Julho de 2002, estava em Londres. Estava ficando velho, dali a 6 meses completaria 20 anos de vida. Arrumei um grande amigo, Andreas, mas entendo pouco ele. O inglês dele parecia ser muito bom, o problema era o meu inglês quase nulo. Mesmo assim a gente vivia junto. Mesmo depois de ter a minha galerinha, nossa amizade foi ficando um pouco de lado, mas durante o dia andávamos juntos pelas ruas de Londres e quando nosso horário de aula coincidia, íamos juntos. Ele era um tiozão. Explicava como funcionava o time table dos trens e ônibus, o horário que eles passavam nos pontos e estações. No primeiro dia houve uma palestra na escola para todos que iam começar. Depois houve uma avaliação para saber que estágio pegaríamos. Andreas pegou o avançado e eu, tadinho de mim, fiquei lá no basicão. Por isso nossos horarios ficaram diferentes. Naquele primeiro dia saímos da escola e ele me perguntou se eu tinha trazido um guarda-chuva. Disse que não. Então fomos comprar. Realmente, viver em Londres sem guarda-chuva é a mesma coisa que sair de cueca na rua.
Pegamos o metrô e descemos na Oxford Circus. Uma das estações do metrô. Se eu tinha agonia do metrô de Sampa, em Londres pior ainda! Os vagões são pequenos, parecem de brinquedo. E tudo apertadinho, não é à toa que chama Tubo. E era assim, Andreas foi um grande companheiro. Muitas vezes ele me esperava para jantar, outras vezes ele me esperava de madrugada na sala porque eu saía de noite e chegava de madrugada. Interessante essa vida, uma pessoa estranha, estrangeira, não tem nada a ver comigo, usa calça encima do umbigo (isso quando ela não escorrega e fica embaixo do barrigão), mostrando ser um amigo verdadeiro, parceirão mesmo. Enquanto que nem em casa, que existia uma mesma língua, não havia nada disso
Numa dessas madrugadas que ele me esperou e conversamos até de manhã. Interessante, até hoje não sei exatamente tudo o que ele disse, mas quando eu falava ele entendia quase tudo. E com isso fui também aprendendo um pouco do Inglês, com pouco de sotaque alemão por causa do Andreas.
A galerinha que eu conheci aqui. Gente de todo canto. México, Itália, Suíça e muita gente da China e do Japão. A média de idade era de 18 a 27 anos, mais ou menos. Tinha alguns brasileiros também. Gente de Sampa, Rio e Minas. Essa vida é engraçada! Eu sempre fui meio de ninguém. Sempre tive liberdade. Não tive pais pra controlar meu horário, os lugares onde eu ia e minhas amizades. Fazia o que eu queria. Muitas vezes lá no Brasil eu ficava sozinho porque chegava uma hora que cada um ia pra sua casa com sua família e eu tinha gaz e liberdade pra continuar na rua. Muitas vezes amanheci nas ruas, sozinho, as vezes dormindo na praça. Isso tudo lá no Brasil. A galerinha que eu conheci em Londres em 2002, todos riquinhos também, estavam fora de casa, longe dos pais e de qualquer compromisso. Daí eles ficam livres, fazem o que querem. Ou seja, viviam numa verdadeira zueira. Muita bebida, muito sexo rolando, drogas, bacanal, gente caindo bebado e acabando no hospital porque no seu país nunca tinham bebido tanto. Praticamente crianças fazendo todo tipo de orgia e fantasia sexual possível e além disso as drogas. Sabe, a hipocrisia nesse mundo começa aí. Eles aprendem que no meio deles eles tem que dar uma de certinhos, mas quando estão sozinhos viram verdadeiros monstrinhos. Os italianos eram os mais alegres e os mais zuados também. Gente muito bonita. O mexicano era o mais alegre e o centro das atenções da galerada. A escola tinha flats (pequenos apartamentos) que teoricamente era para ser divididos entre masculinos e femininos, porém, acabava sendo tudo misto. E eu pensava que iria ficar um mês de jejum, quase me acabei. A escola sabia disso, mas fazia de conta que não sabia. Sabia o que rolava lá dentro. Além disso, as aulas eram muito gostosas e não tinha provas, avaliações ou testes. Segundo eles, o professor avaliava o aluno durante as aulas, nas suas participações e no final do curso a escola expedia um boletim que normalmente agradava todo mundo. Realmente o dinheiro manda nesse mundo.
Bons mesmo eram os fins de semana. No primeiro fui com a escola conhecer a Escócia. Apesar do frio, até hoje não me lembro de ter conhecido um lugar mais bonito. Brasileiro gosta de dizer que o seu país é o mais bonito. Sim, acho que nosso Brasilzão é lindo, mas achar que é o mais, não é possível. No segundo fim de semana voei com Andreas para a casa dele na Suiça. Ficamos sábado e domingo lá em Zurich. Ele tem uma linda família, esposa e dois filhos quase adolescentes. E eu que pensava que só brasileiro era atencioso e amoroso com os outros e achava que europeu era tudo igual o papai. Engano meu. Vi uma família que se ama e são cúmplices uns dos outros. Apesar de tudo, Andreas era um pai e marido atencioso e carinhoso. Minha vontade era viver naquela família. Minha vontade era continuar com o Andreas.
No terceiro e último fim de semana fomos eu e mais dois italianos para Paris e fomos de trem. Outra viagem muito linda. Muita emoção quando o trem passa debaixo do mar, saindo do Reino Unido e alcançando a França. Descobri que no geral os franceses são mal educados. Odeiam ingleses e não falam inglês de jeito nenhum. Conhecemos a torre Eiffell, a catedral de Notre Dame, o rio Senna, o Arco do Triunfo e o Musel de Louvre. A noite em Paris é linda. As mulheres, mais ainda.
Chegou a hora de ir embora. Acabou meu tempo. Eu não queria ir. Andreas foi primeiro, no sábado de manhã ele pegaria o vôo para Zurich e eu de noite para o Brasil. Outros dois alunos iam chegar na casa da Mrs.Ball. Eu tinha que sair. Eu não queria. No dia anterior, eu e Andreas fomos jantar num restaurante mexicano que fica em Elephant & Castle. No sábado de manhã nos despedimos. Foi muito triste para mim perdê-lo. Nunca mais vi o Andreas. Nunca mais respondeu um e-mail. Eu mal entendia aquele cara, mas o amava!
Parte da galerinha ficaria mais tempo em Londres. Justamente os mais chegados. Recebi naquela semana meu certificado do curso. Tinha subido do Basic para o pre-intermediate. Realmente alguma coisa já era familiar no idioma, mas eu tava muito no osso ainda. Eu queria ficar… e fiquei.
Depois nos falamos.