Archive for August, 2008

London London

Posted in 13 - London London, Andreas with tags , , , on August 30, 2008 by braverick

Julho de 2002, estava em Londres. Estava ficando velho, dali a 6 meses completaria 20 anos de vida. Arrumei um grande amigo, Andreas, mas entendo pouco ele. O inglês dele parecia ser muito bom, o problema era o meu inglês quase nulo. Mesmo assim a gente vivia junto. Mesmo depois de ter a minha galerinha, nossa amizade foi ficando um pouco de lado, mas durante o dia andávamos juntos pelas ruas de Londres e quando nosso horário de aula coincidia, íamos juntos. Ele era um tiozão. Explicava como funcionava o time table dos trens e ônibus, o horário que eles passavam nos pontos e estações. No primeiro dia houve uma palestra na escola para todos que iam começar. Depois houve uma avaliação para saber que estágio pegaríamos. Andreas pegou o avançado e eu, tadinho de mim, fiquei lá no basicão. Por isso nossos horarios ficaram diferentes. Naquele primeiro dia saímos da escola e ele me perguntou se eu tinha trazido um guarda-chuva. Disse que não. Então fomos comprar. Realmente, viver em Londres sem guarda-chuva é a mesma coisa que sair de cueca na rua.

Pegamos o metrô e descemos na Oxford Circus. Uma das estações do metrô. Se eu tinha agonia do metrô de Sampa, em Londres pior ainda! Os vagões são pequenos, parecem de brinquedo. E tudo apertadinho, não é à toa que chama Tubo. E era assim, Andreas foi um grande companheiro. Muitas vezes ele me esperava para jantar, outras vezes ele me esperava de madrugada na sala porque eu saía de noite e chegava de madrugada. Interessante essa vida, uma pessoa estranha, estrangeira, não tem nada a ver comigo, usa calça encima do umbigo (isso quando ela não escorrega e fica embaixo do barrigão), mostrando ser um amigo verdadeiro, parceirão mesmo. Enquanto que nem em casa, que existia uma mesma língua, não havia nada disso

Numa dessas madrugadas que ele me esperou e conversamos até de manhã. Interessante, até hoje não sei exatamente tudo o que ele disse, mas quando eu falava ele entendia quase tudo. E com isso fui também aprendendo um pouco do Inglês, com pouco de sotaque alemão por causa do Andreas.

A galerinha que eu conheci aqui. Gente de todo canto. México, Itália, Suíça e muita gente da China e do Japão. A média de idade era de 18 a 27 anos, mais ou menos. Tinha alguns brasileiros também. Gente de Sampa, Rio e Minas. Essa vida é engraçada! Eu sempre fui meio de ninguém. Sempre tive liberdade. Não tive pais pra controlar meu horário, os lugares onde eu ia e minhas amizades. Fazia o que eu queria. Muitas vezes lá no Brasil eu ficava sozinho porque chegava uma hora que cada um ia pra sua casa com sua família e eu tinha gaz e liberdade pra continuar na rua. Muitas vezes amanheci nas ruas, sozinho, as vezes dormindo na praça. Isso tudo lá no Brasil. A galerinha que eu conheci em Londres em 2002, todos riquinhos também, estavam fora de casa, longe dos pais e de qualquer compromisso. Daí eles ficam livres, fazem o que querem. Ou seja, viviam numa verdadeira zueira. Muita bebida, muito sexo rolando, drogas, bacanal, gente caindo bebado e acabando no hospital porque no seu país nunca tinham bebido tanto. Praticamente crianças fazendo todo tipo de orgia e fantasia sexual possível e além disso as drogas. Sabe, a hipocrisia nesse mundo começa aí. Eles aprendem que no meio deles eles tem que dar uma de certinhos, mas quando estão sozinhos viram verdadeiros monstrinhos. Os italianos eram os mais alegres e os mais zuados também. Gente muito bonita. O mexicano era o mais alegre e o centro das atenções da galerada. A escola tinha flats (pequenos apartamentos) que teoricamente era para ser divididos entre masculinos e femininos, porém, acabava sendo tudo misto. E eu pensava que iria ficar um mês de jejum, quase me acabei. A escola sabia disso, mas fazia de conta que não sabia. Sabia o que rolava lá dentro. Além disso, as aulas eram muito gostosas e não tinha provas, avaliações ou testes. Segundo eles, o professor avaliava o aluno durante as aulas, nas suas participações e no final do curso a escola expedia um boletim que normalmente agradava todo mundo. Realmente o dinheiro manda nesse mundo.

Bons mesmo eram os fins de semana. No primeiro fui com a escola conhecer a Escócia. Apesar do frio, até hoje não me lembro de ter conhecido um lugar mais bonito. Brasileiro gosta de dizer que o seu país é o mais bonito. Sim, acho que nosso Brasilzão é lindo, mas achar que é o mais, não é possível. No segundo fim de semana voei com Andreas para a casa dele na Suiça. Ficamos sábado e domingo lá em Zurich. Ele tem uma linda família, esposa e dois filhos quase adolescentes. E eu que pensava que só brasileiro era atencioso e amoroso com os outros e achava que europeu era tudo igual o papai. Engano meu. Vi uma família que se ama e são cúmplices uns dos outros. Apesar de tudo, Andreas era um pai e marido atencioso e carinhoso. Minha vontade era viver naquela família. Minha vontade era continuar com o Andreas.

No terceiro e último fim de semana fomos eu e mais dois italianos para Paris e fomos de trem. Outra viagem muito linda. Muita emoção quando o trem passa debaixo do mar, saindo do Reino Unido e alcançando a França. Descobri que no geral os franceses são mal educados. Odeiam ingleses e não falam inglês de jeito nenhum. Conhecemos a torre Eiffell, a catedral de Notre Dame, o rio Senna, o Arco do Triunfo e o Musel de Louvre. A noite em Paris é linda. As mulheres, mais ainda.

Chegou a hora de ir embora. Acabou meu tempo. Eu não queria ir. Andreas foi primeiro, no sábado de manhã ele pegaria o vôo para Zurich e eu de noite para o Brasil. Outros dois alunos iam chegar na casa da Mrs.Ball. Eu tinha que sair. Eu não queria. No dia anterior, eu e Andreas fomos jantar num restaurante mexicano que fica em Elephant & Castle. No sábado de manhã nos despedimos. Foi muito triste para mim perdê-lo. Nunca mais vi o Andreas. Nunca mais respondeu um e-mail. Eu mal entendia aquele cara, mas o amava!

Parte da galerinha ficaria mais tempo em Londres. Justamente os mais chegados. Recebi naquela semana meu certificado do curso. Tinha subido do Basic para o pre-intermediate. Realmente alguma coisa já era familiar no idioma, mas eu tava muito no osso ainda. Eu queria ficar… e fiquei.

Depois nos falamos.

Chegando Junto na Rainha

Posted in 12 - Chegando Junto na Rainha with tags , , , , on August 28, 2008 by braverick

Cheguei em Sampa só pra fazer a conexão para a Inglaterra. Fiquei só umas duas horas e meia no aeroporto de Guarulhos e não queria ficar mais porque São Paulo para mim trazia uma mistura de alegria e tristeza. Meu objetivo era outro; não queria pensar que estava a poucos quilômetros da Rosângela. Se pensasse muito faria besteira.

Embarquei num avião enorme da British Airways com destino a Londres. Tudo muito chic lá dentro; comissárias, quase todas, muito gostosas! Minha cadeira era lá no fundo, no rabo do avião. Sabe que sou chegado num rabo? Era a penútima cadeira. Mas quando fui sentar percebi que eu ia sofrer um pouquinho na viagem. Primeiro porque o espaço para as minhas pernas era ridículo de pequeno e além disso, eu não podia me espalhar muito por causa da pessoa do lado. Outra coisa, toda vez que eu precisasse ir ao banheiro tinha que acordar a senhora que estava do meu lado ou pular ela, porque o vôo era durante a noite e 12 horas de viagem. Então imagina. Ser grande nessa vida tem suas desvantagens.

O bom é que a senhora do meu lado era muito pequenininha e sobrava espaço pra ela. Conversamos muito. Ela tinha uma filha casada que morava na Holanda e estava indo lá passar uns meses e curtir a filha, genro e netos. Em pleno vôo, depois do jantar, ela pede duas garrafas de vinho, me parecia de 600 ml cada garrafa. Para não deixar ela sozinha nessa, e como bom gaúcho, pedi duas também. Ela ficou muito alegre e eu também. Mas de repente eu tombei, dormi a viagem inteira. Só acordei no meio para mijar e quando acordei eu estava com o meu cabeção totalmente no ombro dela, tadinha. E ela dormindo. Minha dúvida era se ela estava dormindo ou eu tinha matado ela, hahaha.

Cheguei de manhã em Londres. A fila da imigração para cidadãos de países fora da Europa era enorme. Uma das coisas boas que o papai fez para os filhos foi dar a cidadania alemã. Com o passaporte vermelho passei sem muitos problemas e agora estava na terra da Rainha. A orientação era para que no aeroporto eu ligasse para um telefone de um funcionário da escola que eu ia estudar para que ele me buscasse ou mandasse um taxi. Era domingo de manhã. E quem disse que eu sabia inglês? Eu pensava que sabia. Naquele momento que eu peguei o telefone eu me lembrei que eu mal sabia a conjugação do verbo to be. Mas enfim, conseguimos chegar num acordo e ele me mandou um taxi.

Eu não sei se o motorista era um paquistanês, afegão ou iraquiano. Ele disse de onde era mas eu não entendi nada. Entramos no carro e a direção no lado oposto, muito estranho. O motorista foi ouvindo jogo de futebol e essa galera não pode ver brasileiro que acha que a gente tem que entender tudo do esporte. Eu sou colorado não por gosto, mas é porque o papai é gremista roxo e eu só por rebeldia dizia que era Internacional. O motorista do taxi entendia mais de futebol brasileiro do que eu. No jogo que passava no rádio não consegui entender quem estava jogando; sei que quando saímos do aeroporto estava 0×0, e quando cheguamos na casa estava 2×0. Só que eu não ouvi nenhum “goooooool”. Já vi que eu ia sofrer pra caralho.

A casa que eu fiquei se localiza no sul da cidade de Londres, enquanto que o aeroporto Heathrow fica na parte oposta. Atravassamos a cidade e foi maravilhoso passar pelo Big Ben e Casa do Parlamento e tantos outros lugares maravilhosos. Chegamos na casa que ficava na Woolacombe Road.

Toquei a campainha da casa e uma senhora baixinha, gordinha com cabelos brancos atendeu, era a Mrs.Ball, Margareth Ball. Uma cara branquinha, simpática, mas não muito sorridente. Ela morava numa casa, um sobrado de 4 quartos com o filho dela, Matthew que deveria ter uns 35 anos. Ele era divorciado e por problemas de saúde ficou inválido e passou a viver de benefício do governo. Passava o dia inteiro em casa jogando video game. Mrs.Ball trabalhava como auxiliar no banco de sangue de um hospital e alugava dois de seus quartos para estudantes como eu, de outros países. Era um convênio que ela tinha com a escola. Ela tinha um problema de artrose reumática que afetava a bacia, pro isso ela caminhava com muita dificuldade. Ela tinha dois gatos, o Cheap e o Fangs.

Mrs.Ball mostrou meu quarto lá encima. Quarto pequeno, mas bom para mim. Mostrou onde ficava banheiro, sala e cozinha, lugares que eu poderia ter acesso. Ela servia o café da manhã e o jantar. Só nos fins de semana que ela dava o almoço também. O quarto debaixo era para um estudante que também estava para chegar.

Subi, tomei um banho muito da hora e quando estava no quarto Mrs.Ball bateu na porta e quando eu abri ela pegou na minha mão e me levou até a cozinha. Na mesa tinha um almoço que parecia delicioso. Não vi arroz nem feijão, mas consegui engolir tudo.

Chegou o outro aluno e pra minha surpresa era um homem que acho que tinha quase a idade do papai. Mais baixo que eu, barrigudinho, óculos e pouquinho cabelo. O nome dele era Andreas, e veio de Zurich, na Suíça. O idioma nativo dele era alemão, mas precisava aprimorar o Inglês porque a empresa que trabalhava estava se expandindo pela Comunidade Européia e o cargo dele exigia um Inglês mais bombado. Ele sentou comigo na mesa e, apesar da idade, me parecia uma pessoa super acessível e legal. O problema era entender ele, mas beleza, fui levando. Andreas se tornou o meu melhor amigo nessa fase.

Naquele mesmo dia, à tarde, fomos nós dois reconhecer a área e fomos até a estação de trem porque as aulas começavam no dia seguinte e precisávamos saber onde ficava para não atrasar. Tadinho, ele barrigudinho não conseguia me acompanhar, ficava cansado e pedia pra ir mais devagar. Ri muito com ele.

Esse foi meu primeiro dia na terra da Rainha. Gostei dela. Acho que vou ficar.

Depois nos falamos…

 

 

 

Brave Heart

Posted in 11 - Brave Heart, Felipe, Michelle with tags , , , , , , on August 26, 2008 by braverick

Acordei naquela sexta de manhã com muito frio e chuva lá fora. Era um daqueles dias que a gente tem vontade de ficar debaixo das cobertas o dia inteiro. Passava frio e a Michelle estava com todos os cobertores, roubou de mim e eu só de cueca. Tudo bem, aquela noite tinha sido a noite da despedida e foi uma das melhores. No dia anterior eu peguei ela em casa e fomos para o sítio do papai, a pouco mais de meia hora da cidade, para comemorarmos naquela última noite juntos. Aliás, aquele sítio era o lugar que nos encontrávamos com toda liberdade e intimidade. Não era muito confortável, mas eu e Michelle passávamos bons momentos lá. Tempos atrás eu e Felipe costumávamos ir lá pra zuar, não com as meninas, mas com os bichos mesmo.

          Levantei naquela manhã fui preparar um café para nós e depois um banho naquele chuveiro horroroso! Naquele dia eu estava indo para a capital porque no dia seguinte, sábado, iria embarcar para Sampa e de lá para Londres. Saímos do sítio e fomos para a minha casa pegar minha mala. Cheguei em casa e Ana estava na sala com uma aparência de quem não tinha dormido direito. De fato, o Felipe teve febre a noite toda e febre alta. Fiquei até a hora do almoço com ele. Já estava melhor. Chegou a hora de ir embora, fui pegar minhas coisas e o Felipe sumiu. Fui atrás dele e ele estava no quarto. Ele veio na minha direção, me abraçou e começou a chorar. Sem palavras, mas não precisava, ele chorava de soluçar como se fosse a última vez que iria me ver. É verdade, só fui rever o Felipe pessoalmente em Julho de 2008.

          Depois que nos aproximamos mais, Felipe e eu fomos mais que amigos. Formamos uma verdadeira parceria. Antes não conseguíamos nos relacionar. O temperamento dele era e ainda é explosivo. Era superativo e ninguém podia com ele. O papai chegava a oferecer dinheiro para ele para ele ficar 5 minutos quieto. É um cara que enfrenta qualquer situação tranquilamente, sem colocar limites nas palavras. Se ele encontra uma pessoa importante ele a trata como se ela fosse um amigo dele; não existe diferença de idade, posição ou patente para ele. Por isso, depois dos 13 anos ele passou a ser alvo da violência do papai. Muitas vezes eu chegava em casa e encontrava o Fe chorando na cama e com as costas todas marcadas com vergões de cinta do papai. Essa situação foi longe demais até que o Felipe enfrentou o velho ameaçando de ir para a delegacia prestar queixa. O Fe tinha quase 20 anos quando isso aconteceu. Depois disso, ele nunca mais bateu no Felipe.

          Foi muito difícil deixar o Felipe. Um grande parceiro e meu verdadeiro irmão. Em dezembro daquele ano ele começou a namorar a Carolina. Esse namoro já dura 5 anos e meio.

          Embarquei para a capital. Dormi de sexta para sábado na casa da Boelita e da Le. Minha irmã já estava formada. Era uma mulher linda. Estava para ficar noiva. Ela conseguiu vencer as dificuldade de um lar desmanchado, acho que melhor do que eu. Mas sempre com muita luta e coragem. Ela disse para mim, “tu vais para a terra do Ricardo Coração de Leão. E é isso que tu és, o coração valente, Brave Heart!” Hoje eu penso que tanto a Le como o Fe de alguma forma pressentiam que eu não voltaria dali a um mês conforme o esquema de curso que fui fazer. Se pressentiam ou não, o fato é que eu não voltei mesmo conforme programado.

          Naquele sábado de manhã elas me levaram ao aeroporto e ainda de manhã embarquei para Londres com conexão em Sampa, num vôo que vinha de Buenos Aires. Quando o avião levantou vôo fiquei observando aquela terra se distanciando de mim. Estava deixando o meu chão, minha terra, meu país, minha família meus amigos, meu irmão Felipe, minha irmã Le e a boelita. Lá no alto, acima das nuvens eu pensei: até agora perdi muita gente na vida, mas agora, muita gente me perdeu. Não é estranha essa vida? A hora de partir é a hora de partir. Mesmo que você tenha que deixar a razão da sua vida. Mamãe partiu, ela tinha que ir, mas isso não significava que ela me amava menos. Nem tudo acontece como a gente quer; tem momentos que a gente tem que parar, pensar e aceitar, porque nem tudo o que a gente quer é bom pra gente. As vezes as coisas acontecem não da forma que queremos e ainda bem, porque lá no fim do túnel sempre tem uma saída e depois dizemos, “foi bom”. Continuo pensando que nada acontece por acaso. Existe uma harmonia em tudo de forma que a vida leva a gente e admito que nós, por nossa conta, não chegaríamos a lugar nenhum.

Bom, vai dormir com um trem desse. Vê se relaxa, Brave Heart!

Até depois.

A Viúva do Ricardo

Posted in 10 - A Viúva do Ricardo, Michelle with tags , , on August 25, 2008 by braverick

Rosângela é página virada, infelizmente, como tantas outras perdas. Estou lembrando agora de 2001. Estava já com 18 anos. Papai, Ana e Gustavo estavam de volta. Minha vida estava muito ocupada: trabalho com o papai, faculdade à noite, academia, fazia um curso de DJ e namorava a Michelle. Sim a Michelle.

Michelle era a garota mais linda da faculdade, claro, depois que a Rosângela foi embora. Era da família mais rica da cidade. Quando o papai chegou do interior de Sampa, onde tinha passado dois anos, ele veio com muitas perspectivas boas nos negócios. Muitos contatos e associações. Passado um certo tempo ele rompeu com o sócio e abriu uma representação maior e melhor. Agora ele estava sozinho e os negócios prosperaram muito. Realmente esse tempo fora foi um sacrifício e um investimento que valeram a pena. Penso que valeu a pena em muitos sentidos. Eu me aproximei do Felipe, hoje ele é o meu melhor amigo e eu dele; papai prosperou; conheci Ana melhor, tanto que nossa relação se tornou mais próxima; e eu comecei a trabalhar junto com o papai e participei da implantação da nova empresa e da nova estrutura administrativa mais moderna que ele estava adotando. Aos poucos fui me tornando quase que um braço direito dele. A vida estava entrando num rítimo legal, sem muito tempo para desgastes e neuras.

Michelle e eu passávamos a maior parte do fim de semana juntos. Nos encontrávamos também no meio da semana, toda semana. Nossa relação era muito boa, Michelle sempre foi muito alegre, espontânea e extrovertida. Lembro quando fomos assistir o Titanic, ela se tornou a atração do cinema, deveria ter levado um Oscar também, por causa da choradeira dela; choradeira não, gritaria mesmo. Mas eu adorava ela. Michelle curtia o que eu curtia; saíamos juntos com os amigos, dançávamos, passávamos as noites nas raves do interior, que mais parecia festa junina do que as raves que depois fui conhecer na Europa. Michele estava sempre do meu lado e nunca foi chata, pelo contrário, poderia ser a companheira para uma vida inteira.

No ano seguinte, 2002, as coisas estavam indo muito bem. Minha relação com o papai era muito boa. De uma certa forma eu era o apoio dele na empresa e muitas vezes encorajei ele a tomar certas decisões meio radicais. Ele sempre durão, nunca adimitiu com palavras o que eu representava para ele, mas eu notava que estava havendo uma certa “dependência” emocional da parte dele.

Fomos bem até junho daquele ano. Pouco antes, no mês de março, procurei informações sobre cursos de inglês no exterior. Depois de uma pesquisa bem detalhada, encontrei uma escola que enviava jovens para o exterior com um curso programado de 1 mês até um ano. Com direito de ficar morando numa residência de pessoas nativas. Dependendo do plano e pacote daria até para trabalhar. Fiquei interessado no plano de 1 mês e usar minhas férias de julho para essa viagem. Fui falar com o papai. No início ele resistiu, mas no fim tudo bem, aprovou. YES!! Para mim, além da aventura, o curso ia me ajudar bastante, sem contar a bagagem cultural. Michelle quase foi comigo; para ela, dinheiro não era o problema. O que eu não imaginava era que saindo do Brasil naquele mês de Julho, eu jamais voltaria um mês depois. Consegui o pacote do curso de um mês em Londres, onde eu teria aulas durante a semana e nos fins de semana estava livre para viajar por lá ou pela Europa. Nunca mais voltei para o Brasil, só depois de 6 anos, para passear de férias, e isso foi no mês passado, em Julho de 2008.

Michelle ficou sendo conhecida como “a viúva do Ricardo”, porque não acabamos o namoro. Como diz ela, eu simplesmente sumi.

Quero aproveitar o espaço e escrever alguma coisa sobre o meu bloguinho.

Em primeiro lugar agradeço tantos comentários e e-mails que eu tenho recebido. Tenho recebido o apoio de muitos amigos e amigas. A visita ao blog tem sido muito alta. Tenho recebido muitos e muitos e-mails e comentários que eu não posso publicar por causa do conteúdo deles, por favor, me perdoem. Venho de uma cidade muito pequena do interior do Rio Grande do Sul. Hoje o meu bloguinho está dando o que falar. Muita fofoca, muito comentário maldoso, mas muita gente entendendo melhor muita coisa. Quero dizer algumas coisas aqui:

>> O papai tem lido direto o meu bloguinho e já conversamos sobre isso por telefone. Eu disse tanto para ele como para a Ana que eu sou um ser humano e tenho sentimentos. Não está em mim a idéia de denegrir a imagem dele (e sei que eles nem estão aí para isso), mas de botar pra fora coisas que estão aqui dentro e que tem feito muito mal a mim. Sei que também estou ajudando muitas pessoas.

>> Eu não estou ficando louco, que eu saiba. Não estou me despedindo da vida, e também não estou com câncer, nem com câncer no cérebro. Como estão falando lá também.

>> Se este bloguinho está fazendo tão mal a ti, por favor, me perdoe e aceita um conselho, páre de ler. Não quero ser motivo de escândalo para ninguém.

>> Não sei se posso ou devo continuar escrevendo. Não sabia que minhas palavras iam surtir tanto efeito assim. Existem algumas pessoas agradecendo porque eu poupei seus nomes e outras ameaçando caso eu coloque o nome delas. É bom que se saiba que eu coloco o nome verdadeiro das pessoas que me autorizaram. Nem o nome da cidade é verdadeiro.

Não sei se depois nos falamos…

Alguma coisa aconteceu no meu coraçao

Posted in 9 - Alguma coisa aconteceu no meu coração with tags , , , , , on August 22, 2008 by braverick

Rosângela não apareceu nem pelo menos para dizer tchau. É tanta gente naquela universidade que ela consegue sumir, quando ela quer. Por que ela fez isso comigo? Por que as pessoas entram na nossa vida, invade nosso coração, pensamentos e sentimentos e depois saem? De repente, parece que desaparecem. Será que as pessoas não entendem que eu tenho sentimento? Aquela hora, dentro da Universidade, baixou uma das maiores deprês da minha vida. Tive pena de mim? Sim, tive, assumo. Me achei o pior dos seres humanos. Até moradores de rua eram mais felizes que eu. Não via mais graça em nada, sem motivação até para viver. Eu pensei: ou eu me mato agora, ou vou viver uma vida derrotada, andar pra trás e me conformar com isso. Eu tava sentado debaixo de uma árvore no Campus, perto do portão de saída da Rua Itambé. Chorei igual um piá que se perdeu da mãe no meio da multidão. De repente uma sombra, dois homens uniformizados, um branco e um negro. O negro disse pra mim, “você é aluno aqui?” Eu disse que não. Daí ele aumentou o tom da voz e pergntou, “o que tá fazendo aqui?” Eu disse que nada, só tava dando um tempo. Daí ele foi bem duro, “pode sair”, e o branco pegou o radinho na mão como quem fosse chamar reforço. Minha aparência devia estar horrível. Eu já estava barbado e provavelmente descabelado. Além disso, chorando, a minha cara devia estar toda avermelhada. Levantei e fui, onvindo a ladainha do guarda dizendo que o campus da Universidade não é um lugar público e que eu só deveria entrar lá acompanhado por um estudante ou funcionário ou se fosse trabalhar ou estudar lá. Eu disse, “tá bom” e fui embora.

Resolvi cuidar da minha vida, ir embora. Me informei onde ficava a Avenida Paulista e lá fui. Fui a pé mesmo; subi a Avenida Consolação e lá em cima entrei à esquerda na Paulista. Fiquei fascinado com o que vi. Prédios muito altos, alguns de formato diferente. A avenida movimentada, com carros e ônibus passando, gente andando pra lá e pra cá, nem olham pra sua cara. Parei no Masp, não entrei porque eu pensava que só gente bacana que entrava nesses lugares e eu tinha medo de pedirem meus documentos e descobrirem que eu era menor de idade. Fui até a outra ponta da avenida, depois voltei. Parei no MacDonalds pra comer. Depois continuei minha caminhada, agora no sentido da Consolação. Vi indicação para um parque chamado Trianon. Fui lá ver esse parque. Andei lá dentro muito legal até que dois garotos vieram me assaltar.

Eu disse pra eles, “não, eu não acredito que vocês querem me assaltar assim!” Cada um segurava uma faquinha, um canivete. Mas eles gritavam e falavam rápido, tentando me pôr medo e tentando serem rápidos: “vai cara, passa a carteira logo, passa, passa”. Eu disse, “claro que eu não vou passar, che!”… Interessante, eles é que pareciam estar com medo de mim e eu não deles. Eles vieram com a ponta da faca na minha direção, eu peguei no braço de cada um, fiz com que eles dessem uma volta, de forma que cada um ficou debaixo de cada braço meu. Apertei a mão deles até soltarem os conivetes. Saíram correndo os dois e eu aproveitei pra sair rapidinho, antes que apareça um mais esperto com revolver, aí não tem jeito.

Fui até o hotel e de lá para a rodoviária. Tentei achar o Rodrigo, não achei e ninguém sabia dele. Já era no fim da tarde e peguei o metrô até o terminal Tietê. Quando cheguei lá, por não ter comprado passagem de volta, informaram que ônibus para o sul somente na sexta de manhã. Que fazer? Eu não queria voltar para o hotel, pra aquela cidade. Resolvi sentar e passar a noite. Ainda bem que eu não era o único.

Eu tava deprimido. Perto de mim, uma família: marido, mulher e duas crianças, dois meninos, um tinha 6 o outro 4. Comecei a conversar com o marido. Nome dele era Pedro e o dela Cristina. Eles vieram do nordeste do Brasil fazia um ano. Ele estava a mais tempo. Conseguiu emprego na construção civil, mas assim que a família chegou passou uns três meses ficou desempregado. Durante todo aquele tempo ele passou procurando emprego. Arrumava uns bicos, mas logo saía. Moravam numa favela, não lembro o nome, em alguma parte de São Paulo. A situação foi piorando para eles, até que foram expulsos da casa, um barraco de um cômodo só e banheiro do lado de fora. O dono era um nordestino também, mas os expulsou de lá por causa do aluguel atrasado. Agora eles conseguiram dinheiro para 4 passagens e estão voltando. Que merda, que miséria de mundo. Passamos a noite conversando. Fui na padaria com o Pedro, fora do terminal. Comprei 15 pães, duas caixas de leite, quase um quilo de mortadela, salgadinho e muito chocolate para a gurizada – pausa para emoção – aquela gente tava a muito tempo sem comer. Eu nunca vou esquecer na minha vida do momento que eles viram aqueles pães e começaram a comer. Era um momento de alegria para eles, mas para mim era revoltante haver gente nessa situação. Um senhor, devia ter uns 60 anos, estava assentado mais à frente, estava olhando. Eu preparei um pão e um copo plástico de leite pra ele. Apareceu um casal e quis falar comigo. Eles eram diferentes, estavam bem vestidos. O nome dele era Lauro e diziam que estavam distribuindo sopa lá fora, se eu não queria trazer para a família. Eu disse, “claro que sim”. Era um grupo que trabalhava nas quintas e sextas de madrugada, servindo sopa para moradores de rua. Eles me viram atravessar a avenida com o Pedro carregando as coisas e perceberam o que eu estava fazendo. Ficaram me observando na rodoviária e vieram falar comigo. Pensei, “caralho, que legal!” trouxemos algumas garrafas de pets cheias de sopa e bem quentinha. Foi lindo ver que, depois da sopa, as duas crianças dormiram.

Contei para o Lauro e esposa o que eu estava fazendo lá. A esposa dele, que eu não consigo lembrar o nome, depois me abraçou e disse, “filho, você está certo voltando para sua casa. Você tem um coração maravilhoso e merece muito ser feliz.”

Amanheceu em Sampa! Tava na hora de despedir do Pedro e da Cristina. Abraçando a Cristina ela disse, “sua vida tem muita luz, não desiste, você ainda vai ser um grande homem. A sua vida vai brilhar como esses seus olhos”.

Subi no ônibus e fiz um balanço de tudo. Concluí que Deus sempre esteve comigo. Ele sempre falou comigo. Ouvindo pessoas como Rodrigo, Pedro, Cristina, Lauro e a esposa dele, e até o (a) gerente do hotel; que bom foi conhecer pessoas como eles… se eles fossem mais ouvidos e valorizados, quem sabe o mundo seria um pouco melhor.

Agora uma viagem longa pela frente, mas vou dormir. Depois nos falamos.

Para você, o meu coração

Posted in 9 - Para você with tags , on August 21, 2008 by braverick

Já se passaram 30 minutos da hora combinada. E nada da Rosângela aparecer. Estava começando a me dar fome. Dez minutos passaram e eu sentei, cotovelos nas coxas, mãos empurrando o rosto pra cima, ficando com o saco cheio e frustrado. Estava quase indo embora. Dei uma última olhada pro lado e de repente me emocionei! Ela vindo na minha direção! Uma mulher, e das mais lindas que eu já vi. Estava vestida do jeito que eu gosto – simples. Uma camiseta branca com um pequeno desenho na frente, calça jeans e tenis – básico, normal, como eu. Ela carregava uma mochila pequena nas mãos e quando ela viu que eu a vi ela ergueu os braços e fez cara de felicidade. Eu fui correndo, dei um abraço muito forte e demorado, tirando os pézinhos dela do chão. Meu coração tava disparado. E enquanto agente se abraçava ela disse, “aiiii, tudo bem meu amor!” Nossa, aquilo foi a coisa mais doce que eu já ouvi nos últimos dias. Aquilo me excitou, me deu o maior tesão e foi impossível disfarçar; com certeza ela percebeu o tamanho da minha “alegria”!

Demos as mãos e fomos andando. Eu peguei a mochila dela. Eu não conseguia ver mais nada na minha frente. Podia acontecer uma tragédia, eu não ia ver, só tinha olhos para a Rosângela. Antes de sair do campus ela pediu para sentarmos num banco. Sentamos e ela tirou um lanchinho da mochila e uma maçã. Ela explicou que como as aulas terminam tarde, antes de ir pra casa ela come o lanchinho, a fruta, pra ter gás para depois almoçar em casa. Eu não quis comprar um lanche pra mim para acompanhar, achei que ficaria chato, mas fui e comprei um suco de laranja pra mim e outro pra ela. Apesar de eu estar morrendo de fome, eu podia esperar. Ela disse que tinha combinado com a tia dela que eu iria almoçar na casa dela naquele dia. Ba, mas eu fiquei demais de contente.

Depois de comer, fomos ao ponto de ônibus. Logo ele chegou e não demorou muito. Em 20 minutos descemos na casa dos tios da Ro. Ela estava morando num bairro chamado Alto da Lapa. Era um apartamento num prédio com uma área enorme. Tinha que passar pelo porteiro e tudo. Subimos ao terceiro andar que era onde ela estava. Um apê muito bonito, enorme, com uma sala grande e uma sacada que dava de frente para a rua e entrada do prédio. A sacada era maior que o quarto do hotel que eu estava. A tia Márcia era irmã mais velha do pai da Ro e o marido Pedro era contador e estava trabalhando. Eles tinham dois filhos casados que moravam em outra região de Sampa. Tudo muito bonito e chic demais. Contei pra elas onde eu estava e tudo o que já tinha acontecido. Elas ficaram assustadíssimas. A tia disse que eu estava num lugar chamado Boca do Lixo e que não sabia como eu ainda estava vivo. Depois ela contou um monte de tragédias que aconteceram naquela região, inclusive quando ela foi assaltada no sinaleiro pelos moradores de rua de lá.

Comemos um maravilhoso frango recheado e uma carne muito boa e especialmente temperada, além do arroz e feijãozinho de sempre. Salada, legumes, etc. Ficaram assustadas de como eu comi. Normalmente como muito mesmo, mas naquele dia eu tava morrendo de fome. Depois fomos andar, eu e a Ro, lá no condomínio. Ela foi me mostrar a piscina, salão de festas, sauna, sala de jogos. Muitos adolescentes lá, me deu vontade de ficar. Subimos e fomos para o apê e sentamos na sala e assistimos televisão com a tia Márcia.

Não demorou muito eu caí no maior sono no sofá. Nossa, que mico! Mas para a minha surpresa, a Ro me acorda e fala que vai me levar para o quarto pra eu dormir um pouco. Eu aceitei na hora, e fomos. Era um quarto de hóspedes, parece. Ela colocou um travesseiro grande e bem fofinho, não tinha quem resistisse. Mas no quarto eu não aguentei e peguei a Ro nos meus braços e dei um beijo na boca dela. No começo ela resistiu, mas suas forças foram se acabando, até que ela me envolveu nos seus braços. As mãos dela passeavam pelas minhas costas, ombros e braços. As vezes elas abaixavam até a altura da cintura. Minhas mãos grandes passeavam também por aquele corpinho tão pequeno e bem feito; nas costas, na cintura e no cabelo, até que uma das mãos se dirigiu a um dos seios. Eu já percebia uma respiração diferente nela. O corpo dela encostado no meu, de repente os dois começaram a se mexer como se estivessem em atrito. Ela estava praticamente no meu colo. Mas de repente, ela pulou pra trás e disse, chega Ri, melhor parar. Nossa, não dava pra parar! Eu já tinha passado o limite da volta, não tinha como parar. Mas ela estava certa. Precisei lavar o rosto e ela saiu também.

Quando era quase 6 horas, resolvi ir embora. Mas a tia insistiu para que eu ficasse e esperasse o tio para jantarmos juntos e se fosse o caso ele me levaria para o hotel ou quem sabe para um lugar melhor, segundo elas. Resolvi ficar. E foi muito bom. Conheci o tio, jantamos juntos, conversamos bastante. Peguei todas as indicações de ônibus e me despedi deles. Ro foi até o ponto comigo. Eu estava muito feliz, porque apesar da frustração daquela tarde, meu contato com a Ro foi melhor que eu esperava e já me imaginava transferindo para Sampa. Mas eu não quis ir embora antes de dar o último lance. “Eu te amo, Ro, e te quero na minha vida até o fim”. Não era cantada, não era querer ficar ou ter um casinho. “Eu quero namorar contigo bem sério, depois ficar noivo e casar”. Daí veio a facada no coração. “Ri,” ela disse, “é muito bom ter você comigo, você é legal, super cara, lindo, amigo e carinhoso, mas nossa relação é só de amigos mesmo, e você é o meu melhor amigo.” Daí eu disse, “eu não quero ser seu melhor amigo, eu quero ser seu homem!”

A história terminou eu pedindo por favor pra ela pensar e que no outro dia esperaria ela no mesmo local. Ela não respondeu nada. E foi assim que acabou meu dia e o dia acabou pra mim.

Nos falamos depois.

Rosângela, Rodrigo e Ricardo

Posted in 7 - Rosângela ..., Rodrigo, Rodrigo e Ricardo with tags , , , , , on August 20, 2008 by braverick

Já passa de uma da tarde. Fazia um calor muito forte e o ar sujo. Tudo isso me deixava cansado e estressado. Além disso nem comi. Me sentia fraco depois de mais de 20 horas de viagem, trocando de ônibus, esperando ônibus. E onde tá a Rosângela? A turma da manhã já saiu e eu não vi ela. Saí do campus da Universidade e fui procurar um lugar pra comer. Achei um barzinho numa rua do lado da universidade e tava cheio de estudante lá. Pedi dois lanches, afinal tava com fome e sou grandão, precisava me manter de pé. Pedi também batatas fritas e chopp. Acabei conhecendo 3 meninas, alunas do Mack. Tinha tanta gente no barzinho que elas nao tinham onde sentar e chamei elas para sentarem na minha mesinha. Eram alunas da facul de publicidade; garotas bem vestidas, lindas e muito animadas, animadinhas até demais. Quando eu contei o que tava fazendo naquela cidade louca, elas me chamaram de “ai que fofo!”

No fim da tarde achei um hotelzinho lá perto. Um lugar tri estranho numa rua chamada General Jardim. Quando eu cheguei nesse hotel não sabia se o gerente era homem ou mulher. Depois eu entendi o que ele era… Subi para o quarto. Um lugar apertado com uma cama grande cheia de buracos e um banheiro que eu mal cabia nele. Tudo muito velho, estranho e sujo. Barulho de carros, buzina, escapamento, cirenes, um inferno. Queria minha casa, minha cama. Como eu tava quase morto de cansado, tomei um banho – o chuveiro era enorme, parecia uma panela de pressão, cheio de parafusos e fios. Quando abri, além de meio frio, caia pouca água, parecia um conta gotas – depois fui deitar e tentar dormir. Dormi só 2 horas e resolvi levantar e sair pra tentar mandar um e-mail pra Ro e comer alguma coisa. Eram 7 horas da noite. Primeiro fui comer, mas não achei nenhum lugar que tivesse comida de verdade. Churrascaria é coisa pra magnata lá, eu não tinha tanta grana assim. Acabei caindo no lanche de novo, e depois um café com leite, que em Sampa eles chamam de pingado. Achei um cyber pra ver meus e-mails (parecia mais uma boite) e não tinha nenhum e-mail da Ro. Resolvi escrever pra ela, nem que fosse a última vez. A minha esperança tava no fim, apesar de sobrar amor. Mas se não desse certo, volto pra casa – perdas e danos, já me acostumei com isso. Escrevi um e-mail melado pra Rosângela, disse que estava em Sampa somente para ver ela. Disse que tinha passado a manhã toda procurando ela e que queria muito encontrá-la no dia seguinte. Pedi que por favor ela entrasse em contato comigo, nem que fosse pra falar um oi e conversarmos um pouquinho. Eu tinha total confiança no meu papo. Se ela me desse abertura, eu ia conquistar o coraçãozinho dela. Pra minha surpresa, depois de 10 minutos que enviei o e-mail,só estava esperando o meu tempo terminar, recebi a resposta dela. Em rápidas palavras, mas mostrando um enorme carinho. Perguntou se eu estava bem, se eu estava me alimentando e mandando eu tomar cuidado. Ela disse que queria me ver no outro dia e marcou em frente a biblioteca central do campus do Mack, do lado da faculdade de Direito. Eu sabia exatamente onde era. Nossa, fiquei muito feliz. Fui embora pro hotel e parece que comecei a achar São Paulo parecido com o paraíso.

Cheguei na porta do hotel percebi um movimento na esquina, umas três ou quatro mulheres vestidas que pareciam que iam pra uma festa de gala, falando alto. Quando olhei direito eram homens vestidos de mulher; isso mesmo, travestis. Nunca tinha visto isso antes. E como eu sou do interior, do mato e dos pampas, fiquei com toda inocência olhando pra elas como se estivesse assistindo um show. De repente escuto assim, “ae grandão”. Uma voz de homem, um cara atrás de mim, moreno, aparentava uns 40 anos. Eu virei pra ele com sorriso e disse, “e aí, beleza?” Na minha cidade a gente cumprimenta todo mundo e fala com todo mundo, mesmo que não conheça. E ele perguntou, “qual a sua idade, grande?” Eu disse que tinha 20. Pelo menos aí fui esperto. Nem pensar em dizer que tinha 17. Mas fiquei preocupado, principalmente porque ele perguntou em seguida, “tá querendo se divertir?” Eu disse que não, que eu tava bem e já tinha me divertido hoje. Eu acho que ele percebeu que eu tava totalmente de fora e disse, “então vai pra casa, tá olhando o que aí?” Eu respondi, “eu to aqui nesse hotel”. Como diz o Felipe, só os músculos se desenvolveram em mim, meu cérebro atrofiou. Daí o cara ficou interessado e quis saber tudo; me encheu de perguntas. Eu quis me livrar, mas tava complicado. Passou um cara do nosso lado e disse pra mim, “querido, vamos la que ta na hora”, e me pegou pelo braço tentando me puxar e eu fui, nao entendi nada. Ele me levou até a outra esquina, viramos a rua e ele me disse que o gerente do hotel que eu tava (ou a gerente, não sei) mandou ele me afastar daquele cara. “Ele é barra pesada”, disse. Eu fiquei com medo, não sabia se agradecia ou se saía correndo. Enfim, ele foi pra outro lado e eu resolvi andar por lá.

Caminhando por aquela parte de Sampa, vi coisas inacreditáveis. Um carro estacionou do meu lado, com vidros pretos e abriu a porta do passageiro. Olhei e só estava o motorista, olhando para mim. Um cara mais velho. Continuei andando. O cara fechou a porta e saiu acelerando forte. Passei embaixo de um grande viaduto e vi lá muitas pessoas de várias idades. Moravam na rua com móveis, guarda-roupas, cama, sofás. Eram casas sem parede e o teto era o próprio viaduto. Fiquei olhando muito tempo. Vi um cara que parecia ser morador de rua, e ele me parecia bem. Resolvi atravessar a rua e fui falar com ele. Pensei que ele poderia me atacar, fugir de mim ou conversar. Apostei na última possibilidade e acertei. Me apresentei, disse meu nome e disse que era estudante e queria saber se ele morava lá. Ele disse que sim, morava com uma família. Ele falava bem e era super gente; chamava Rodrigo. Ele me disse que veio de Natal, no Rio Grande do Norte, tentar a vida em Sampa. Passou fome; chegou a roubar, apanhou várias vezes e agora trabalha catando papelão na rua. Ele queria conseguir um carrinho para poder catar mais papelão e ganhar mais. Aquelas pessoas eram a família dele em Sampa. Conversamos muito e apesar de todo sofrimento que passou eu vi no Rodrigo uma pessoa que ama a vida. Ele conhecia quase todos os moradores de rua. Eram famílias inteiras. Pessoas de aparência assustadora, roupas muito muito velhas e rasgadas. Mas eram pessoas que se amavam e cuidavam uns dos outros. Pensei muito na minha vida. Não sofri tanto assim e admirei o senso de grupo deles e como se sentiam pertencentes uns dos outros. Depois andamos pelas ruas e já era mais de 11 da noite. A cidade não pára. Movimento dia e noite igual. Andamos no meio das prostitutas, travestis e garotos. Depois fui para o hotel. Assustado e admirado ao mesmo tempo. Rodrigo disse pra eu ir pro hotel e me fechar lá, mas como ele conhecia as pessoas, enquanto eu tivesse com ele ninguém zuaria comigo. Ele foi comigo até a porta do hotel, já era madrugada.

Fui pra cama mas não dormia. Muito barulho, cama horrível; o barulho de gente transando nos quartos do lado me encomodava. Fiquei pensando na história do Rodrigo e na minha. Ao mesmo tempo ansioso de rever a Ro no dia seguinte.

Amanhã conto mais…

Rosângela …

Posted in 7 - Rosângela ... with tags , , , , , , on August 19, 2008 by braverick

Com 17 anos, minha fama na escola e fora dela era de pegador, galinha e ricardão. É que eu não tinha muita dificuldade de acesso tanto com as meninas da minha idade como com as mais velhas e até com as mais velhas ainda. Bom, não posso detalhar muita coisa quanto às mais velhas aqui. Tenho omitido alguns fatos que podem expôr gente de bem, sendo que estou sabendo que muita gente hoje na minha cidade tem acessado meu bloguinho diariamente. Aliás, não tenho publicado muitos comments justamente por causa disso (e tenho recebido muitos e muitos e-mails, ta valendo, galera!).

Na verdade eu acho que eu sempre tive muita energia e adrenalina. Nunca consegui ficar muito parado. Sexo era uma coisa que simplesmente acontecia. Gostava muito de exercitar o corpo, parecia um vício. Sempre que dava eu tava na academia, ou jogando fute, correndo, etc. Mas com tudo isso eu não era um cara safado. Sempre respeitei muito as pessoas especialmente as mulheres. Simplesmente eu deixava a coisas fluírem. Deixava que tudo acontecesse naturalmente. Aliás sempre fui carinhoso e cuidadoso, quem me conhece sabe.

Mas nem tudo dava certo. Rosângela por exemplo. Ro foi o grande amor da minha vida. Muitas vezes ela tirou de mim o sorriso e a alegria de viver. Foi a pessoa que eu mais quis (e eu não to falando só sexualmente), mas nunca tive. Quando lembro da Ro me vem a frase na cabeça: “Too much love will kill you!”.

Eu e Ro crescemos juntos. Ela é quase um ano mais velha que eu. Os pais dela eram amigos da mamãe. Eles moravam do outro lado da rua, quase em frente à nossa casa. Brincávamos juntos, íamos e voltávamos da escola juntos quase todo dia. Depois que a mamãe faleceu e tudo aquilo aconteceu, eles se afastaram da gente, mas nossa amizade foi sempre forte. Éramos confidentes e íntimos.

A fama da Ro na escola era de a mais difícil. Apesar de ser muito legal e amiga de todos, ninguém conseguia se aproximar dela para ficar ou namorar. Ela era a que todos queriam também. Muito linda, loira, olhos azuis e corpo perfeito. Mas não era só isso que me atraía nela, era a meiguice, atenção e carinho com que ela me tratava. Apesar de toda nossa amizade, intimidade e carinho um pelo outro, eu nunca consegui tirar dela um beijo de verdade. Principalmente porque eu nunca fui de forçar as coisas; como eu disse, eu gosto de deixar rolar na boa, naturalmente.

No ano anterior, 1999, toda galera tava focada no vestibular. Dificilmente alguém queria sair do nosso estado. Para nós, o Brasil era um país e o nosso estado outro. Aliás, acho que essa é a mentalidade da maioria da população lá. Mas a Rosângela quis ir para Sampa. Por quê? Ela dizia que era um sonho dela e que tinha família lá também. Só fui acreditar nesse absurdo quando ela veio em casa toda contente dizendo que entrou numa Universidade em Sampa. “Caralho, em Sampa, Ro?” Sim, uma tal de Universidade Mackenzie. Particular ainda por cima. Penso que se fosse uma USP ainda valeria a pena, porra, São Paulo?

Nos últimos três meses antes dela ir, eu resolvi investir mais e ser mais direto. Infelizmente brigamos. Ba, como sou burro! Falei que amava ela, falei que estava disposto a qualquer coisa com ela. Um dia discutimos porque eu proibí que ela fosse embora. Me humilhei e enchi o saco, a ponto do pai dela ter que interferir.

No dia que ela foi, fui até a rodoviária. Ela ficou tão brava comigo que me ignorou. Mas ela fez isso para se preservar, não fez por maldade. No fundo, Ro, tenho certeza que você me amava também, mas entendo seus motivos!! :(

Depois que ela foi, não se comunicava mais comigo. Eu ia para a sala de bate papo na internet, onde eu sabia que eu poderia encontrar ela. Conheci muita gente nesse lugar, mas a Ro, se entrava, eu não reconhecia.

Não agüentei de saudade e disse pro Fe que ia pra Sampa. Ele achou um absurdo; não concordou. Peguei meu dinheiro que tava guardado e fui. Antes, pedi para os pais dela endereços e telefones, contatos dela enfim. Não quiseram me dar. Passei um milhão de e-mails para ela avisando que ia. Até hoje nenhum respondido. Até hoje me pergunto onde eu errei com a Ro. Onde, Ro? Mas eu sabia onde ela estava estudando. Fui mesmo assim, imaginando que São Paulo era um pouquinho maior que Porto Alegre. Fui, faltei uma semana na faculdade… estava no começo mesmo! Mas fui debaixo dos protestos do Felipe.

Peguei o busão até Floripa. De floripa fui para Curitiba e depois de Curitiba outro pra Sampa. Mais cansativo, mas mais barato. Cheguei na Rodoviária de Sampa. Meu nariz entupiu na hora. Fiquei tonto com tanta gente junta e cada figura uma mais esquisita, diferente e feia que a outra. Pensei, caraca, como alguém pode sonhar em vir morar nesse lugar? Era uma terça feira de manhã. Perguntei no balcão de informações onde fica a faculdade Mackenzie. A moça muito simpática disse que eu tinha que pegar o metrô, descer na estação da praça da Sé e depois tomar a outra linha do metrô que vai para a estação República. Próxima pergunta minha, “onde é esse metrô”? Fui seguindo as placas. Odeio metrô. Odiei aquele metrô. Não nasci pra ser tatu. Desci na praça da Sé. Ba, que lindo! Entrei na igreja lá. Fiquei impressionado com aquilo. Saí para a praça de novo e fiquei observando todo aquele movimento. Tava morto de fome. Consegui uma carne num espeto que ficava rodando na vertical. Matou a minha fome, mas quase que me matou também. Na praça tinha de tudo. Pessoas cantando, vendendo chás e ervas, outras com uma Bíblia na mão falando do inferno. Depois de muito ver, perguntei onde fica o metrô que vai para a estação República, perto da faculdade Mackenzie. Descobri que eu nem precisava ter saído da estação que eu estava, era só trocar de trem.

Desci na estação República. Fiquei assustado com o tamanho daquela cidade. Tava começando a entender porque lá era o sonho da Rosângela e era o sonho de muita gente também. Foi nesse momento que pela primeira vez eu percebi como meu mundo era pequeno. Eu passava pelas pessoas em Sampa, olhava para elas e elas nem olhavam pra mim. Nem as meninas respondiam às minhas olhadas! Perguntei onde fica a faculdade Mackenzie para um senhor barrigudo, com um terno marrom e a gravata mais curta que o normal – não sei se a gravata era curta ou se era a barriga dele que encurtava a gravata! Me deu vontade de dar umas aulas de exercício físico para ele. Ele não tinha um tanquinho, ele tinha um trator! Ele nem me respondeu, acredita? Só indicou com a mão como quem diz, “segue em frente”. Depois que perguntei umas 2 vezes cheguei lá. Um calor horrível, seco e sujo. Na entrada da faculdade tinha um prédio enorme. Lá dentro, parecia uma cidade. Vários prédios baixos e casas, tudo muito antigo.

Tive algumas frustrações. Uma delas foi ver que achar a Ro lá seria uma tarefa muito difícil. Milhares de pessoas circulando lá dentro. Outra coisa, quando perguntei para alguém onde fica a secretaria, a resposta foi, “que secretaria?”; “secretaria de que faculdade”? Então eu fui na secretaria da faculdade de direito. Uma mulher mal educada disse pra mim, “querido, quem é você? Não posso dar informações sobre os alunos da faculdade. Aliás, temos mais de mil alunos!”

Que fazer agora?

Continuo no próximo…

 

Mother

Posted in Mother - John Lennon with tags , on August 18, 2008 by braverick

Acabei de assistir os Simpsons e descobri como Homer amava sua mãe que sempre o deixava. Ouvi essa música e resolvi transcrever a letra:

Mother
John Lennon
Mother, you had me, but I never had you
I wanted you, you didn’t want me
So I, I just got to tell you
Goodbye, goodbye
Father, you left me, but I never left you
I needed you, you didn’t need me
So I, I just got to tell you
Goodbye, goodbye
Children, don’t do what I have done
I couldn’t walk and I tried to run
So I, I just got to tell you
Goodbye, goodbye
Mama don’t go
Daddy come home

Vale a pena viver

Posted in 6 - Vale a pena viver, Felipe with tags on August 18, 2008 by braverick

Os melhores anos desde a morte da mamãe foram 1999 e 2000. Pela primeira vez eu sentia alegria e vontade de ficar mais dentro de casa. Segundo o papai, a oportunidade de negócio que apareceu para ele no interior de São Paulo foi a virada de vida dele e valia qualquer sacrifício. E foi verdade, a partir de 2001 quando ele voltou, os negócios prosperaram muito por causa da representação comercial que ele conseguiu lá nesses dois anos. Hoje ele é um cara rico mesmo, mas tão rico quanto materialista e egoísta.

Mas o que vale contar aqui hoje é que ele foi embora por dois anos, levou a sofrida Ana, sua esposa com ele e a miniatura dele, o Gustavo. Ficamos eu e o Felipe. O Fe tinha 14 pra 15 anos quando eles saíram e, pelo menos na minha opinião, nada vale a pena quando o sacrifício é separar a família. Fiquei com pena do Fe. Mas como eu penso que existe um plano pré agendado na vida, morar só eu e o Felipe nesses dois anos foi uma coisa muito boa. Nos entrosamos perfeitamente. Nossa responsa era cuidar e manter a casa. Eu tinha que trabalhar na empresa do papai junto com o sócio dele, o que na verdade eu fazia era ser as vezes office boy e faz tudo, até limpeza. O Felipe não era pra trabalhar naquele momento, mas recebia a mesada do papai, que chegava perto do meu salário – eu nunca tive mesada, nem bicicleta. No primeiro ano que eles estavam fora eu terminei o ensino médio e no ano seguinte comecei na faculdade.

Procuramos ser o mais eficientes possível nesse período porque para mim e para o Fe era muito interessante que nada acontecesse de errado. O papai mandava uma grana todo mês para nos manter, pagar a moça que trabalhava em casa e todas as despesas. O Fe é um cara super inteligente. Hoje ele diz que eu era o Pink e ele o Cérebro nessa fase. Formávamos a dupla perfeita. Primeira decisão que nós tomamos foi guardar dinheiro. Tanto meu salário como a mesada dele foram guardados e não usamos nem um centavo. Enxugamos ao máximo o orçamento da casa e usávamos o dinheiro do papai para nós também. Todo sábado a gente fazia uma festinha em casa. Algumas eram do tipo open bar, convidávamos toda a galera. Bebida não era o problema. Mulher também não, então tínhamos tudo, muito ânimo e tesão. Mas a maioria das festas eram mais restritas. Dois, três ou quatro casais, ou simplesmente três pessoas. Foi uma escola pro Felipe que até aquela época não sabia nem como descer o zíper da calça, ou soltar um sutian! Virgenzinho de tudo, nas primeiras vezes elas diziam que ele cheirava leitinho!!! A empregada que trabalhava em casa não aguentou tanta zona (nos dois sentidos) e pediu as contas. Tudo bem, disse o Felipe, a gente dá um “cala boca” pra ela por fora e as questões trabalhistas pede ajuda para o sócio do papai, para aquelas coisas, tipo dar baixa em carteira, etc. Bajulamos muito ela, dizendo que ela era muito importante para nós, mas que se aquela foi uma decisão dela, por nós tudo bem. Pagamos tudo o que era devido e demos o mesmo valor pra ela não zuar a gente pro nosso pai. Ela aceitou a grana e disse que ia começar um trabalho que ia ganhar muito bem, “bom pra ti”, disse o Felipe – todas elas dizem isso. Quando ela saiu abrimos e secamos uma garrafa de vinho pra comemorar. Afinal, era mais economia pra gente e combinamos de todo sábado fazermos a limpeza total na casa. Além disso, pelo menos uma vez por mês a Le, o namo dela e a boelita vinham passar o fim de semana com a gente. Só que quando eles vinham não tinha festa, é claro. E quando eles vinham a gente voltava a comer comida de verdade e davam aquele acabamento legal na casa. Por duas ou três vezes nesses dois anos a boelita passava uma semana inteira em casa – ba, como lembrava a mamãe!!!

Como eu disse, foi uma época muito boa mesmo e a gente tinha uma boa grana juntada. Comprávamos roupa e eu, plea primeira vez na vida comecei a freqüentar uma academia. Foi muito legal porque consegui fazer um upgrade no meu corpo. Fiz duas tatoos, furamos a orelha e o Fe furou a língua. As vezes a gente ia na praia ou subia pra Floripa. Quando tinha uma coisa especial assim pra fazer, tipo trilha, montanha, etc, o Fe ligava pro papai e pedia uma grana a mais porque as coisas aumentavam muito de preço e aquela grana fixa que ele mandava não tava mais dando conta.

Num certo dia o Fe amanheceu mal. Só vomitava, deu febre e passou muito mal. Não fosse uma das meninas que ficavam com a gente as vezes, que disse que ele precisava ir para o hospital, nem sei o que teria acontecido. Deu infecção e um pouco de anemia. Teve que entrar no anti-biótico e nessa hora não falta gente com receita para fortalecer. Nossa vida encheu de tia que levava pratos e até panelas com comida para nós dois. A mãe do Fe acabou sabendo e veio para ficar um mês com o filhinho dela. Não teve festa nesse um mês, mas foi muito bom conviver com a Ana e ver como ela realmente é longe do papai. Ela deu a maior força para o nosso esquema de grana dos dois anos. Foi tão bom ela estar lá que quando tinha que ir embora chegamos a pedir para ela ficar.

Foram esses os dois anos de paz alegria e diversão na minha vida. Conseguimos crescer como pessoa, amadurecer e ter uma visão legal do mundo. Percebi como uma pessoa pode trazer infelicidade pra tanta gente! Mas percebi também como vale a pena lutar, ser ousado e nunca deixar a vida me levar. Tem gente que se entrega e fica fraco por causa de problemas, derrotas e perdas. Eu sempre tive tesão pela vida, sempre quis viver e nunca perdi a ternura.

Nos falamos depois…