Ela Precisa do meu Ouvido

Posted in Ela Precisa do Meu Ouvido with tags , , , on November 8, 2009 by braverick

Meu celular toca às 7:30 da manhã, não acredito, fui pra cama perto das 4 da manhã. Era ela, Margareth, alguém que na noite anterior me contratou para ir com ela numa festa em um casarão no campo. A festa muito bacana, cheia de magnatas e ela me apresentava como “um amigo”. Agora ela me liga dizendo que quer almoçar comigo e conversar. “Ok”, disse pra ela, “nos encontramos então”. Na hora marcada nos encontramos no lugar combinado e fomos para o Restaurante. No caminho ela me diz que precisa fazer uma viagem de negócios para a Alemanha e não quer ir sozinha. Pediu que eu fosse com ela, e ela pagaria toda a minha despesa além da minha companhia. Como o dia de ir estava distante, deu para dizer que iria.

Margareth é uma mulher muito rica. Conseguiu transformar seu negócio num grande negócio, mas com o passar dos anos acabou desfazendo do casamento. Filhos casados e marido longe, essa mulher vive sozinha em uma grande casa no lado bom de Londres. Uma mulher bem sucedida, independente, segura de si e no controle completo dos negócios. Mas por trás de tanto poder havia uma mulher triste e abatida pela solidão. Acostumada a dar ordens, a ter pessoas aos seus pés, aos 60 anos, ou mais ou menos isso, em casa, fora do rítimo de trabalho, uma mulher que não tem uma amiga, um homem que a aguente, não tem uma família.

Chegou o dia da viagem e fomos. No começo fiquei assustado, porque ela encorporava a Margareth executiva, decidida, direta e mandona. Me senti um cachorrinho na coleira da Madame. Mas quando chegamos no hotel, primeiramente em Berlin, aquela mulher firme e audaciosa começa a se despir do seu papel de chefe e se torna ela mesma. E uma coitada, sendo ela mesma! Margareth não quer somente sexo; o que ela quer é alguém junto, alguém como referência para saber quem realmente é.

Ela fala coisas e pergunta coisas que me deixam sem ter idéia do que responder! Situações particulares e profissionais e de relacionamento… a única coisa que eu sabia era ouvir e concordar com tudo. E eu penso comigo, o que eu estou fazendo aqui? O que dizer para essa mulher? Aquela história de dinheiro não trazer felicidade, parece que é verdade.

No fim, e talvez por pena, acabei sendo o “amante”, amigo e ombro daquela senhora durante longos três meses. Mas Margareth me mostrou um lado diferente da vida…

Depois nos falamos…

Meus Amigos – FLOR

Posted in 22 - Meus Amigos - FLOR with tags , , , on January 13, 2009 by braverick

É claro que esse nome eu inventei agora, mas a pessoa é real e marcou muito. Um dia cheguei em casa e o Bodo veio me falar de uma pessoa que ele conheceu. Era uma brasileira, o nome? Esse aí de cima: Flor. Os dois se conheceram numa mostra de arte que teve na Universidade. Ela expondo e ele apreciando. Com o tempo a amizade dos dois se estreitou e logo virou love. Acabei conhecendo Flor numa festa que o Bodo me convidou e vi a figura. Uma verdadeira gata, bonita, alta, peituda. Brasileira, morena e muito bem tratada. Conversei bastante com ela. Paulista, filha de portugueses, conseguiu moradia permanente na Europa e tinha uma vida bem sucedida e ainda jovem. Tinha a minha idade.

        Bodo e Flor começaram a namorar. Ela mais velha e pouco mais alta que ele. Mesmo em termos de mentalidade, ela era mais centrada que Bodo. Mas os dois começaram a namorar. Estavam todo fim de semana, o tempo todo, juntos. Alguns fins de semana o Bodo desaparecia, outros eles ficavam em casa, de sexta a domingo. Entravam no quarto dele na sexta de noite e dificilmente saíam antes da noite do sábado. Costumavam sair depois das 10 da noite do sábado e voltavam de manhã no outro dia. Confesso que eu sentia um pouco de inveja dos dois, porque eram apenas os dois. Agora com Flor, Bodo vivia para a Universidade e para o amor brasileiro dele. Ele aprendeu muitas palavras no nosso idioma. Sentia inveja sim, porque enquanto eu saía para “trabalhar” nas noites, cada noite diferente da outra, eles viviam a vida de um casal normal.

        Bodo foi sempre mais infantil que Flor. Depois de alguns meses de namoro, eu percebia a força que ela tinha sobre ele. Como ela manipulava e tratava o loirinho com uma certa habilidade e eu só observava. Confesso que ficava preocupado com isso. Eu tinha mais experiência que Bodo, ele parecia estar saindo do ninho naquela época. Tentei alertá-lo algumas vezes, mas ele se fazia de sussegado. Num domingo de manhã cheguei em casa e Bodo na cozinha, tinha acabado de levantar. Perguntei como foi a noite, ele disse que não saiu. Disse que Flor não apareceu, não ligou, não escreveu e nem respondeu aos contatos dele. Pensei, “hum, aí tem”. Pude ver como isso tinha abatido ele, mas ele não me dava espaço para conversar a respeito.

        Esses “perdidos” da Flor começaram a acontecer com mais frequência. Com isso o Bodo foi se amargurando cada vez mais. Morri de dó do Norueguês. Daí eu pensei, se tá dificil conversar com ele, vou tentar com ela. E foi o que fiz, marquei com Flor um encontro num café e avisei o Bodo que ia conversar com ela porque eu tava achando o lance todo muito estranho. Ele de início não gostou, mas eu disse que ele querendo ou não eu iria conversar sim com ela, porque ela é brasileira como eu e nós nos entendemos. Além disso, disse para ele que eu costumo cuidar dos meus amigos. Não estava bom vê-lo triste daquele jeito.

        Confesso meu pecado: Flor me atraía. Mas jamais eu tive a intenção de tirá-la do meu melhor amigo. Flor atendeu ao meu convite e na conversa ela disse que ficava mal com ele, porque ele não gostava de muita pegação, digo, esse povo anglo-saxônico tem hora pra tudo, pegar na mão, beijar e etc… E Flor, brasileira, como eu, adora um esfrega!!! É na hora que dá vontade, sem precisar pensar muito antes, ou depois, ou calcular tal e tal movimento. Bom, problema cultural, mais fácil do que eu pensava. Perguntei para Flor se ela queria que eu falasse com ele e ela disse que sim, mas não pareceu muito animada. Falei com o lorão e parece que a coisa funcionou mais.

        Resolvemos fazer uma festinha em casa. Tava no fim de junho, já calor, verão, galerinha que estudava ja estava de férias. Então resolvemos comemorar. Foi uma festa boa, normal como acontecia, mas alguma coisa aconteceu… depois eu continuo.

Meus Amigos – BODO

Posted in 21 - Meus Amigos - BODO with tags , , , , , , on January 8, 2009 by braverick

 

Quando eu já estava mais adaptado em Londres e dominando melhor o idioma, fui descobrindo novas coisas e meu círculo de amizades ampliou bastante. Estava ganhando uma grana razoável como acompanhante e além disso muitos e caros presentes. Eu estava morando em Greenwich, na periferia de Londres. Uma amiga falou de um menino que ela conheceu no Open Day da Universidade. Ele pretendia estudar na Universidade de Londres e estava atrás de lugar para morar. Ele veio de Oslo na Noruega. Os pais deles eram comerciantes lá. O nome desse menino era estranho, Bodo. Nossa amiga em comum perguntou se eu queria dividir minha casa com ele. Pensei dez vezes e depois liguei para ela dizendo que gostaria de conversar com esse norueguês chamado Bodo. Nos encontramos nós três num café perto da Trafalgar. Cheguei, eles já estavam lá. Bodo tinha uma aparência física típica dos nórdicos, loiro, olhos azuis e aparentava ter uns 18 anos, mesma idade que meu irmão Felipe. Começamos a conversar e logo notei que o loirinho tinha algumas dificuldades com a língua inglesa, mais ou menos as mesmas que eu tinha. Ele estava morando num hostel em Londres e estudava inglês para poder entrar na Uni. Era um cara super tímido, mas queria muito saber de futebol e música brasileira. Gostei dele, não me parecia ser uma pessoa com maldade e malandragem. Gostei do Bodo, e disse para ele que quando quisesse poderia mudar.

Estendi a mão para cumprimentá-lo como sinal de negócio fechado mas ele não correspondeu. Eu sempre dava esses foras. Esquecia que não existe muito toque na cultura de alguns povos europeus.

Chegou o dia da mudança e ele apareceu em casa apenas com 2 mochilas; uma com roupas e outra com livros e objetos pessoais. Achei muito estranho. Mas por muito tempo achei a cultura e costumes dele estranhos.

O Bodo foi e é um dos meus melhores amigos. A vida foi nos aproximando, unindo nossa amizade. Aprendi com ele a ter uma visão mais séria e crítica da vida. Ele aprendeu comigo que a gente deve também aproveitar o que a vida tem de bom. Conforme o tempo foi passando, Bodo foi se tornando como alguém da família. Ele sempre criticou o tipo de vida que eu levava e para dizer a verdade, se eu saí daquela vida, foi porque ele batalhou muito comigo e por mim.

Nossa vida, juntos, em um curto espaço de tempo, deu uma virada enorme e tem muita história para contar.

Hoje, Bodo vive na Escócia. Mora lá com seu filhinho, Scott. Muito jovem, mas com muita responsa na vida. Bodo, alguém deve traduzir isso para ti. Obrigado por ser meu amigo, por tudo o que você me ensinou e pela companhia nas horas difíceis e também nas mais gostosas.

“Amigo é coisa, para se guardar…”

A Guerra Acabou – Feliz Natal

Posted in Happy Christmas - John Lennon - versão with tags , , , on December 24, 2008 by braverick

Chegou o Natal e o que você fez? Mais um ano acabou e outro está para começar. Mas hoje é Natal, espero que você se divirta, todos vocês, jovens e velhos. Um feliz natal e um feliz ano novo. Esperamos que seja um bom ano, sem qualquer medo. E hoje é Natal, para o fraco e para o forte; para os ricos e para os pobres. O mundo é tão errado, mas… Feliz Natal: para o negro e para o branco; para o amarelo e para o vermelho. Vamos parar toda a briga. Um feliz Natal e um feliz ano novo. Espero que você se divirta; vocês, os que são próximos e vocês os que são queridos, sem nenhum medo. A guerra acabou, se você quiser assim…

John Lennon

Renascido no Natal

Posted in 20 - Renascido no Natal with tags , , , , , on December 23, 2008 by braverick

Sinto que tudo na minha vida está normalizando. Nesse fim de semana que passou eu voltei a andar, digamos, normalmente. Tenho dormindo a noite toda. Tenho tido fome (de comida e outras coisas). Sinto uma melhora imensa; uma vontade de viver depois de mais de 2 meses quase morto. Agora o que eu mais desejo é encarar de frente essa vida e viver na sua intensidade. Já pensei em coisas que quero fazer, que não quero fazer e coisas que devo fazer. Primeiro problema é pagar as dívidas adquiridas nesse período de doença; estou desempregado, devo voltar para casa e ver lá como estão as coisas e o que fazer para não ficar parado.

Desejo muito ver as pessoas que amo, aqui no Brasil e lá na Escócia. Garotas? Namoradas? Ninguém. Mas nenhum desses problemas me abalam mais; pra mim, são questões resolvíveis que um dia acabam e aí vou realmente viver a vida como ela é. Quem passou o que eu passei sabe do que eu to falando. Nada é tão grave e tão difícil quando você crê em Deus e confia. E se tu tem saúde, existe energia. Nesse período todo tenho evitado me olhar no espelho… as vezes que eu me via antes eu chorava. Agora, percebi que estou com mais cabelo e que minha cara não está tão ossuda assim.

Vou passar o Natal sozinho aqui, mas meu coração e mente estarão com todos aqueles meus queridos. Mas estou feliz porque eu renasci no natal.

A todos, uma noite de natal cheia de paz, família, amigos, presentes e um 2009 vivido plenamente.

De Volta Para a Vida

Posted in 19 - De volta para a vida, Uncategorized on December 17, 2008 by braverick

Eu nunca soube realmente o significado de “viver”. Vida para mim sempre foi uma idéia relacionada com minha juventude e aquilo que eu poderia tirar proveito dela. Viver intensamente, até as últimas conseqüências. Esse era o meu lema. Nada de errado com isso. Não vou escrever filosofia aqui, mas vou tentar expressar algo em favor da VIDA.

        Sabe, no meu leito de quase morte, eu me lembro de uma expressão que bateu muito forte no meu coração e mente: “o vale da sombra da morte”. No meio da minha luta, batalha, guerra em favor da vida, essa frase e figura estavam sempre à minha frente. Foi por lá mesmo que eu andei, um vale escuro, almas em desespero, vozes de angústia e pavor… uma dor terrível na alma. O vale era escuro, com uma escuridão tão densa, capaz de ser sentida nos dedos e no rosto…

        Falemos de vida. Recebi flores! Tem coisa mais estranha? Hoje para mim não. Gasto tempo observando a beleza delas, a cor, o perfume e a vida que elas têm. Coisas que muito me perturbavam antes, como por exemplo busina de carros, quando as ouço mesmo daqui dou graças a Deus por elas. Deus? Pude tocá-lo. E a conta do hospital? Todos tão estressados com isso! Vocês não sabem o que é sair do vale escuro.

        Agradeço a todos de coração que estiveram comigo em espírito durante a minha agonia. Todos os familiares, amigos, e até aqueles que nunca pude conhecer de perto: sou muito agradecido a todos vocês, mas principalmente à Regina – nascemos como primos, mas ela ultrapassou a barreira e tornou-se minha mãe, rs, dando-me a luz da vida. Re! Palavras são insuficientes, tu sabes.

        Beijo em todos.

        Ricardo – coração valente!

Medo do Meu Escuro

Posted in 18 - Medo do meu escuro with tags , , , on September 30, 2008 by braverick

Vim para o hospital porque a bateria descarregou e eu precisei recarregar. Me deixaram num espaço, num corredor muito comprido, mas com várias divisórias. Dentro de cada divisória tinha uma cama com alguém doente, deitado. Na primeira noite que eu passei lá eu acordei no meio da noite e tava a fim de fazer xixi. Ainda bem, não puseram nenhum caninho em mim e também não consigo fazer na latinha que eles me deram. Levantei e fui com o soro procurar um banheiro. Por um momento pensei que eu tava passando pelo labirinto do fauno. Uma desgraça. Vi os doentes nas camas. Todos velhos, velhinhos… tinham idade para serem meus bisavós! Alguns pareciam estar mortos, outros pareciam que estavam parando de respirar. Outros sentados na cama, pareciam de cera. Estes me acompanhavam com os olhos, pareciam que estavam esperando eu passar.

Veio uma enfermeira atrás de mim e mandou eu voltar. Eu disse que precisava ir no banheiro, e ela disse pra eu fazer na latinha! Eu disse, “eu não quero”! Ela então me levou até o fim do corredor e eu entrei no banheiro. Quando eu saí ela tava lá, me esperando pra garantir que eu ia voltar pra cama e me comportar. Mas do nada eu olho pra minha esquerda e tinha uma janela bem grande. Pedi pra ela deixar eu ver. Ela permitiu e eu fui lá. Do lado de fora tava tudo escuro, a janela não abria por causa do frio. Mas a escuridão da noite era tanta que não dava pra ver absolutamente nada lá fora. A enfermeira disse pra mim que na opinião dela aquela era uma das paisagens mais lindas que ela já viu. Pensei, “como?”; “não vejo nada!”. Mas daí ela me mandou voltar pra cama.

No dia seguinte eu fui entender o que ela disse. Levantei e apesar de estar bem fraco, fui até a janela. Aliás tentei, mas somente me autorizaram ir com a cadeira de rodas – normas de segurança! Me levaram até a janela e era verdade. Era o lado do hospital que dá para o campo, mas era uma cena que mais parecia um quadro. Lindo! Havia um campo enorme, com muitas árvores, um rio passando lá no meio e lá no final uma grande montanha, com um castelo em cima. Lá no fundo era a cidade de Stirling e seu castela no alto da montanha. Isso é a Escócia, beleza por toda parte. Na noite seguinte eu tinha ficado muito mal. A enferemeira da noite passada, a mesma que falou que a vista era linda, apareceu na minha cama e eu contei pra ela que vi a janela durante o dia e que também achei linda. Ela deu um sorriso e disse que as vezes a escuridão que está na nossa frente é só aparência, por traz dela existe uma coisa muito linda que nos surpreende! Aquela mulher conseguiu, com poucas palavras, tirar o medo do meu escuro.

Let Me Live

Posted in Uncategorized with tags , , on September 30, 2008 by braverick

O outro teste não tinha nada de bom. Alguma coisa me dizia que eles não queriam um modelo para desfilar ou tirar fotos legais. Sharon fazia (e ainda faz) parte de um grande esquema de prostituição. O que ela faz nada mais é do que aliciar jovens que são usados para satisfazer seus clientes de alto nível. Ela é somente a ponta do iceberg desse esquemão. Na verdade a coisa é muito maior, mas eu não vou entrar em detalhes aqui. Quando falei com ela dizendo que eu pensava que tava entrando numa coisa, no fim essa coisa era outra, a resposta dela foi mais ou menos assim, “é pegar ou largar”! Resolvi pegar e isso é uma das coisas que eu mais me arrependo em toda minha vida. Zuei muito até aqui; sério, fiz quase tudo nessa vida, mas acho que apesar de tanta coisa tive uma vida normal até o momento que aceitei esse “trabalho”. Financeiramente, tudo mudou mesmo. As sofridas libras que eu recebia num mês lavando banheiro e sendo garçon, eu recebia em duas horas nesse novo “emprego”.

Passei a ser um objeto, um código no menu de um super hotel em Londres. Somente os clientes dessa enorme cadeia de prostituição que abrangia toda a Europa sabiam desse código e quando eles pediam por ele, recebiam no quarto um segundo menu, impresso ou eletrônico. Eram clientes ligados a grandes empresas, gente da corte, políticos, nobreza, enfim, pelegos e burgueses. Gente muito rica, homens e mulheres, mas apesar de poder e grana, viviam numa puta solidão e carência. Nem sempre a coisa era só prostituição; eles queriam simplesmente ter alguém para sair ou para conversar. As pessoas com as quais me relacionei estavam totalmente presas às suas máscaras e comigo elas mostravam quem realmente eram. Sabe de uma coisa? Tudo isso me deixou decepcionado com a vida, com o ser humano. O mundo que eu via, que passava diante dos meus olhos, que acontecia na TV, nos jornais, etc, era uma mentira, a realidade era podre. Aquela gente dizia ser um bem para a sociedade, mas diziam que precisavam sair da realidade as vezes porque viver só na real, para eles, era quase impossível. Por isso eles compravam, pagavam e presenteavam garotas e garotos como eu que precisavam sobreviver e não tinham amor próprio. Cara, isso é cruel! Eu perdi o gosto pelas coisas; comecei a comprar roupas bacanas, perfumes caros, comecei a ir na academia todo dia, mas sexo para mim era trabalho, perdeu o tesão. Fiquei um ano nessa vida, me relacionando com mulheres com idade para serem minha mãe, com homens que tinham vida dupla, respeitados na sociedade, mas sem coragem para mostrarem quem realmente eram. Nessa fase comecei a usar drogas. Mas depois desse um ano me libertei, graças a uma pessoa, um anjo, que me encontrou caído no chão numa rave em Brighton, eu estava lá no fundo do poço e com amor e paciência ela me fez libertar dessas drogas e da prostituição.

Lá no Brasil somente meu irmão Felipe ficou sabendo da minha vida de puto e nunca concordou, claro. E ele estava certo. No meio disso tudo o que eu mais queria era a minha família; mesmo sendo a segunda família, a do papai, com todas as dificuldades; somente agora eu vi o que é mesmo dificuldade. No meio disso tudo me senti sujo e comecei a pensar no papai, que com tudo, era um homem honesto, lutou e venceu na vida, sem perder a dignidade. Por que eu não saí dessa vida? Porque dessa vida não se sai, se foge dela. E foi isso que eu fiz. Levou um ano pra eu fazer isso porque foi o momento e a oportunidade que apareceram. Eu fugi, mas infelizmente as marcas continuam, estão presentes e a única coisa que eu quero hoje é continuar vivendo…

Dando um tempo

Posted in Uncategorized on September 13, 2008 by braverick

Ae galera!!!

Quero agradecer todos os e-mails e comments que vocês mandaram (até aqueles comments que eu não aprovei). Inclusive as críticas e palavras maldosas, agradeço por elas todas. Agradeço aquelas pessoas que leram meus posts com muita paciência.

Estou com alguns problemas de saúde e vou ter que me ausentar por uns 15 dias a partir de segunda dia 15. Depois, bem depois eu volto.

Fiquem na PAZ de Deus…

Tudo passa nessa vida

Posted in 14 - O Preço de uma Decisão, 15 - Não Desespera Ricardo, 16 - Tudo passa nessa vida, 7 - Rosângela ... with tags , , , , , on September 10, 2008 by braverick

        Marcaram o dia pra eu tirar as fotos para 2 semanas depois. Porra, que saco, que povo enrolado, podia resolver tudo num dia só! Enfim, resolvi aproveitar o tempo e comecei a exercitar o corpo e ficar bem legal no dia das fotos. Mas eu precisava comer também. Resolvi andar mais a pé, mesmo de madrugada quando eu costumava pegar o último ônibus para casa, passava um frio desgraçado. O inverno não tinha acabado totalmente. Comia chocolate e bebia chá com bastante açúcar porque isso me ajudava a ter energia. A tia do Walkabout gostava muito de mim e me dava toda manhã um embrulhinho de bacon roll, que é um tipo de pão de hamburger grande, com manteiga e tiras de bacon e comprava pra mim uma garrafinha de suco de laranja. Respirei fundo agora e tomei coragem pra dizer que no pub que eu trabalhava como garçon sempre sobrava algum chips (batata frita) ou alguma outra coisa e eu aproveitava… (reticências no meu bloguinho significa um momento de pausa – as vezes dói lembrar, é por pena de mim, eu sei, mas dói). Tudo na vida passa. Toda fase ruim passa… Além desse esqueminha, eu fazia sessões de abdominais e flexão. As vezes pedia pra levantar um amigo ou amiga pra fazer um pouco de musculação.

        Chegou o dia do teste de foto e eu fui com a melhor roupa que eu tinha, ainda roupa do Brasil. Passei o frio dos infernos, mas era a melhor roupa que eu tinha. Cheguei no escritório, esperei umas 2 horas, quase dormi lá, até que me chamaram. Entrei na sala e estava lá de novo a Sharon e dessa vez um cara que era o fotógrafo e mais uma mulher magrinha. Eles falaram para eu ficar relaxado e tranquilo. Sentei numa cadeira e a Sharon com aquela simpatia e sorriso começou a perguntar coisas. Como eu entendia metade do que ela falava e pra responder era um sufoco, a gente acabava rindo muito. Era uma técnica dela pra me deixar bem tranquilo mesmo. Durante essa conversa o fotógrafo tirava fotos de mim o tempo todo. Sharon disse pra eu nem dar atenção pra ele. Mas ele deve ter tirado umas 800 fotos. Mandaram eu ficar de pé e tirando fotos; mandaram eu tirar a camisa e sempre o barulhinho da máquina. Depois mandaram tirar a calça. Olhei pra Sharon e ela deu a entender que era pra eu relaxar; ok. Tirei a calça e fiquei só de under. Tiraram fotos de tras e da frente. Eu sentado, eu deitado e me deram um roupão de banho lilás pra eu vestir. Passaram um pó na minha cara, deram uma molhada no meu cabelo e passaram gel. Depois passaram uma base no meu rosto. Eu olhei no espelho e me vi lá, parecendo um viado, mais moreno. Até que da cor eu gostei. Queriam que eu ficasse excitado. Eu disse, “no way”, de jeito nenhum! Na verdade eu já tava de saco cheio! Quando eu disse não eles pararam e ficaram olhando pra mim. Pensei: perdi o emprego que nem comecei. Eu já tava pensando antes, quando tava indo pras fotos, se eu não conseguir esse trabalho eu volto pro Brasil. Não aguento mais. Prefiro passar fome lá, e eu sei que jamais passaria, do que continuar vivendo nesse inferno. De repente me imaginei chegando no Brasil. Sabe, eu acho que nosso maior inimigo é a gente mesmo. E o orgulho é uma das armas que nem sempre deixa a gente feliz. Por mais contraditório que seja, por causa do orgulho e do medo de ser visto como derrotado pelas pessoas na minha cidade, principalmente pelo papai, resolvi me humilhar naquela sessão de fotos.

        Sentei na cadeira e comecei a pensar na Rosângela… dali pra frente tudo mudou na minha vida, mas o preço pago foi alto, até hoje. Será que valeu à pena? Não, não valeu.

        Sharon chegou pra mim e me parecia muito contente. Ela me disse um monte de coisa que eu não entendi nada. Tava puto da vida, com raiva de mim. Pedi pra ela escrever tudo o que ela tava falando. Ela disse que eu não dei muito sorriso nas fotos, mas foi bom, ela disse, eu fiz um estilo com isso. Realmente eu não tinha motivos pra sorrir; aliás, nunca tive muito. Ela falou quanto eu iria ganhar com o trabalho e eu fiquei assustado, pensei que era mentira dela. Ela me mostrou as vantagens de trabalhar com eles e perguntou se eu topava. Eu disse que sim. Depois disso eu teria que voltar no dia seguinte para assinar o contrato. Tudo bem, e foi o que eu fiz, no dia seguinte estava lá.

Depois eu continuo.

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