proximo dos 12 anos de idade, tenho minha vida, meus amigos, minha família, mas e a mamãe? O que vai ser daqui para frente? E eu me refero à presença daquela pessoa tão doce, meiga e ao mesmo tempo segura. Uma pessoa que com seus 36 anos resolveu fazer as malas e ir morar numa estrela. Fazer o que lá, não sei. Ela era muito mais útil aqui do que lá, tenho certeza. Le era minha irmã, mas pouco tem da mamãe… boelita é maravilhosa, mas está longe. O papai viaja sempre, como vai ser?

A leucemia atingiu em cheio a mamãe. Tínhamos recursos, mas não houve tempo sufciente para combater a agressividade e rapidez da doença.

Bem, essa foi a primeira parte dessa longa história. A lembrança disso tudo está muito presente na minha cabeça. Parece muito recente ainda. De lá para cá muita coisa aconteceu e eu espero compartilhar aqui. Para preservar pessoas que amo, alguns nomes e locais foram alterados. Continuo depois. Se você quiser, deixe o seu comentário. Beijos.

3 Responses to “Morando na Estrela”

  1. Obrigada pela oportunidade q vc está dandp aos q te amam de compartilhar desta lição de vida q é tua história! Depois q conheci vc passei a ter dois momentos de visão da minha vida: Um A.R e um D.R! Vc me vez avaliar e repensar valores e principalmente me trouxe de volta algo q imaginei ter perdido q foi a vontade de lutar pela minha vida! Já virei fã do seu blog e serei sua leitora fiel… rrsrsr
    Te amo meu amigo! Obrigada por ecistir em minha vida!

  2. Poxa Ricardinho, nem sei o q dizer, nem poderia fazer idéia de q vc viveu isso tudo tão novinho assim!. Vc sempre comenta q sente saudades da sua mãe, mas agora deu pra entender bem o motivo.
    Achei divertida a estória da Eva, explica isso direito depois hein..rsrsr
    Meu querido, sabe q estou aki né, de longe, mas aki..rss
    Se cuida viu?
    Obrigada por estar compartilhando esses momentos seus!
    Um beijão pra vc e fique com Deus!!

  3. oii gato, apesar de eu saber de detalhes de toda a história, ler vc contando é diferente, mais uma vez vc conseguiu fazer sua amiga chorona chorar na frente do pc….

    achei interessante essa sua decisão de contar sua história, e pode ter certeza q/ isso mostra mais uma vez a força q/ vc tem…

    muitos bjos……de sua sempre amiga…
    fika c/ Deus.. estou c/ saudades aparece tá bom..
    e lembre-se estou sempre c/ vc…

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